Cidadania precisa-se, passados 43 anos de Abril

“A construção do futuro convoca-nos a todos”, afirmou Pedro Ribeiro nas celebrações do 43º Aniversário do 25 de Abril, celebrado no Cartaxo numa sessão solene na Praça 15 de Dezembro, onde também outras vozes intervenientes chamaram os cidadãos a exercer a sua cidadania, na construção de uma sociedade mais justa e mais próspera.

Cerca de uma centena de pessoas assistiu à cerimónia, na sua maioria, políticos – vereadores, autarcas, presidentes de junta e dirigentes partidários – quase todos de cravo vermelho na lapela. Depois do habitual içar da bandeira e desfile dos Bombeiros Municipais, decorreu o momento solene dos discursos, proferidos pelo presidente da Câmara Municipal, presidente da Assembleia Municipal e representantes das forças políticas do concelho. Ouviu-se muito a palavra “responsabilidade”, a par da palavra “liberdade”, que neste dia há-de ter sido a mais proferida por todos, tal como democracia. Afinal, celebravam-se os 43 anos do fim de uma ditadura com quase cinco décadas. E houve um nome que foi proferido em várias intervenções – Hélder Travado, que falecera dias antes, foi lembrado e homenageado, pelo homem e político que foi e pelos seus feitos em prol do Cartaxo, nomeadamente, por ter aberto caminho à realização das primeiras eleições democráticas no concelho, em 1976.

A iniciar os discursos, o presidente da Assembleia Municipal do Cartaxo, Gentil Duarte, expressou o “profundo reconhecimento e agradecimento ao Movimento das Forças Armadas e a todos aqueles que contribuíram para que nos fosse devolvida a liberdade” e destacou a democracia participativa como um dos grandes desafios dos jovens, nos dias de hoje. “É fundamental motivarmos as gerações mais novas a participar na construção da democracia através das múltiplas formas de intervenção; nas associações da sociedade civil, nas escolas, nas empresas, nos diversos lugares e instituições, é fundamental chamar e dar responsabilidade aos mais jovens para que estes possam trazer inovação e novas formas de abordar problemas e, simultaneamente, aprendam a caminhar em direção a maiores responsabilidades futuras, na gestão da coisa pública e na resolução dos interesses das comunidades”. E aponta outro grande desafio: “construir uma sociedade mais justa e menos desigual”.

É fundamental motivarmos as gerações mais novas a participar na construção da democracia através das múltiplas formas de intervenção.

Gentil Duarte

Francisco Colaço, do Bloco de Esquerda, por sua vez, frisou que “a democracia reposta a 25 de Abril não é um bem eterno, necessita de vigilância e luta diária pela sua manutenção. As nossas atitudes cívicas e ativas determinarão a sua defesa e continuidade. Uma das conquistas grandes de Abril foi o poder local democrático que exige cada vez mais exigência de participação cidadã e fiscalização dos atos autárquicos”. Como exemplo disso, Francisco Colaço lembrou a negociação das águas como um “desses atos irrefletidos, irresponsáveis, onerosos para os fundos públicos e para a população do Cartaxo”.

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Muitas das principais conquistas do 25 de Abril foram, entretanto, destruídas.

José Barreto

José Barreto, da CDU, lamentou que “muitas das principais conquistas do 25 de Abril foram, entretanto, destruídas” e outras, “embora enfraquecidas e ameaçadas pela ação de sucessivos governos, que realizaram políticas que se traduziram num sério retrocesso nas condições de vida dos trabalhadores e do povo português, continuam presentes na vida nacional”. E trouxe a lume a anexação das freguesias (Ereira-Lapa e Cartaxo-Vale da Pinta), com “muitas vozes no nosso concelho a clamar contra”, lembrando que tanto “o poder local democrático, como o poder democrático de proximidade às populações é uma das grandes conquistas de Abril”, encorajando os opositores desta medida a aproveitar estas celebrações “para batalhar pela reversão das anexações que em nada melhoraram a vivência das populações visadas”.

