As Praxes

Opinião de Miguel Montez Leal

De há uns anos para cá, as praxes académicas tomaram conta das nossas principais cidades. Não se efectuam só em Setembro, época inaugural da Academia, mas prolongam-se por todo o ano.

Chega Setembro e, em Lisboa, é observar os castigos, humilhações e suplícios por que passam os caloiros. Jovens vestidos de negro, imitando o traje coimbrão, voam como corvos sobre Lisboa. Muitas vezes estou na Torre do Tombo e através dos grandes janelões da sala de leitura deste arquivo nacional, posso observá-los com as suas brincadeiras idiotas.

Não sou contra a praxe, desde que esta não seja violenta e seja integradora. Sou contra a praxe violenta, que infelizmente parece ganhar terreno, todos os anos. Muitos professores universitários e investigadores têm a mesma opinião, e até alguns reitores, que já o disseram publicamente, mas ainda nenhum Conselho de Reitores teve a coragem de proibir este medievalismo em pleno século XXI. Parece que as Academias e alguns dos brilhantes cérebros dos veteranos ficariam muito perturbados e ofendidos.

Em 1952, num livro que escreveu (mas que deixou inacabado), intitulado Abraço de Irmãos, o meu tio-bisavô, o tenente-coronel Carlos Alberto Cacella de Victoria Pereira, que tinha filhos a estudar em Coimbra, já se insurgia contra a praxe. Em 1952! Estamos em 2015 e pouco mudou neste campo.

Quando entrei em 1988 para a Universidade, conheci uma Escola, a Universidade Nova, uma escola pública de qualidade, de criação recente, pois fora fundada em 1973. Tinha e tem grandes Professores, e na época tudo o que se aproximasse dum espírito coimbrão em Lisboa era à partida pouco alimentado e até mal visto. Eram raros os estudantes que usavam capa e batina, os professores não escreviam sebentas, nem mandavam comprar sebentas da sua autoria. A bibliografia era extensa, sobretudo francófona, anglófona, castelhana e portuguesa. Contudo, uma minoria, à época, tentava, de uma forma fandanga imitar os costumes de Coimbra, o que em Lisboa é impossível. Iam até às praxes e às bênçãos das pastas num estádio universitário – também eu não escapei, não foi violenta, mas mais tarde, nunca praxei ninguém. Alguns veteranos eram os imberbes do segundo ano, que pareciam divertir-se a humilhar os recém-chegados.

Em Lisboa é muito mais difícil fazer vida académica, estamos a falar de Lisboa e da Grande Lisboa, que ultrapassa os mais de dois milhões e meio de habitantes. Terminam as aulas e muitos estudantes regressam imediatamente a casa, aos seus bairros lisboetas, ou às linhas suburbanas que vão até Setúbal e Sintra, ou quase suburbanas que se estendem até Santarém. Não há tempo, não há espírito académico, e cada um corre para seu lado. Contudo, nos últimos quinze anos, a praxe voltou em força. Em sussurro, à portuguesa, professores, investigadores e bastantes alunos são contra esta patetice; publicamente, muito menos. Estudei em três universidades, duas públicas e uma privada. Em nenhuma delas pratiquei praxe.

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Parece que o ser humano tem necessidade de rituais e de estranhos códigos de humilhação e de prepotência, que só a psicanálise poderá explicar. Aguardo não por D. Sebastião, mas por um reitor que ponha fim à praxe violenta, que tenha a coragem de ir contra movimentos académicos e de veteranos, que estão vinte ou mais anos a fazer uma licenciatura. Se a praxe for Inter Pares e integradora, nada tenho contra. É uma forma de se ir conhecendo os cantos à casa.

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