Coronavírus: Lar declara insolvência e deixa famílias em situação difícil

O Lar Casa de Repouso Local de Sonho, à saída de Vila Chã de Ourique no sentido Cartaxo – Santarém, vai encerrar portas, após declaração de insolvência.

Os familiares dos utentes foram avisados desta situação, e informados de que teriam de arranjar solução para os seus idosos até à manhã desta segunda-feira, ao final da tarde de sábado, por uma funcionária da instituição.

Segundo o relato de um dos familiares contactados pela funcionária, José António da Silva, esta informou-o que “o proprietário não queria dar a cara e foi-me dito que tínhamos de ir buscar os familiares até segunda-feira de manhã, o mais tardar, porque era só até quando eles tinham alimentação para lhes dar o pequeno-almoço. A partir daí, já não tinham garantias de nada”.

Uma situação que terá apanhado todos de surpresa, já que “na quarta-feira fui contactado para levar fraldas e medicamentos, o que veio a acontecer na sexta-feira, por volta das 18h45, pela minha esposa, e foi-lhe dito que estava tudo bem, apenas que as funcionárias estavam reduzidas e, por isso, muito cansadas”.

A mãe de José António era utente deste Lar desde o dia 30 de janeiro, “porque a minha mãe caiu na minha casa, fraturou a bacia e teve de ser operada. Procurámos um Lar aqui perto de Santarém, e foi o que nós conseguimos”.

José António, que sofre de diabetes e de problemas cardíacos e que vive com um filho com problemas pulmonares, conta ter ligado à linha Saúde 24, alertando que não tinha condições para receber a mãe em casa. A Saúde 24 aconselhou-o a contactar as autoridades do concelho. “Contactei a GNR e disseram-me que já tinham algum conhecimento e que o caso já estava a ser tratado pela Câmara e pela Segurança Social”, diz José António, acrescentando que “já mais pessoas tinham ligado [à GNR]”.

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“Uma insolvência, para mim, não é de um dia para o outro, leva alguns dias, porque tem de ser por um tribunal judicial, que tem de nomear um administrador que represente o tribunal. E isso leva algum tempo. E nesta altura, fazer uma insolvência de um lar de idosos, apesar de o Lar ser pequeno, é um bocadinho esquisito”, estranha José António da Silva.

Na Segurança Social “ninguém atende. Tentei ligar para a Proteção Civil do Cartaxo e a resposta que tive foi que eles têm conhecimento da situação, já houve reuniões com a Segurança Social e já lá estão só seis ou sete idosos. A Proteção Civil não tem conhecimento que haja lá Covid-19. No entanto, pensam que ainda hoje lá vão fazer testes aos que lá estão. E que a Segurança Social está a tratar do caso. E que a Câmara do Cartaxo iria, hoje e amanhã, aguentar as refeições dos idosos que lá estão, mas que teríamos de ser nós a tratarmos de os tirar e levar para outro lado. A minha questão é esta: qual é o lar, agora, que vai receber um idoso sem saber se ele está, se não está, com problemas? Não é fácil”.

José António lamenta toda esta situação, acusando o proprietário de falta de honestidade. “Se a mensalidade que ele nos pediu, se via que era pouca, enviava para as famílias a dizer que por aquele preço não conseguia ter os utentes e teríamos de alterar os preços. Acho que era a coisa mais honesta”.

“O Município está a acompanhar a intervenção da Segurança Social e da Saúde”, garante Elvira Tristão, vereadora da Ação Social na Câmara do Cartaxo. A autarquia já contactou o diretor distrital da Segurança Social e o delegado de saúde. A vereadora confirma que a Segurança Social foi informada da insolvência na sexta-feira, pelo administrador de insolvência, que informou da necessidade de retirar os idosos até esta segunda-feira e, “neste momento, dos 19 só lá estão seis, as famílias foram todas contactadas e foram as famílias que decidiram ficar com os seus idosos. Os outros seis, cujas famílias não têm como os acolher, e são todos utentes de fora do concelho, estão a ser avaliados pela autoridade de saúde. Terão, obrigatoriamente, de fazer teste ao Covid e a Segurança Social encarregar-se-á de os colocar em instituições ou infraestruturas onde for possível”, já que são idosos acamados e com bastante idade.

A alimentação está a ser assegurada pela ACAS (Associação Comunitária de Assistência Social) de Vila Chã de Ourique, “e o proprietário do Lar, juntamente com as colaboradoras que ainda estão a trabalhar, irão garantir os cuidados aos idosos até que tenhamos os resultados do teste Covid”. Depois, os idosos poderão ser encaminhados para outras instituições pela Segurança Social, “ou poderá haver uma situação transitória, poderão ser encaminhados para instalações da ACAS, e o Município procurará ajudar, na medida do possível, com camas e roupa de cama. Mas será sempre uma situação transitória”, explica Elvira Tristão, já que “a ACAS não tem pessoal para cuidar destes idosos”.

Embora a situação tenha apanhado quase todos de surpresa, a vereadora revela que este lar estava ilegal e que “nós já sabíamos que estava em curso um processo de despejo do espaço, que já tinha transitado em julgado, mas que foi suspenso como foram suspensos todos os processos por força da lei, relativamente às medidas tomadas pelo governo no âmbito do Estado de Emergência. O que desconhecíamos era que, para além do processo de despejo, que havia um processo de insolvência em curso”, de que só tiveram conhecimento no sábado.

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