As notícias que não chegavam

Por Vânia Calado

– Ó filha, vai lá ver se já se sabe.

Tinha andado nesta lengalenga o dia todo e a filha de chamamento, mas sobrinha de sangue, lá ia rua acima a cada pedido para voltar rua abaixo com a mesma resposta.

– Dizem que está demorado, tia.

Sentada no degrau do barracão, a tia encostou uma mão à testa para quebrar o sol que lhe batia nos olhos, e com a outra ajustou o pano que lhe protegia a cabeça antes de voltar a insistir.

– Vai lá ver.

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Ela foi, já se sabia que os pedidos dos mais velhos eram ordens para os mais novos. Subiu a rua com o passo apressado de todos os dias e, em menos de nada, entrou pela porta do café que não era mais do que uma tasca que via esfregona mais vezes. Entrou pela esquerda onde se juntavam mais mesas e cadeiras do que o espaço parecia conseguir albergar e deu sinal para o balcão que ficava na sala do lado.

– Mas estás aqui outra vez, rapariga?

Encolheu os ombros que também ninguém esperava outra resposta e abriu caminho entre os que se juntavam ali para ver televisão a preto e branco.

Abriu as portas de madeira, entrou e fechou-as atrás de si com um ligeiro clique. No pequeno balcão à sua frente tinha o telefone e o livro alto com o nome de todos aqueles que tinham telefone e o respectivo número à frente. Não precisou de o abrir, sabia bem ao que ia. Marcou o número e esperou.

Do lado de fora da cabine, continuava a vida normal. Os que se juntavam naquela sala para ver televisão, os que esperavam ao balcão pelo copo de vinho servido por quem mantinha o mesmo ar carrancudo de todos os dias. Lá dentro, ela ouvia com atenção o que lhe diziam.

Ainda não estava a pousar o auscultador e já corria rua abaixo sem se preocupar em pagar o telefonema que acabara de fazer.

– Isso não e próprio de uma mulherzinha.

Ouviu dizer quando passou pelo grupo de linguarudas de serviço, mas daquela vez nem se preocupou em responder. Entrou em casa da tia sem se preocupar com comportamentos ou respeito e assim que a viu, sentada no mesmo degrau ainda com a mão a tapar o sol que não a deixava abrir os olhos, deu-lhe a notícia que tanto esperava.

– Já é avó, tia.

– Avó? Ai, que palavra tão pesada.


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