American dream, earth’s nightmare

Opinião de João Fróis

O mundo tem conhecido uma forte americanização desde que a Europa capitulou, por culpa própria, na 2ª Guerra Mundial, cedendo o protagonismo ao novo mundo que 200 anos atrás ajudou a fundar.

Esta América impôs o capitalismo como nova ordem mundial, permitindo-lhe reinar até ao limiar deste novo século, numa dança “fria” com a extinta URSS e sorrindo com a sua desagregação e novas guerras intestinas na velha Europa, a sangrar nos Balcãs.

Mas o gigante amarelo acordou da sua longa letargia secular e armou-se como fábrica do mundo, produzindo barato o que outros não queriam ou podiam, erguendo cidades e pontes onde antes havia arroz e miséria. A nova China é o reflexo deste imenso espelho baço que o capitalismo selvagem gerou. A mola da economia mundial é o consumo e a sua voragem é imensa, chegando a cada vez mais ávidos novos devoradores de bens perecíveis e produtos supérfluos. Todos querem o seu quinhão e com a digitalização da economia é muito fácil comprar tudo o que se queira e possa pagar!

Este paradigma nasceu e cresceu nos EUA. O americano comum vive abastado de bens e gere a sua vida em torno da sua aquisição, manutenção e alargamento constante. O American dream é tão só “enriquecer”. No apelidado país das oportunidades em que todos querem ter sucesso, a todo o custo e ser os novos milionários da famosa lista da Forbes. Ter é poder. E quanto mais melhor. É assim que um cidadão norte americano pensa e nada o irá demover desse caminho. Nem que para tal tenha de matar, em “legítima defesa” da sua propriedade! É este país onde existem mais armas do que pessoas, em que cada cidadão consome cinco vezes mais bens do que um europeu e mais vinte que um asiático ou trinta que um africano, que tem imposto a sua lei ao mundo. E a verdade é que esta (des)ordem nos está a levar a um caminho sem retorno. A continuar assim, esta civilização poderá extinguir-se nos próximos 200 anos!

E as razões estão à vista de todos nós, igualmente culpados por sermos parte desta imensa engrenagem de consumo absurdo de bens.

O conceito da pegada ecológica lembra-nos, de forma dramática mas real, que o atual ritmo de consumo já exige três planetas iguais ao que ainda temos como casa. E, olhando em redor, o que vemos? Um mundo de contrastes gritantes, mais desigual do que nunca mas com cada vez maiores consumos de bens para uma população que chegou a uns absurdos sete mil milhões. E que poderá alcançar os nove mil milhões até 2050.

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A verdade dura é que somos muitos. E nada bons para a casa comum, depauperando grosseira e injustificadamente os seus já magros recursos. Alimentar tanta gente, com a produção atual, será um desafio a roçar o delírio economicista. As florestas estão a ser abatidas para plantar soja, para alargar pastagens para bovinos que contribuem para aumentar o colossal buraco do ozono, aquecendo ainda mais esta panela de pressão em que o planeta se está a transformar. Os oceanos estão mais quentes e ácidos, as correntes marinhas que geram as depressões e as chuvas estão em colapso e basta atentar à seca atual de um inverno cada vez mais soalheiro para se perceber que o clima ficou refém da nossa absurda estupidez civilizacional.

O automóvel, símbolo maior da modernidade e mobilidade individual, é um paradoxo só entendível pela força dos lobbies do petróleo e que teimam em ceder às evidências gritantes do incompreensível consumo de combustíveis fósseis. Temos o melhor da tecnologia para nos conectar ao mundo, com gadgets de localização, segurança e comunicação nascidas no séc. XXI e a propulsão da máquina continua a ser assegurada por tecnologia do séc. XIX. Esta aberrante realidade só existe porque grande parte das maiores economias mundiais estão presas ao petróleo e derivados. E mesmo as gigantescas termoelétricas são monstros vorazes que o vento, as marés e o sol podem, de modo mais limpo e saudável, substituir.

