Ano novo, política velha?

Opinião de João Fróis

Em cada novo ano renovam-se ideias, votos e projetos, como se a mudança do calendário assegurasse num passe de mágica aquilo que na realidade fica em grande parte nas intenções.

No cenário político vamos ter eleições legislativas no final deste mês e uma coisa parece certa, no meio de tanta incerteza, iremos ter mais do mesmo. Ou talvez não.

Olhemos as movimentações do final de ano e os sinais mostram, mais que as palavras, o que podemos esperar.

O 1º ministro em funções continua a pedir maioria absoluta. Como se o lastro da famosa geringonça não lhe tivesse dado cartas de alforria e fosse agora mais um peso que o seu contrário. As tendências egocêntricas de Costa são evidentes e o seu autoritarismo de sorriso amarelo tende a quebrar qualquer verniz que Rio possa tentar aplicar num pacto de governação ao centro.

O PSD estabilizou internamente e tenta encurtar distâncias para o PS, mostrando ser a alternativa que não tem sabido ser enquanto oposição. O voto de confiança que Rio pede dependerá muito do nível de descontentamento com um governo cheio de casos polémicos, entre a demissão de Cabrita, os estilhaços do SEF e as diatribes na gestão da pandemia. Se da erosão irá nascer mudança é algo que nenhuma bola de cristal antecipará.

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O que já antecipamos são as movimentações dos partidos em busca da sobrevivência. Se o BE e o PCP inviabilizaram o orçamento, forçando eleições, dão agora sinais evidentes de abertura para uma nova geringonça. Estranho? Nem tanto, se bem observarmos os sinais de queda no seio comunista e alguma desagregação no bloco. Mais que dar a mão a Costa cumpre inflar o balão do espaço político e do peso, mesmo que secundário, na governação. O poder nem sempre é óbvio e escolhe o caminho mais curto.

Na direita temos a crise identitária de um CDS a quem muitos já encomendaram as flores para a morte anunciada. As demissões internas deixaram o líder a falar sozinho e a lamuriar-se de Rio não lhe ter dado a mão. Também aqui ter a boleia do irmão maior é determinante para que possa haver futuro. Esta será uma das imagens fortes que sairá das eleições. Depois um Chega em crescimento e a cavalgar o descontentamento social que muitos não calam e querem ver como vórtice de mudança. Os resultados de Ventura poderão ser de monta e ditar muito dos arranjos de uma assembleia em transfiguração. O IL, sendo arauto de um liberalismo que o PSD tem deixado arrefecer, não terá ainda fôlego para fazer pender a balança mas irá dar uma tendência de alternativa à direita.

A 30 de Janeiro o país dirá se quer continuar dependente da UE e com enormes tensões sociais e económicas, ou se aponta finalmente a um novo ciclo de renovação do estado, sempre adiada, com uma aposta firme na criação de riqueza e apoio à iniciativa privada. Mais estado e os problemas de sempre ou menos estado, melhor estado. Aguardemos a sentença.

*Artigo publicado na edição de janeiro do Jornal de Cá.

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