Sociedade

Cabo-Mor Fernando Magalhães despede-se da Guarda Nacional Republicana

Depois de mais de três décadas ao serviço da GNR, Fernando Magalhães despede-se da farda "que vesti com tanto orgulho", e junta companheiros da Guarda, amigos e representantes de diversas instituições num almoço que marca este momento cheio de significado na sua vida. Deixa uma carta aberta a todos e que publicamos aqui.

By Jornal de Cá

December 12, 2025

Caros Amigos (as), chegou a hora da despedida (…)  com o coração cheio de gratidão e um misto de emoções, despeço-me da farda que vesti com tanto orgulho por mais de três décadas, ao serviço desta nobre instituição militar, a Guarda Nacional Republicana.

A 26 de abril de 1993 cheguei com muitos sonhos, sem experiência, apenas com um enorme desejo de servir e fazer a diferença.

A 19 de dezembro de 2025, termino um ciclo desafiador, no topo da carreira    nomeadamente como Cabo-Mor da GNR, ao serviço da ordem e da comunidade, com as exigentes tarefas de manter a ordem e a segurança, de proteger pessoas e bens e de vigilância das estradas.

Aprendi na prática o que é a disciplina e segui com coragem e bravura todos os ensinamentos desta grandiosa e respeitável instituição.

Levo comigo valores e princípios que adquiri durante o meu percurso e que continuarão a guiar os meus passos na vida.

Sinto um profundo orgulho, uma grande honra em ter servido o meu país, cada ação, cada desafio que enfrentei, foi uma oportunidade para reafirmar o compromisso de servir e proteger o próximo.

Muita coisa havia para dizer sobre estes 33 anos … coisas boas e coisas más, com tristezas e alegrias, com conquistas, mas também com perdas!

Já não sou quem era quando vesti a farda pela primeira vez, deixei de ser aquele jovem cheio de certezas — porque a “insignificância” ensina o que os livros não dizem.

Mas uma coisa é certa, permaneço fiel:

Aos meus princípios.

Ao meu carácter.

Aos valores que trago no peito — mesmo quando a farda pesa mais que o corpo.

Porque já vi demasiado.

Já abracei quem tudo perdeu;

Já entrei em silêncio onde outros fugiram a gritar;

Já sorri para quem precisava de calma … mesmo quando por dentro estava a desmoronar.

Ser militar da GNR muda-nos, é uma ambivalência … um sentimento de realização e simultaneamente de frustração, provocada por desafios, confrontos, por vivências que contribuem grandemente para a nossa aprendizagem e desenvolvimento pessoal e profissional. Endurece o exterior, mas amolece o coração, que como qualquer “músculo” envelhece, perde força e resistência.

Não sou perfeito… Sou um ser humano com evidentes qualidades, mas também com defeitos, com falhas, com erros, com cicatrizes, muitas vezes “incompreendidos”, mas sem nunca vender a ALMA!

Se um dia te cruzaste comigo…

E viste cansaço no meu olhar,

foram apenas as memórias a pesar, e a eventual reflexão até que ponto vale a pena continuar…

Se te cruzastes comigo e te ajudei, gostaria de ter feito mais; se nunca me agradecestes, também não foi necessário pois fiz de coração.

Tenho a consciência perfeitamente tranquila de que dei o melhor de mim em prol do cidadão, da comunidade, de acordo com as minhas aptidões, seguindo instruções, sempre em conformidade com os meus princípios e mantendo a minha integridade e dignidade.

Mas, não vale a pena lamuriar e sim agradecer a Deus todos os dias passados até hoje e pedir, dia após dia, que adormeça em paz e sossego e acorde no dia seguinte, com saúde, com vontade e força para seguir em frente nesta nova etapa, na passagem á reserva.

Ao longo destes anos, tive a sorte de conhecer pessoas extraordinárias e de fazer amigos que levarei para toda a vida. A todos os que contribuíram para o meu percurso, deixo o meu sincero agradecimento.

Sou muito grato aos meus falecidos pais, pela educação que me deram sendo esta a base para ter este percurso que tanto me honra.

Agradeço também minha família, em especial à minha filha pela minha ausência durante alguns momentos da sua vida, bem como o terrível ano 2025, deparámo-nos com um obstáculo difícil que não nos derrubou, tornou-nos mais fortes, unidos de “pedra e cal” para o superar.

AMO-TE JOANA.

Um agradecimento especial do fundo do coração a um grupo restrito de amigos e camaradas pelo apoio nos bons e nos maus momentos, que de alguma forma, fizeram parte desta história.

Estou grato a todas as Entidades, Associações e Coletividades … o vosso contributo fez toda a diferença … a vossa generosa colaboração, as parcerias e o apoio contínuo em torno de objetivos comunitários, cada esforço, por mínimo que tenha sido, foi notado e apreciado.

Com um forte abraço me despeço, mas não me afasto. Continuarei disponível para servir a comunidade com o mesmo amor e dedicação.

 

Muito obrigado a todos! Que Deus vos abençoe.

 

Cartaxo, 10 de dezembro 2025