Cartaxo, concelho emblemático (I)

Opinião de José Caria Luís

No que concernia ao emblema da terra, era um mundo de adegas de vinhos e seus derivados. Os armazéns do Joanicas; Nicolau, Rosa & Piedade; Vieira & Machado; Cunha 13; Augusto Ferreira; J. Jacinto Ferreira; Joaquim Rato; Francisco Bernardino Nogueira; Mateus Rosa; o 3 Cunhas, e a Adega Cooperativa, eram disso testemunho. Um verdadeiro arsenal vinícola, no que à comercialização do néctar cartaxeiro, por grosso e atacado, dizia respeito.

Em menor escala, porém, referenciemos os estabelecimentos de venda a retalho, a que chamavam tabernas, tascas ou baiucas, em cujos santuários, tanto o cartaxeiro (da vila e freguesias) como os visitantes, na forma de grupos excursionistas, saciavam a sede, a sua gula vinícola. Alguns desses emblemáticos santuários eram mesmo de visita obrigatória. Com ou sem velinhas acesas, qualquer ribatejano que se prezasse teria, forçosamente, que conhecer, ao vivo e a cores de tinto, aqueles paraísos beberrónicos, sob pena de excomunhão. Se não, vejamos: o Ramos; Júlio Caioeu; Marau; Irmãos-Unidos; Toni; Marmeleira; Serrazina; Paulino; Paveia; Etelvino; Zé Inácio; Zé da Horta e o Meia-Orelha eram os maiores baluartes dessa contemporaneidade e não deixavam ninguém indiferente. Nem sequer os que se autodenominavam abstémios se abstinham do fenómeno que os rodeava. Chegou a arribar ao Cartaxo gente vinda de longe, só pela fama (má) de que gozava a taberna do Serrazina. Porém, alguns incautos, se não soubessem a senha, entravam a 10 e saíam a 100, à frente de vassourada. Bastava pedirem bis, e estava o copo entornado.

Pela calada da tarde, era frequente vislumbrar uma silhueta, de rosto dissimulado por debaixo do lenço, qual hijab, de alcofa pela mão e, dentro desta, um menino de cor escura, aparentando 7,5 dl; eles, os maridos, mais robustos e fazendo alarde da valentia, aproveitavam a noitinha para transportar a mercadoria no bucho, contra choques e baldões, para não refermentar. De tão bairristas, e de modo a fazer afirmar as potencialidades da terra, era frequente observar aqueles rituais de peregrinação em muitas ruelas, largos e becos da vila, como, por exemplo, o Escondidinho, o Largo dos Pretos, o Largo dos Palermas, a Travessa da Senhora ou mesmo o Bairro do Paixão. Mas não se julgue que estas peregrinações eram exclusivas da sede de concelho!… Nas aldeias, não obstante serem meios pequenos, ninguém queria ser deixado para trás, correndo o risco de passar por saloio. Tudo alinhava, minha gente! Porque, salvo raras exceções, os seus frequentadores mais fiéis eram gente do povo.

Desde o início da década de 50, que os estratos sociais do Cartaxo passaram a contar com três patamares. Os ricos e os pobres, que, durante muitas décadas, abriam e fechavam o leque social de duas folhas, assistiram ao ampliar daquele para três. Isso, por força da entrada dos recém-nados da classe média, coisa que antes não existia. E, porque revolução puxa evolução, demos connosco a assistir à abertura de: “Café Picoto”; “Lúcio”; “Porfírio” e “Miranda”. Eram os coutos da nouvelle classe: a média burguesia.

Crónica publicada na edição de maio do Jornal de Cá.

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