Amar ou não amar

Opinião de João Fróis

O amor é desde tempos imemoriais um dos temas mais controversos e apaixonantes da epopeia humana neste planeta. Foi o mote de poesias oníricas, o sumo de textos bíblicos, a seda de narrativas milenares que ainda hoje ilustram essa condição tão bela quão incompreendida que é amar. Shakespeare imortalizou o nobre sentimento na dramática paixão de Romeu e Julieta, menosprezando a vida face à dimensão superior dessa chama que Camões disse arder sem se ver. Milhares de romances foram escritos, estórias de cordel foram urdidas em outros tantos mil recantos deste mundo complexo e ímpar e todas elas com o espírito inquebrantável que esse sentir poderoso faz descer sobre os que se entregam nas asas de Cupido.

Tanto se pode escrever sobre esta condição que tolda o discernimento e faz sonhar de olhos abertos, essa busca infinita da felicidade. Muitos fizeram desta senda missão de vida e deixaram-nos testemunhos belos e incomparáveis, obras maiores da humana capacidade de abstração e criação, onde, invariavelmente, o amor foi tema maior e omnipresente. Mas que dizer do amor nos dias de hoje, nos sobressaltos de um mundo caótico, frenético e díspar, com clivagens sociais e choques civilizacionais em crescendo?

Atentemos ao nosso retângulo lusitano e neste dia simbólico dedicado aos enamorados, ao que os mesmos, na juventude, pensam sobre a vivência do amor.

Num inquérito recente junto de adolescentes e jovens adultos, 58% afirmaram já ter sido vítimas de um qualquer tipo de violência no namoro! Actos violentos que vão desde a coação moral, ao isolamento social, ao controlo de telemóveis e redes sociais pelo parceiro, até à brutalidade física nos casos mais extremos. Ouvimos e lemos incrédulos face à dimensão desta praga silenciosa que mina a vida de tantos jovens e perguntamo-nos como é possível, nos dias de hoje, tais agruras acontecerem em tão grande numero?

Ainda aturdidos na busca de uma resposta cabal a tamanha contenda, somos esmagados pela contundência do que nos dizem no seguimento. 70% destes mesmos jovens acham “normal” este tipo de comportamentos violentos e abusivos entre namorados e companheiros…

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Fechamos os olhos, engolimos em seco e mal despertos desta brutal e crua realidade, tentamos discernir se não estamos a delirar e confundir conceitos. Infelizmente, estamos bem conscientes e o que lemos e ouvimos é a verdade que norteia essa juventude confusa e perdida entre os avanços da tecnologia e os retrocessos sociais, em velocidades tão opostas que poucos a compreendem na sua total essência e impacto na construção e moldagem das ainda imberbes personalidades.

Algo de muito errado andamos todos a fazer, é certo. Entre o rigor e disciplina com que os pais dos anos 60 e 70 criavam os seus filhos, as liberdades conquistadas dos anos 80 e 90 e as complacências e concessões dos anos 00 e 10 deste século XXI, muitos dos valores que norteavam pais e professores e ajudavam a criar adultos mais responsáveis e respeitadores, se foram irremediavelmente perdendo.

Muitos dos jovens foram sendo criados sem limites e tão pouco obrigações, gerando falsas sensações de que tudo lhes é devido sem nada terem de dar em troca. Uma geração de meninos mimados para quem o mundo é uma consola de videojogos e a escola um deserto de motivação. Sem a famosa escola da rua onde os agora quarentões e cinquentões foram esculpidos, e onde os egos cediam face à força do grupo e às suas leis de partilha e cedência, estes jovens de hoje, sem o exemplo disciplinador em casa, caem facilmente nas garras de uma violência que nasce da insegurança e incompreensão do outro, enquanto merecedor de respeito e liberdade de opinião e decisão. Sem esta espinha dorsal de caráter, forjado quer no exemplo quer na experiência substancial entre pares, a deriva para fenómenos de intolerância e autoritarismo é praticamente inevitável. Surgem assim as necessidades compulsivas da posse, do controlo sobre o outro, do poder de decidir o quê, quando, como e com quem o parceiro pode ou não conviver, numa descida aos infernos de onde, invariavelmente, saem chamuscados e emocionalmente fragilizados, com consequências dificilmente mensuráveis.

Mas não são apenas os jovens que andam desnorteados e por maus caminhos. Janeiro deste ano trouxe uma agudização da violência entre casais, tendo causado a morte a nove mulheres, pasme-se! Soaram os alarmes sociais e muitos se interrogam sobre o fenómeno e debatem as soluções possíveis para o parar. Temo que uma vez mais se confunda a árvore com a floresta e se olhe apenas para jusante e não montante deste rio ensanguentado, onde amores e desamores tiraram a vida a inocentes, face à brutalidade nascida da incompreensão, intolerância e arrogância.

Estes adultos que hoje violentam, espancam, subjugam e matam foram anteriormente jovens e terão crescido com problemas e omissões muito idênticos aos que identificamos nos adolescentes de hoje. Se no caso dos primeiros já só podemos fazer “tratamentos” paliativos dos danos que causam, já sobre os segundos muito se pode, e deve, ainda fazer. O que é algo que tem de merecer de todos nós aprofundada reflexão e urgente actuação, sob pena de cativarmos o futuro à violência gratuita, castradora e destrutiva que tanto mal causou, durante tempo a mais, a milhares de incompreendidos e fragilizados seres humanos.

Criar uma escola para pais, em paralelo com a escola onde os filhos devem poder usufruir de matérias e métodos modernos e adequados aos tempos, é imperioso. A responsabilização tem de ser pedra de toque. Pais que não cuidam e não fazem a sua parte de educadores têm de ser chamados à liça, discernindo o que é incapacidade da falta de vontade e empenho. A escola tem de criar valências que possam apoiar os pais, mas também incluí-los activamente no processo escolar dos filhos. Com abertura à participação mas sem espaço para treinadores de bancada e guerrilhas espúrias entre egos acirrados pela competição. Tudo isso tem de ser travado e a melhor forma de o fazer é ensinar às crianças e jovens os verdadeiros valores que formam o tecido insubstituível da construção social, o respeito pelo outro, a tolerância, a apologia da liberdade e responsabilidade, a partilha, a compaixão, o voluntariado, a caridade e bondade enquanto cimento de todas as relações humanas.

Sem estas pedras nenhuma casa vingará, cedendo facilmente aos ventos da discórdia e às torrentes da violência de género, raça e credo. O mundo precisa de amor, de concórdia e bom senso para poder avançar. Só com esta força inquebrantável será possível vencer o medo, a insegurança, a incompreensão e recorrente violência em todas as suas formas abjectas e reprováveis.

Nada fazer é suicídio coletivo. Falar sobre o assunto, partilhá-lo, gerar movimentos de opinião, são caminhos determinantes para que possamos almejar a mudança de paradigma. Que cada um contribua com um pouco de si para que esta nobre causa seja uma realidade e o mundo possa ser menos violento, mais tolerante e onde o amor seja aquilo que foi sempre, livre, luminoso e feliz, bem longe desta triste realidade que nos entristece, preocupa e corrói a esperança.

Amar é também partilhar. Amemos então!

Isuvol
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