As chamas da insanidade

Opinião de João Fróis

Estamos em plena época estival e há um tema que, infelizmente, se sobrepõe sobre os demais, os “inevitáveis” incêndios florestais. É assim todos os anos desde que me lembro e nada parece ter mudado nesta república à beira mar plantada há 107 anos. Os telejornais abrem com imagens de chamas e populações aflitas e exploram este filão ad nauseum, numa catarse doentia que levanta coros de indignação e suspiros conformados desta triste “inevitabilidade”… confesso que este tema me revolta desde há muito e que, tal como milhares de portugueses, estou cansado de tanta inoperância e grosseira incompetência na gestão do território nacional. Poderia pegar noutro número qualquer mas atenho-me nos 268 incêndios que estavam ativos no passado sábado, 12 de Agosto, um pouco por todo o país.

Vamos por partes. Qual a origem destas ignições? Tenho para mim que 99 por cento têm mão humana e neste rol tremendo de ações danosas, os atos criminosos superam os 80 por cento, sendo os demais negligentes, seja por queimadas mal controladas, lançamento de foguetes (apesar da proibição) e ocorrências elétricas ou mecânicas. Não tenho qualquer dúvida que existem interesses por detrás desta aberrante e incompreensível maré de chamas que lavra por essas florestas dentro, pondo vidas em risco como infelizmente se veio a verificar em Pedrogão Grande há dois meses atrás. Mas a verdade é que após essa trágica e lamentável ocorrência, têm surgido incêndios diariamente, em número avassalador e imparável. Centenas de ignições diárias é algo que ultrapassa a mais imaginosa ficção mas é esta a nossa triste realidade diária, neste país sui generis onde a culpa insistentemente morre solteira. A nossa classe política continua a cavalgar o absurdo a níveis escandalosos, demonstrando uma total incompetência para resolver um problema antigo e que teima em nos assolar todos os verões, ceifando vidas, destruindo propriedades urbanas e rústicas, atirando para a quase indigência milhares de cidadãos que vivem nesse país esquecido, entre serranias pejadas de árvores e matos sem controlo nem gestão cabal.

Sabe-se que este país tem uma população fragmentada, envelhecida e empobrecida mas que se teima em esconder e que por “azar” para a classe política dirigente, insiste em viver em zonas que são igualmente “insistentes” em arder todos os anos e que para piorar as coisas, ainda vêm a morrer na fuga a este inferno que se permite cair sobre os inocentes, sem dó nem piedade. Existem muitos incendiários neste país, pessoas que por problemas económicos ou mentais aliviam as suas dores no laranja vivo das chamas que alumiam as noites e criam o caos em seu redor. Sabemos que ainda existem alguns pequenos lavradores que são negligentes nas suas queimadas e que geram incêndios sem o querer. Mas perceber que durante a noite, surgem centenas de ignições, com centenas de metros e em locais estrategicamente inacessíveis, leva-nos a mais do que suspeitar, adivinhar as mãos criminosas por detrás destas calamidades. Ora, mais do que saber quem foram os autores materiais destes crimes, cumpre identificar quem são os mandantes deste ataque feroz à floresta nacional e que o fazem, uma vez mais, a coberto desta impunidade grosseira que, também ela, insiste em ser useira e vezeira.

Continua a falar-se muito neste país de “treinadores de bancada”, com opiniões para todos os gostos, mas não se vislumbram decisões fortes e alterações profundas que de uma vez por todas ajude a, senão acabar, a reduzir em muito esta tragédia absurda e revoltante que, igualmente insiste em nos acompanhar de perto. E para tal não precisamos de mais leis mas sim de mais ação e atitude empenhada em levar a cabo as reformas profundas que urgem há tempo a mais. Mas há decisões que podem e devem ser tomadas desde já. E a primeira é o retorno do ataque aéreo às chamas pela Força Aérea, tal como aconteceu durante largos anos de uma forma competente. Entregar este combate a empresas privadas levanta desde logo a suspeita dos interesses destas na existência de incêndios, gerando lucros desmesurados na ordem das centenas de milhares de euros por cada dia de ação. Assim há que trabalhar a montante e a jusante. Reorganizar a floresta, cadastrar devidamente a propriedade e atribuir responsabilidades é imperioso. E entregar às forças militares que pagamos com os nossos impostos o combate a este flagelo é igualmente fulcral. Por outro lado, criar equipas de vigilância e manutenção florestal e permitir que a nossa polícia judiciária leve até ao fim todas as investigações e apure os verdadeiros mandantes e interessados nesta anarquia escaldante e aviltante, que grassa neste país. Mais que não seja, todos os que morreram nos incêndios merecem que a sua memória seja dignificada com a alteração substancial e definitiva deste estado de sítio em que nos encontramos. Vamos agora atentar por quanto tempo este tema incómodo irá estar na agenda política! Suspeito que, findo o verão e iniciada a corrida autárquica, esta “insanidade” coletiva seja novamente remetida a uma gaveta da qual ninguém vai saber da chave…

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