Cabe ao povo decidir quem vai gerir a governação, se o medo, se a coragem

"Por cá, a pergunta que se impõe é se já é tarde para inverter o rumo e dar esperança a um país nos cuidados intensivos há tempo a mais e sem vislumbre de melhorias? Caberá uma vez mais ao povo decidir quem irá gerir a governação, se o medo, se a coragem". Invictamente, por João Fróis

“Dê ao homem um peixe e ele alimenta-se por um dia. Ensine o homem a pescar e ele irá alimentar-se por toda a vida”. Esta parábola antiga, atribuída ao filósofo chinês Lao Tsé, ilustra a necessidade permanente de desenvolvimento humano, assente no conhecimento, na aprendizagem e na vontade de evoluir. A inação cria a dependência e a subserviência a quem detém o poder de determinar o dia seguinte.

Vivemos por estes dias no panorama político, uma fase transitória entre um governo que findou e as eleições de março que ditarão o homem do leme para a próxima legislatura. E o cenário do país é preocupante. Portugal tem perdido poder de compra ano após ano e no comparativo com os congéneres da União Europeia estamos a ser ultrapassados por economias que foram emergentes e souberam aproveitar os fundos e implementar as reformas necessárias para o crescimento. A Irlanda trilhou esse caminho, mas muitos outros o seguiram. A Polónia despegou e cresce sustentadamente, a Eslovénia, a Hungria, Chéquia e até a Roménia, outrora imersa em profunda crise económica e social, estão a lograr o crescimento do seu potencial e a subir vários degraus na qualidade de vida global. E nós? A fotografia não é abonatória. O SNS está em colapso e não se afiguram tempos fáceis na resposta às necessidades da população. O encerramento das urgências atesta a incapacidade de resposta de um sistema outrora competente. A falta de quadros e profissionais, em fuga para o setor privado e para o estrangeiro, tem um sido imparável e trouxe-nos até aqui, com filas de espera enormes para urgências, consultas e cirurgias. Pelo meio padecem utentes e doentes e o desnorte apodera-se de quem tenta segurar as pontas de um sistema em rotura.

E que dizer da educação?

Albert Einstein afirmou “a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. E as ideias são trazidas pelo ensino e pela partilha de conhecimento que a escola fomenta e propicia através das asas dos professores. Piaget afirmou sobre o tema “professor não é o que ensina, mas o que desperta no aluno a vontade aprender”.  Muito se pode dizer sobre o papel fundamental do professor, mas uma coisa é certa, um país que não olha para a educação como a pedra base da sociedade não pode almejar a um grande futuro. E a crise que temos vivido neste setor basilar só nos pode envergonhar. Professores desconsiderados e alunos sem acesso a aulas não auguram tempos fáceis.

E na habitação? Se ter um teto é um direito primordial, que dizer do estado a que chegámos, com rendas absurdas e preços por metro quadrado na compra e venda, totalmente incomportáveis? As razões para tal são muitas e não cabe aqui desfiá-las. Urge repensar a oferta pública e o nivelamento dos preços em valores mais coerentes com o poder de compra. Assistir a famílias a serem despejadas e outras tantas com endividamentos asfixiantes é terrível e mostra a falência das políticas de habitação num país que alimentou a especulação e esqueceu o cidadão comum.

Portugal não promoveu nenhuma reforma de fundo nos últimos anos. A ferrovia continua a anos luz da europa, não temos um novo aeroporto, se é que necessitamos mesmo dele?, a administração pública não mostra sinais de reforma e aceleração de processos efetivos, a justiça continua lenta e sem resposta em tempo útil para os problemas que surgem em catadupa e deixam prescrever processos, alimentando a sensação pública de impunidade.

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Pelo meio ouvimos os responsáveis políticos enaltecerem a geração mais preparada de sempre, não lhe oferecendo, no entanto, saídas viáveis entre portas, levando os jovens a olharem a europa e o mundo como o seu destino, não tanto como opção de evolução, mas como única saída possível para almejarem um futuro digno. Voltamos à parábola do pescador e aqui afinamos a agulha, pois se o país propicia a formação, não dá, no entanto, saídas para a mesma. O ensinar a pescar aqui tem o pernicioso de esses ensinamentos irem ser aplicados ao serviço de outros, ficando Portugal com as despesas da formação, mas sem os rendimentos dessa aposta.

Temos depois os famosos subsídios de inserção e apoio a quem chega ao país. Muito há a dizer sobre a sua justeza e coerência face aos que por cá nasceram, mas a crispação social cresce, a exemplo dos congéneres europeus, onde os bodes expiatórios crescem a olhos vistos e fazem encontrar o ódio e a intolerância em sociedades plurais e cada vez mais diversificadas nas suas etnias e crenças. Também aqui muito há a fazer, mas urge aplicar critérios de equidade e justiça social para evitar clivagens e revoltas ideológicas espúrias. Fenómenos que a vertigem da informação ajuda a propagar que nem incêndios no calor do verão. A recente reportagem com uma reformada que afirmou que iria votar nos mesmos e que a corrupção existe em todo o lado, desculpabilizando o que por cá tem sucedido, para fechar com “chave de ouro” ao dizer sem pejo que os mais novos que trabalhem e enfrentem os problemas pois ela, tal como Pilatos, lavaria as suas mãos, querendo a sua reforma e que a deixem em paz! Sendo uma opinião individual o problema é que reflete outras tantas e será essa geração grisalha, acomodada em parcas reformas e com medo da mudança, que irá em grande parte decidir o futuro nas urnas. Temos assim o imobilismo, o medo e o egoísmo a ditarem o futuro do país e dos mais jovens. Foi assim que aconteceu o Brexit, com os mais velhos com medo dos emigrantes e da perda de direitos, associando os problemas à União Europeia e ditando assim a saída da mesma. Só posteriormente os políticos perceberam o erro colossal de terem promovido um referendo, mas já era tarde.

Por cá, a pergunta que se impõe é se já é tarde para inverter o rumo e dar esperança a um país nos cuidados intensivos há tempo a mais e sem vislumbre de melhorias? Caberá uma vez mais ao povo decidir quem irá gerir a governação, se o medo, se a coragem. Haja esperança!

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