Outro sinal desta vertigem aberrante de consumo desenfreado é o lixo que é gerado diariamente no planeta. Grande parte deste imenso desperdício vai parar aos oceanos e, no Pacífico norte, existe uma imensa “ilha” artificial de lixo, grande parte dele plástico, já apelidado de platisfera e que, presume-se, tenha já o tamanho do território francês!! Pasme-se porque tantos satélites não nos dão sequer uma imagem desta triste realidade? Porque não interessa revelar ao mundo, mantendo o imenso rebanho de consumidores, entretidos a trabalharem para pagarem impostos e comprarem mais e mais produtos, pouco se importando se o mundo se vai exaurindo e se os seus filhos e netos não irão ter um planeta capaz de os acolher…

Mas como parar esta máquina gigantesca que é a economia mundial assente no consumo? Se queremos um aparelho de TV temos dezenas de marcas disponíveis e quase todas iguais, só mudando o preço e a aparência. E é assim com todos os produtos de tecnologia. Um computador está feito para durar três anos sem problemas. E as garantias estão feitas para dois. A ideia subjacente  não é reparar, é substituir. Pois só assim as fábricas podem continuar a trabalhar e a gerar riqueza sem fim. Tudo está assente nesta mesma premissa. Curta duração, consome e deita fora. O novo torna-se velho em horas, dias ou semanas. Nada é nem seguro, nem verdadeiramente fiável ou satisfatório. Tudo é efémero e descartável. E no entretanto as pessoas adoecem, a poluição aumenta, a miséria cresce e as desigualdades agravam-se. Sim, porque para cada vez mais poderem “ter” esta panóplia de bens que verdadeiramente não precisam mas sem os quais já não passam, existem outros tantos que têm cada vez menos, lutam pela sobrevivência entre guerras, fome e escassez de bens de todo o género.

É este mundo desigual e inseguro que estamos a gerar a todo o minuto. As espécies animais que viveram por cá milhões de anos estão a ser extintas a um ritmo aterrador. E tudo por culpa nossa, a mais letal espécie que este planeta já conheceu. E que poderá ser a última desta era tal como a conhecemos.

Que legado vamos deixar às gerações vindouras? E será que isso preocupa quem manda no mundo? E que fazemos todos nós por mudar esta situação insustentável?

Continuamos a olhar para os recursos como o explorador que no séc. XIX chegava a África e tudo matava e colhia para seu gáudio e prazer. Mas nessa época ainda se pensava que tudo existia em quantidade tal que era possível consumir sem freio. Hoje, no apogeu da era da comunicação e informação, sabemos que não é assim. Muito pelo contrário e à evidência de todos. E que vemos? Líderes mundiais preocupados com a imagem mútua que cada um tem e com a manutenção dos seus egos imperiais. Líderes despóticos e usurpadores dos seus países e recursos como África tão bem ilustra. Líderes postos em causa por golpes palacianos, como no Brasil e outros cegos e incapazes de viver sem o negro petróleo gerando o caos, como na Venezuela. Na europa rebentam bombas e são arremessados camiões contra civis, numa guerra de civilizações que não se aceitam nem compreendem mutuamente. E os populismos grassam e ameaçam com a estupidificação mundial, impondo a demagogia barata das massas sobre a cultura e ordem institucional.

Esta senda ciclópica do Ter traz-nos até aqui. Lemos numa notícia de rodapé que oito dos mais ricos têm tanto como a metade mundial que menos tem!! Como? Sim, é a verdade pura e crua que nos deveria assombrar e levar a agir. Mas o conforto que nos prometem, em casas confortáveis e aquecidas, que teremos de pagar por uma vida inteira de trabalho, repletas de televisores de última geração onde a máquina de entretenimento do mundo nos entra olhos dentro, desligando-nos da realidade e amestrando-nos, leva-nos a continuar impávidos e serenos e a colocar uns likes facebokianos que nos descansam levemente as consciências perturbadas, nas notícias inquietantes que já não nos comovem…

Precisamos de tudo o que este mundo gera? De tantos produtos e marcas, de tanta publicidade e desperdício? De tanto alimento processado? De energia suja e cara? De bancos e sufocos financeiros com hipotecas? De impostos absurdos para pagarem corruptos e luxos? De guerras absurdas alimentadas por lobbies obscuros?

Não, não precisamos! De todo.

Precisamos, sim, de inteligência ao serviço da ciência. De parar com o consumo de combustíveis fósseis, de gerar plásticos e lixos incomportáveis, de produzir limpo e eficientemente, de pensar o trabalho de pessoas para pessoas e ao serviço de todos. Trocar o dinheiro por serviços, impor regras e limites à ganância. Limpar o planeta, aproveitando o que nos pode dar sem o pressionar e depauperar. Precisamos de humanismo e tolerância. De amor e compaixão. De solidariedade e altruísmo. De cultura e criatividade. De imaginação e sabedoria. Precisamos uns dos outros.

Mas será que ainda o sabemos fazer? Ainda iremos a tempo de parar esta descida abrupta até ao abismo civilizacional?

Acredito que sim. Mas o tempo urge e cada minuto e hora fazem a diferença. Cada um de nós tem de fazer a diferença. Todos os dias, nos pequenos grandes pormenores. Para que haja futuro!!!

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