Se não nos comprometermos todos deixaremos de ser livres.
José Augusto Jesus

José Augusto Jesus, do PSD, começou logo por citar Victor Hugo: “tudo quanto aumenta a liberdade aumenta a responsabilidade”. O 25 de Abril veio aumentar a nossa liberdade e, segundo o advogado, “não há maior compromisso público do que aquele que interfere com todos nós”. “Falamos de responsabilidade política” que, segundo o presidente da concelhia do PSD, “ao longo destes 43 anos tivemos, com certeza, bons exemplos”, mas também “fruto da liberdade foram feitas escolhas que não nos engrandecem nem denotam esse aumento de responsabilidade”, dando como exemplo disso mesmo o Cartaxo. “A nossa terra precisa de um novo dinamismo”, exclama. É necessária “uma regeneração das políticas públicas locais”. “Todos somos convocados para, juntos, promovermos um concelho próspero”, continuando, “este é um desafio que nos deve mobilizar enquanto comunidade”, porque “se não nos comprometermos todos, deixaremos de ser livres, não honraremos Abril, não seremos responsáveis”.

Para Ana Catarina Vieira, pelo Paulo Varanda – Movimento pelo Cartaxo, “passados 43 anos da Revolução, impõe-se uma reflexão, introspeção e retrospetiva. É preciso ressuscitar memórias e identidades. É preciso saber quem somos, de onde vimos, onde estamos e para onde vamos.” Também a autarca afirmou ser “preciso mover a nossa juventude” e todos os cidadãos, pois, segundo Ana Catarina Vieira “é preciso ser e exercer. Abril deu-nos liberdade. Abril deu-nos direitos. Saibamos exercer a nossa cidadania e não nos destituamos dos nossos direitos e deveres”. E terminou apelando para que “sejamos responsáveis!”

Não deixem que outros decidam por nós.
Elvira Tristão

Também Elvira Tristão, do PS, lembrou que “todos temos o direito e o dever de participar nos projetos da nossa comunidade” e que “a democracia não se esgota no nosso direito ao voto”, acreditando que “o nosso poder de transformação social é tanto maior quanto mais nos implicarmos nos projetos que nos dizem respeito de uma forma ou de outra. Os nossos legítimos interesses serão tão mais defendidos quanto maior for a nossa capacidade de mobilização em prol do que nos enriquece a todos enquanto comunidade e território”. A socialista, que não tem dúvidas de que a revolução de Abril “valeu a pena”, pediu para “que não deixem que outros decidam por nós” e para que “não façamos dos partidos políticos os culpados das falhas da nossa democracia. Diferentes partidos fazem diferentes escolhas em função de diferentes princípios de justiça social. É também esta a virtude da democracia”, concluiu.

A construção do futuro convoca-nos a todos.

Pedro Ribeiro

O presidente da Câmara, Pedro Ribeiro, foi o último a falar, começando por fazer referência às cinco forças políticas ali presentes “para falar da revolução dos cravos e para transmitir aos cartaxeiros de todas as freguesias a mensagem política que o momento presente exige”. E deixou-lhes uma mensagem: “para lá de tudo o que nos possa separar enquanto cidadãos livres, existe um compromisso com a democracia e com a liberdade que nos une”, chamando à união “quanto ao essencial, que é trabalhar todos os dias para que as gerações vindouras tenham futuro na terra onde nasceram ou que escolheram para realizar os seus projetos de vida”. Mas se, para Pedro Ribeiro, os políticos são importantes, “também a sociedade civil, os cidadãos em geral, nós todos, temos de assumir esse dever como nosso. A construção do futuro convoca-nos a todos” e “todos sabemos que existe ainda muito por fazer para termos a terra que queremos. Continuamos a precisar de uma comunidade unida e envolvida, para que a nossa terra volte a ser uma referência da qualidade de vida da região”.

Terminados os discursos, a sessão solene encerrou com a atuação do Grupo Coral da Sociedade Cultural e Recreativa de Vale da Pinta, dirigido pelo maestro Nuno Mesquita, que no final cantou Grândola Vila Morena, com todo o público presente, de pé, a acompanhar a letra.

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