Cenas da Feira dos Santos (II)

Opinião de José Caria Luís

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Neste circo de bolso, havia, como adereços, uma chibata de marmeleiro, uma muito coçada manta lobeira e um desengonçado e lascado escadote. O cenário, amovível, estava a cargo dos espetadores, num círculo formado pelos próprios.

A cena do galo (cena I), a que não tive oportunidade de assistir, já fora. Agora, na cena II, era a vez da cadela-ursa careliana, que ziguezagueava, enquanto a macaca lhe saltava sobre o dorso, ora para cá, ora para lá. À voz do adestrador, que, em simultâneo, golpeava o chão ao som da chibata, incitando: “pula la macaca, salta la ursa”, aquilo não estava mal engendrado, não senhor. Eu e os demais putos arregalávamos os olhos, embevecidos pela bem sincronizada demonstração de arte por parte dos bichos. Agora, entrava-se na cena III. A cabra das Astúrias teria como função subir o débil escadote e, no topo, executar um qualquer número artístico, o qual, por motivo de força maior, não chegou a ser exibido. Pois foi! A cabrinha, nervosa, talvez pelo vozeirão áspero com que estava a ser tratada pelo seu adestrador, ainda subiu até ao cimo, mas, quando se aprestava para exibir a manobra seguinte, entalou uma pata nas gretas do esburacado tampo, cujo desfecho desatou numa infernal berraria que deixou toda a assistência perplexa, condoída e incomodada. O homem do bigode, acolitado pela partenaire, tentava, à bruta, desprender a patita do animal, mas debalde. Aquilo era operação delicada, a ser tratada com pinças, não por meio de puxões, como era o caso. O público, que não gostava do que estava a ver, desatou numa monumental assobiadela, reprovando a ação do adestrador. A indignação era tal que já havia alguns desordeiros da terra – os costumeiros – que se propunham amachucar o pelo a toda a troupe, piolhoso incluído. Foi então que, no sentido de evitar males maiores, os cartaxeiros António Aguadeiro, o Peito d’Aço e o Jaime Caria, afastaram o artista da triste cena e tomaram as rédeas da delicada operação. Enquanto o primeiro segurava o escadote e o segundo a cabra, o Jaime, de navalha de ponto-e-mola em riste, ia recortando, em tiras, a orla de madeira que envolvia a pata da artista. Libertado que estava o animal, foi este colocado nos braços do dono, perante um misto de aplausos e vaias, cada um com seu destinatário.

No rescaldo do triste espetáculo, que terminou logo por ali, ainda que a tríade tenha escapado ilesa, sob o ponto de vista físico, à ira dos espetadores, não se livrou de ouvir umas bocarras da geral, a puxar para o ordinarote. A velha, a tal Rosalina que nada fez durante todo o espetáculo, foi apelidada de bagaceira e remelosa; o rapazola, pedinchão da boina, foi mandado para a catadura do piolhame e desinfeção da mona, à base de Quitoso; ao gerente-mor e adestrador, valeu-lhe continuar com a cabra no colo, afagando-a. Foi esse gesto de ternura que lhe valeu de não ter apanhado umas valentes murraças naquele imundo bigode.

Para o ano havia mais. Mais uma Feira dos Santos, bem entendido, porque cenas como a fuga do touro, os choques do tio Porreiro nos carrinhos de choque, e a desdita da cabra das Astúrias, eram dispensáveis.

Crónica publicada na edição de janeiro do Jornal de Cá.

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