As faces do terror

Opinião de João Fróis

Manchester. Explosão, morte, o terror de volta. A velha Europa sangra de novo e condói-se com a perda de vidas inocentes, ainda crianças na flor da vida. Saltam-nos à memória episódios semelhantes e recentes, num mercado alemão e em Nice e damos por nós a recuar até Londres e Madrid, com explosões mortíferas no metro e comboio. A ceifar impunemente inocentes, como nós, entregues às suas vidas e a desejarem apenas paz.

E enquanto as imagens passam incessantemente nas televisões, distanciamo-nos desta montra aberrante em que a morte se veste de espetáculo e cavalga a notícia em mais uma demonstração de força de quem a promove e glorifica.

Vendem-nos a morte como inevitável e apelam a que não nos entreguemos e sigamos com as nossas vidas. Mas e o que fazem os senhores do mundo? Dão conferências de imprensa a apelar à calma, rodeiam-se de um aparato policial que conforte os mais inseguros e ancoram-se em discursos militarizados de não cederem ao terror e aos que o usam como arma. Palavras bonitas que no entanto nada fazem para impedir que mais inocentes morram despedaçados por uma bomba, esmagados por um camião ou trespassados por uma bala.

E na sombra destes discursos políticos movem-se os interesses maiores do petróleo e das armas, em jogos estratégicos entre o ocidente e o médio oriente, génese conhecida dos movimentos terroristas mais mediáticos e que continuam a fazer a sua guerra de civilizações.

Que dizer da visita recente de Trump à Arábia Saudita? Um regime apoiado desde sempre pelo ocidente mas que sempre foi intolerante aos princípios civilizacionais que o mesmo defende. A liberdade não existe na AS. Nem a tolerância. Tão pouco a igualdade. As mulheres continuam a não ter direitos e a serem dependentes do homem. E assistimos ao discurso do presidente dos EUA perante uma assembleia de árabes, a apelar à paz e na resposta ouvimos o politicamente correto, de tudo ser feito para garantir a mesma. A hipocrisia atinge níveis aberrantes. As encenações são pensadas ao pormenor para que nada falhe e a imagem final seja uma alegre foto de “família”. E nas costas desta mise en scéne a AS acusa o Irão, inimigo Xiita, de ser o único culpado do fomento do terrorismo ao tentar impor-se aos regimes sunitas conservadores onde a primeira é estandarte maior. E no mapa, mais a norte, continua a grassar uma guerra infindável contra o Daesh, dizimando cidades e populações e matando todos os dias crianças inocentes. Guerra e terrorismo tornaram-se as duas faces do demónio. E este veste-se de fato e colarinho branco e passeia-se nas conferências internacionais onde, sarcasticamente proclama a paz e hipocritamente semeia a guerra. As armas com que o “estado islâmico” combate são vendidas por países ocidentais. São as balas que enchem as contas bancárias de alguns que continuam a matar por esse mundo fora. Impunemente. E se os decisores políticos e detentores do poder nada fazem para inverter este caos, têm as mãos sujas de sangue. Sangue inocente dos filhos daqueles que juraram proteger nas suas tomadas de posse. Sangue inocente dos que crescem a acreditar nos valores sociais e morais que são a pedra base da velha Europa e de muitos países deste mundo tão plural. Valores que esses “aliados” no médio oriente não professam nem defendem, antes abominam. Aceitam os petro dólares com que enriqueceram absurdamente. E recebem de mãos abertas as armas produzidas nos EUA, a mais poderosa indústria de armamento conhecida. Mas, hipocritamente, mantêm-se resolutos no ódio à apelidada libertinagem em que o ocidente vive. Esta não aceitação criou um fosso inultrapassável e que continua a alimentar as seitas do ódio e terror que em nada têm a ver com o Corão e os verdadeiros muçulmanos. Esta confusão de conceitos foi gerada para ocultar os verdadeiros artífices destes jogos sujos e permitir que os interesses se mantenham secretos e insondáveis a este mundo da informação na hora.

O que os povos europeus têm de exigir aos seus políticos é que assumam de uma vez por todas as suas culpas e façam tudo para lutar contra as raízes profundas deste mal imenso que vai mostrando as suas garras de morte, semeando o medo e o terror.

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As faces do terror não são homens de cara tapada ou de longas barbas. Nem tão pouco jovens de mentes distorcidas e instrumentalizadas que se suicidam em nome de crenças ignóbeis aos nosso olhos. Esses são “apenas” peões, autores materiais do terror. Mas são as faces que vemos todos os dias em noticiários a venderem-nos hipocritamente mensagens e valores que verdadeiramente não defendem. São os defensores da liberdade mas que protegem os poderosos que fabricam armas, exploram as jazidas de petróleo e alimentam os circuitos da droga. Dinheiro sujo que um qualquer offshore rapidamente lava e que volta a entrar no circuito mundial para amparar nobres causas e eventos pejados de holofotes e flashes. Vai assim este mundo. Sarcástico, hipócrita, injusto, desigual. Violento e violentamente competitivo. Xenófobo e sectarista. Falsamente moralista e a endeusar o oportunismo. Aproveitando os bons ventos da visita do Papa a Portugal deixo uma questão: se Jesus Cristo expulsou os vendilhões do Templo, que faria hoje perante um mundo tão podre e pecaminoso? E por fim, olhe-se para o Brasil e para a queda de Temer. O exemplo acabado de que a política e os políticos não nos servem. Servem-se de nós, para os seus interesses e dos seus apoiantes. E que a corrupção, tida como inevitável no país irmão, é apenas mais uma das faces do terror. Segrega, exclui, separa, corrompe, destrói. E fomenta a revolta legítima mas também os que crescem nas sombras doentias da sua complacência. O mundo precisa de líderes. De humanistas. De quem verdadeiramente sirva e se dedique ao bem comum. Até lá vamos soçobrando aos males que vão dizimando a esperança!

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