As politiquices dos idosos: a importância da honestidade

Por Raquel Marques Rodrigues

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Com as eleições à porta, as propagandas e os discursos são inevitáveis. Fala-se em política e as opiniões dividem-se: uns criticam outros aborrecem-se. Já pensaram o que a política faz na vida das pessoas? E porque dizem: ”todos os políticos são iguais”. O que tem os mais velhos para dizer sobre este assunto? Foi com base numa visita de cortesia dos novos candidatos à autarquia da área da residência sénior onde trabalho, que partilho consigo as politiquices dos meus idosos.

São 11h30 de sábado, agosto, em Pontével. Muitos dos idosos já aguardam ansiosamente a sua visita. O artista da casa, como costumo dizer, anda de um lado para o outro, atento ao toque da campainha com a sua guitarra na mão, pergunta-me: ”Quando vem? A que horas chegam? Quantos são?“ O sr. J., 80 anos, já havia selecionado dias antes duas músicas para oferecer ao grupo de candidatos. Vaidoso e empolgado, afirma: “escolhi duas músicas em dó e ré menor para tocar”. Risotas intercaladas com a firmeza dos seus dedos nas cordas, menciona: “Veja, optei pelas músicas mais trabalhosas, tal como a política é”. A avó C., 87 anos, oferece com todo o entusiasmo da sua coleção de panos de cozinha um pacote de embrulho a cada elemento. Afinal, sete dias por semana ela dá ao dedo sem parar, e como diz: “parar é morrer”. Não devemos nos resignar à velhice e renunciar ao trabalho. As limitações não existem, apenas na nossa cabeça. Será assim a política?

Alguns dias antes da sua chegada, lanço a pergunta a um grupo de idosos : ”O que é a política para cada um de vós? O que representa?” Repentinamente, todos atropelam-se e querem participar no debate. No entanto, muitos deles, prendidos ao relógio do tempo vivem no passado salazarista, e como tal, não manifestam a sua opinião, dizendo ter medo e respeito. Outros comentam: “primeiro eles governam-se, depois pensam na gente”. Já o sr. A., de 92 anos, refere: “que a política é o ato de ensinar e de discutir interesses para a sociedade. É a doutrina para um povo, mas é urgente a honestidade”.

Mas o que é a honestidade hoje em dia? Que valores tem? A honestidade é melhor virtude no seio da família, no trabalho e na sociedade, mas na política assume especial relevância. Ela é a palavra chave entre moral e política. Para a sra. N., de 87 anos, a honestidade é “o valor do carácter da pessoa e da sua consciência”. A honestidade não se promete, pratica-se. Ela é a melhor qualidade para conquistar o respeito e confiança, tornando-se no primeiro e grande passo para a mudança.

É deste modo, que os idosos querem ser tratados, com honestidade. Por isso, fazemos política quando reivindicamos os direitos e quando nos interessamos pelos problemas da sociedade civil. Eu faço política quando asseguro o conforto e garantia da satisfação para a realização das necessidades básicas dos seniores. Quando os trato com respeito e amor. Quando em equipa trabalha-se para uma política de bem-estar.

Os sonhos não tem rugas, por isso quando eu chegar a velha, espero desfrutar com dignidade os bons frutos da política do nosso Portugal.

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