Blackstar

Opinião de João Fróis

A morte, invariavelmente, apesar de certa, acaba sempre por nos surpreender. E faz-se sentir poderosa quando nos leva um dos nossos ícones e nos deixa a todos com a sensação de orfandade. Apaga-se uma luz mas a sua aura incendeia-se na memória viva e afetiva de milhões.

Mr. Jones foi um daqueles homens maiores que o seu tempo, maiores que a vida do comum mortal. A genética proferiu-lhe um charme british a que um incidente precoce acrescentou uma iris mítica e incontornável, como que uma janela sempre aberta à criatividade e inovação, ao arrojo estilístico e à irreverência artística. David criou peças únicas na música pop rock do séc.XX e guindou-nos com momentos sublimes de pioneirismo e estética melódica que encantou milhões e inspirou outros tantos neste palco da vida terrena.

Nunca o artista mostrou querer ser maior que a sua obra, criando música sem a vertigem do momento e do efémero.

Contrasta assim com estes tempos que vivemos e onde nos deixou, onde tudo e todos se parecem conformar ao culto do perene, da fama instantânea, do ter algum tipo de audiência que legitime a sua existência enquanto ser social. Esta quase emergência de ser e estar visível, de ser notado, esvazia-nos de conteúdo, retira-nos consistência, impede a necessária lentidão da aprendizagem da sabedoria. Mr. Jones inovava, arriscava tendências, propunha novas abordagens mas nada impunha, sujeitando-se à tangibilidade da criação, à incerteza da apreciação, à subjetividade mais ínfima da condição humana. Sem pressa, sem egos maiores que o prazer de criar e partilhar a inspiração, acrescentando fruição e presença, calor e luz. Hoje as luzes são fogos fátuos, foguetes que explodem antes mesmo de os entendermos, estilhaços inconsistentes de fragilidades escondidas no medo dos imensos vazios que grassam neste mundo em chamas…

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David escolheu apelidar-se Bowie, inspirando-se num revolucionário texano e na sua coragem mitificada. Essa coragem acompanhou sempre a sua obra e as suas criações, quando foram céu no brilho de “estrelas” e “planetas”, mas também quando foram menores, purgatórios desassombrados de onde sempre saiu para logo se alcandorar a viagens de “heróis” mundanos, tão à medida da nossa condição perene e solitária. Hoje a solidão é imensa entre holofotes, omnipresente na virtualidade do contacto, impressiva nas aparições mediáticas. A lentidão sábia da criação cedeu à aceleração vertiginosa e crua da fama. Hoje com tantas janelas virtuais, nunca tanto se opinou, nunca tanto se escreveu e comentou, nunca tanto se criticou e desconstruiu. A ansiedade da participação esmaga a qualificação abnegada do trabalho, da dedicação, do esforço. A profusão de pequenas obras é tremenda e o afamado e alimentado empreendedorismo transforma tudo e todos em potenciais criadores de algo e a obra cede à sua aceitação rápida e letal no éter da opinião mundial online.

Mr. Jones evoluiu num tempo em que a crítica era dura e a obra se fazia devagar, avançando na solidez do talento do criador e da sua força motriz de inspirador. A estrada moldava o destino de quem arriscava tudo perder ou nada ganhar. O tempo emprestava dimensão a quem mantinha a chama bem acesa e ia navegando contra ventos e marés e nos ia brindando com melodias encantatórias, com letras desafiantes e actuações inesquecíveis. O mito nascia na robustez da obra e na sua continuada renovação. David deixou-nos num tempo em que se buscam “likes” e se enriquece quando esses se tornam milhões, numa febril cavalgada de legiões de fãs que tudo parecem sustentar mas que nada acrescentam, pois verdadeiramente pouco ou nada conhecem para lá dos seus vazios e da insegurança com que vão traçando os seus destinos. Desta mole imensa serão muitos os que só irão conhecer Mr. Jones agora que o seu alter ego Bowie se tornou pó das “estrelas” por onde deambulava nas suas magníficas canções. A morte irá agora levá-lo onde antes não existia.

David Bowie en "Rock in Chile"David saiu de cena nesta vida com a mestria dos grandes escultores, partindo dias após a chegada da sua derradeira obra onde se intitula a antítese de uma estrela. Preparou-a com o tempo com que sempre se deu para trazer até nós as as suas partituras, as actuações ímpares nesses palcos mágicos, as suas metafóricas aparições na sétima arte. Ziggy never dies for sure. E Lazarus surge-nos portentosamente dramático numa alegoria à própria morte e à redenção do homem por trás da obra, renascendo nas asas da sua eternidade.

Muitos são os que nos vão deixando mais pobres, partindo de um mundo muito diverso daquele onde cresceram e emprestaram as suas artes ao mundo. São parte de um todo, gotas de um imenso mar que os valores maiores de um século marcante tornaram essenciais, actores imprescindíveis dos palcos da própria civilização e do legado às vindouras. Mr. Jones foi um desses carregadores de piano, acrescentou talento e fruição, dimensão e profundidade a gerações de pessoas, fãs ou nem tanto, que se uniam na força estruturante da mensagem, na lírica contagiante de “Let`s dance” life and humanity… Perante tal obra e tributo ao mundo, as inconsistências destes dias improváveis, sem rumo coerente nem destino expectável, chega-nos como uma tormenta, esmaga-nos nas fragilidades modernas, na pequenez qualitativa dos milhões, no desespero da busca do que nunca se tem nem sossega…

Saibamos interpretar o que David nos foi dizendo, cantando, assim como tantos outros, geniais, nos foram e vão dizendo escrevendo, actuando, fazendo… com empenho, com legitimidade, com humilde aceitação da história, do passado e dos que nos trouxeram até aqui. Saibamos entender as melodias e a sua magia e honrar uma obra de um homem que nos dedicou a sua vida e por inteiro, os derradeiros meses de vida, num surpreendente legado black, de alguém que sempre brilhou mas nunca ofuscou, antes iluminou. Saibamos glorificar o génio e a sua obra e descartar as inutilidades aviltantes deste mundo doente.
Mr. Jones partiu. David calou. David Bowie continua bem vivo em todos os que o saibam procurar e conhecer a obra e saborear a criação de alguém que foi sempre um farol cultural. Light never goes out. Até sempre Ziggy!

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