Cartaxo celebra 10ª edição do Festival Materiais Diversos

O Cartaxo faz parte da rede de municípios parceiros da associação Materiais Diversos, através do Festival com o mesmo nome que este ano celebra dez anos de apoio a projetos artísticos, com várias propostas de artes performativas contemporâneas a decorrer no concelho, na primeira semana de outubro, envolvendo também a população.

A associação cultural sem fins lucrativos Materiais Diversos, criada em 2003, tem como missão promover a investigação e a criação artísticas, assim como sensibilizar diferentes públicos para as artes performativas, em especial a dança. Desta forma, apoia artistas e projetos, através do Festival Materiais Diversos e de um programa de desenvolvimento de públicos, nos municípios do Cartaxo, Alcanena e Minde.

Na 10ª edição do Festival, que decorre este ano, o projeto foi ‘redesenhado’, procurando articular os seus vários eixos e territórios de atuação e envolver diferentes atores em torno de objetivos e ações comuns. Nesta nova fase, o Festival quer coabitar, colaborar, partilhar e co-criar, sustentando um programa artístico que dialoga com outras dimensões da vida humana e da contemporaneidade.

De 27 de Setembro a 5 de Outubro, os três municípios recebem 17 espetáculos de criadores e companhias portugueses e estrangeiros, cinco em estreia absoluta e quatro em estreia nacional, uma exposição e três ações de participação, promovem mais de 20 conversas e debates com o público e organizam quatro momentos musicais, reunindo um total de 150 artistas.

Celebrações no concelho do Cartaxo
No Cartaxo, as celebrações da 10ª edição do Festival Materiais Diversos decorrem de 1 a 5 de outubro, com várias performances artísticas, em diferentes espaços da cidade e também na vila de Pontével. A inauguração do Festival acontece na Galeria Municipal José Tagarro, no Cartaxo, dia 1 de outubro, pelas 19h, com Selva Coragem, uma instalação do Teatro do Frio, que ali se mantém de 2 a 5 outubro, às 15h e às 20h30, com entrada livre.

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Este é um projeto de criação interdisciplinar, com forte componente BIOinstalativa, construída a partir de plantas emprestadas pelos habitantes locais. Articula arte sonora, escrita dramatúrgica e performance com perspetivas de sustentabilidade, biodiversidade e qualidade de vida no tecido urbano. A sua intenção é questionar inquietações ambientais, artísticas propondo misturar e equilibrar pessoas e territórios: Europa com América Latina, animal com humano, sabedoria popular e discurso artístico, cultura com natura; inspirar e desafiar o diálogo, o frente a frente e o lado a lado, a escuta e a criação como forma alternativa de construção. Para que talvez a coragem volte a emergir.

No dia 3 de outubro, às 21h30, é a vez do Centro Cultural do Cartaxo dar espaço a Margem, de Victor Hugo Pontes, com conversa após o espetáculo. Margem, galardoado com o prémio Autores 2019 para melhor coreografia (dança), pela Sociedade Portuguesa de Autores, tem como inspiração o romance de 1937 de Jorge Amado, Capitães de Areia, que retrata um grupo de crianças e adolescentes abandonados, que vivem nas ruas de São Salvador da Baía, roubando para comer, e dormindo num trapiche – um armazém onde, como uma espécie de família, se protegem uns aos outros e sobrevivem a um dia de cada vez. Oitenta anos depois da publicação do livro, importa questionar quem são os novos capitães de areia, inspirando-nos na realidade social destas crianças, e conscientes de que nem sempre há finais felizes.

A dança volta no dia 4 outubro (às 10h30 e às 14h) com Sublinhar, de Marta Cerqueira, em sessões dirigidas às para escolas e repete no dia seguinte, às 11h, numa sessão para crianças e famílias, na Sociedade Filarmónica Incrível Pontevelense, em Pontével.

Para se escrever a palavra SubLinhar é preciso um ponto e traçar linhas com a mão. Para se falar a palavra SubLinhar é preciso que um conjunto de sons saia da nossa boca. Mas há quem seja de poucas palavras… E o que é que acontece quando ficamos sem palavras? Se retirarmos Linha à palavra Sub(Linha)r podemos usá-la para desenhar no espaço, insinuar formas, texturas, acentuar movimentos, definir direções ou percursos que nos levam a mudar de lugar, fazer perguntas ao mundo e crescer. Nessas trajetórias o corpo “também fala”, repleto de ossos, tendões e músculos experiência o aqui e o agora. No final do espetáculo, haverá conversa com os intervenientes.

Ainda no dia 4, é inaugurada a exposição Para uma Timeline a Haver – genealogias da dança enquanto prática artística em Portugal, de João dos Santos Martins, Ana BigotteVieira e Carlos Manuel Oliveira, no Centro Cultural do Cartaxo, que pode ser visitada até dia 20 do mesmo mês.

Construindo uma cronologia para a dança em Portugal, ‘Para uma Timeline a Haver’ é um exercício coletivo de investigação e de sinalização de marcos relativos ao desenvolvimento e disseminação da dança como prática artística em Portugal nos séculos XX e XXI, com especial incidência na segunda metade do século XX.

O projeto propõe a construção singular de uma série de cronologias para a dança contemporânea em Portugal, relacionando eventos de matriz social, política, cultural, biográfica e artística – sugeridos como significativos por bailarinos, coreógrafos, críticos, técnicos, historiadores e espetadores. Com este exercício, trata-se de sinalizar episódios que – influenciando autores, práticas e instituições – foram delineando a história da dança em Portugal, inserindo-os numa perspetiva alargada tanto das transformações pelas quais a sociedade portuguesa passou como do discurso sobre o coreográfico (e o que é ou pode ser a dança como prática artística), de modo a entrever tensões, momentos-chave e episódios emblemáticos. Após vários meses de pesquisa na Escola Superior de Dança, em Lisboa, ‘Para uma Timeline a Haver’ chega ao Centro Cultural do Cartaxo para dar a conhecer esta parcela do património cultural português, na forma de exposição, visita ou workshop.

Estreias nacionais no Centro Cultural
Pleasant Island, de Silke Huysmans e Hannes Dereere é uma peça de teatro em estreia nacional no Centro Cultural do Cartaxo, dia 4 de outubro, às 21h30. Aqui, conta-se a história de Nauru, uma pequena ilha no Pacífico, pode ser lida como uma parábola da era moderna, questionando o futuro de um lugar depois de uma grande ruína ecológica e económica?

No dia 5, às 9h30, há outra estreia, com ponto de encontro no Centro Cultural do Cartaxo: a performance Caminhar para unir territórios, do Teatro do Silêncio que, em co-produção com a Materiais Diversos, criou uma caminhada a partir de uma pesquisa na área urbana do Cartaxo. Esta caminhada performativa tem como objetivo aproximar os territórios por onde passamos todos os dias e inclui exercícios inspirados em práticas artísticas.

Também em estreia nacional, o espetáculo de dança Don’t be frightened of turning the page, de Alessandro Sciarroni é apresentado na Praça de Touros do Cartaxo, dia 5 de outubro, às 17h.

Entre 2014 e 2015, Alessandro Sciarroni desenvolveu uma nova prática performativa sobre o conceito de “girar” a partir da observação dos fluxos migratórios de alguns animais que, no final da sua vida, retornam para desovar e morrem no seu território natal. O termo “girar” é traduzido e representado num sentido literal, através da ação do corpo girando em torno do seu eixo, desenvolvendo uma jornada psicofísica emocional, uma dança de duração, ao mesmo tempo que “girar” também representa as ideias de evoluir, mudar.

Outra estreia nacional é o Projeto Pergunta, de Mil M2, uma ação participativa, que decorre de 1 a 4 de outubro, com ações pela cidade do Cartaxo, e dia 5, a partir das 15h, na sessão de encerramento do Festival. Tem como objetivo gerar, tornar viral e potenciar debates coletivos no espaço público, ativando o conhecimento coletivo em territórios e comunidades. Um pouco por toda a cidade do Cartaxo, o público é convidado a participar num conjunto de atividades para promover ferramentas de questionamento sobre diversos temas sociais, fomentando novos tipos de discussão e consciência cívica.

FoFo, de Ana Rita Teodoro, é um espetáculo de dança, também ele em estreia nacional, no Centro Cultural do Cartaxo, dia 5 de outubro, 21h30. Um espetáculo que explora a estética do fofo (cute em Inglês, Kawaï em Japonês, mi-mi em Francês) nas suas implicações sociais e políticas. Trata-se de uma peça coreográfica que expõe o fofo enquanto ferramenta de apaziguamento do pensamento crítico, ao mesmo tempo que o revela como uma possível estética emancipatória no panorama da dança contemporânea, onde o minimalismo, a força lenta, a não agressividade, o prazer, se colocam face à velocidade, à agressividade e à dureza dos tempos de hoje. Durante o período de criação foram realizadas duas oficinas de pesquisa com adolescentes no Centro Cultural do Cartaxo e Escola Secundária de Alcanena, a partir de práticas de dança, de improvisação e de Butoh.

Música no Mercado Municipal
A banda de afrobeat They Must be Crazy atuam do dia 4 de outubro, às 23h30, no Mercado Municipal do Cartaxo. They Must Be Crazy (Lisboa) lançou o seu primeiro disco, Mother Nature, em 2017. Formado essencialmente por músicos portugueses, este projeto inspira-se na cultura musical africana e procura transmitir o calor e o groove destes ritmos pelos palcos por onde passa. Este é o último concerto do Festival Materiais Diversos, um momento para dançar e celebrar!

No mesmo local, acontece a festa de encerramento, dia 5, com Dj Maboku, das 23h às 03h, com entrada livre. Nascido em Angola, mas desde criança a viver no Bairro do Pendão, em Queluz, Maboku é um DJ, cujo estilo de mistura ao vivo tem seduzido todas as pistas de dança. DJ Maboku partilhou até recentemente com DJ Lilocox a dupla C.D.M, imersa na cultura juvenil dos bairros sociais onde viviam e se moviam, uma música eletrónica de dança inovadora e vibrante. A dupla acabou por seduzir e angariar em pouco tempo uma imensa legião de entusiastas nos subúrbios da capital, diáspora PALOP e todo o ouvinte atento e ávido por frescura estética no som que nos põe a dançar.

Ponto de encontro em convívio
O Ponto de Encontro é um lugar central de convívio entre todos os que fazem o festival – público, equipas, artistas e outros profissionais, comunidade local e visitantes, concebido como um espaço para estar e relaxar, com um pequeno bar e livraria, onde se propõem conversas, debates, sessões de cinema, pequenas performances, DJ sets e workshops, disponibilizamos informações sobre o programa e abrimos a bilheteira.

In Situ – Laboratório de Intervenção em Arquitetura, da Universidade Autónoma de Lisboa, foi convidado para projetar e construir o Ponto de Encontro da 10ª edição do festival. O In Situ tem desenvolvido projetos em diferentes locais com o objetivo de estabelecer laços entre a universidade e as comunidades. Num olhar sobre o espaço urbano de Minde, Alcanena e Cartaxo, estudantes de arquitetura com a orientação de João Quintela, Tim Simon e Mathias Ballestrem desenvolveram um espaço multifuncional para o festival que estará no Cartaxo de 1 a 5 de outubro. Dia 1 de outubro, decorre das 19h às 23h; 2 de outubro, das 15h às 23h; e de 3 a 5 de outubro, das 11h às 20h. Da programação diária constam as conversas com artistas, às 17h30, performances, concertos e Djs, às 19h, e cinema (1 e 2 de outubro) às 21h.

A primeira semana de outubro reserva-lhe, assim, inúmeros momentos de arte e cultura para miúdos e graúdos, no Cartaxo.

Uma década de apoio à Cultura
“Celebramos o festival com um programa muito participado que, no presente, se afirma, sobretudo, como um lugar de encontro e como um tempo de partilha de diferentes visões e inquietações. Celebramos o festival como o culminar de um programa bienal, em que dedicamos mais tempo a cada parceiro, a cada artista e coletivo, a cada pergunta e processo.”

“Muitos caminhos se abriram desde 2009, muitos percursos se cruzaram e desencontraram, vários projetos se iniciaram, se concluíram ou abandonaram”, e “a alegria de chegar ao número 10 é grande, sobretudo quando se desenvolve um festival no contexto português, onde as políticas culturais são intermitentes e nem sempre as mais ambiciosas ou corajosas – razões que nos levaram a persistir ainda mais e a chegar até aqui”.

Ainda segundo esta associação cultural, este ano, durante os dias do Festival, é proposto a cada participante “perscrutar além da superfície, abrir caminhos entre as diferenças que afinal tanto nos separam como nos aproximam, passarmos de espetadores a atores da vida pública e da vida (em) comum. É com labor e delicadeza que criamos condições para o encontro entre as localidades onde trabalhamos — Minde, Alcanena, Cartaxo —, as suas pessoas, e artistas vindos de diferentes lugares, com as suas preocupações, sensibilidades e conhecimentos”.

Neste festival, “trabalhamos para revelar gestos, corpos e histórias, pensamentos e emoções. Trabalhamos para multiplicar as línguas na conversa e as possibilidades na escolha que todos e todas devem poder fazer, e também para estarmos juntos, nos rirmos juntos e dançarmos juntos”, por isso, apelam, “juntem-se a nós!”

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