“Deixei obra para o futuro do Cartaxo e da população”

Um exclusivo Jornal de Cá

 

Dedicado à família com duas filhas, uma com 17 anos e a mais nova com quase um ano de idade, “procuro estar o máximo de tempo com elas e com a minha mulher. Tem sido um tempo bom, muito bom”. Para além de dar algumas aulas, está dedicado fundamentalmente a acabar o doutoramento em economia na Austrália, e “faço também muita investigação, quer lá quer no Instituto Técnico”. Para além desta componente académica, Paulo Caldas é diretor da Associação Industrial Portuguesa (AIP), na área da economia, do financiamento das empresas e da internacionalização. “Tenho o tempo todo preenchido. Nos últimos cinco anos tenho feito aquilo que é um pouco o regressar à minha vida profissional e aos meios onde sempre me movi fora da política e assim quero continuar.”

São muitas as vozes que afirmam que os seus mandatos foram marcados pelo despesismo. Acha que foi um bom presidente de Câmara?
Acho que as pessoas que exercem algum cargo de responsabilidade têm sempre alguém que as acusa e têm sempre pessoas que gostam e por isso eu penso que é demasiado cedo para fazer a avaliação dos meus mandatos. Mas foram dois mandatos marcados por, fundamentalmente, duas coisas: obra, muita obra.

Foi isso que o Cartaxo ganhou com a sua presidência?
Não tenho dúvidas nenhumas, mas não foi só com a minha presidência. Foi isso que o Cartaxo ganhou com um projeto de desenvolvimento socialista, que ainda corre. A obra não só não deve parar, como é obra que é estruturante o suficiente para ter continuidade. E estamos a falar de obra que marca novas acessibilidades, marca espaços empresariais, equipamentos sociais espalhados pelas freguesias na área da infância, da educação, da segurança, dos centros de dia e outros equipamentos importantes.
Há determinado tipo de obra estruturante que eu penso que o Cartaxo definitivamente ficou a ganhar. E ganha hoje e ganha no futuro. O nosso Cartaxo não sobrevive sem os parques de negócios. Se eles não tivessem sido feitos na altura, não eram feitos mais.

Em entrevista ao Jornal de Cá em outubro, o atual presidente da Câmara do Cartaxo disse que “fazer obra é fácil, pagá-la é que uma carga de trabalhos”. Sente-se atingido com esta consideração?
Não. Eu penso que o atual presidente tem um trabalho grande pela frente. Ele, de facto, em termos de obras estruturantes, já não tem grandes obras para fazer. Mas tem um trabalho importante para fazer, que é a consolidação dessa obra, por um lado, dar vida à obra feita, e há muita coisa por fazer e ele sabe isso, certamente, até pelos anos de experiência política.

E ele tem-no feito bem?
Ele é um bom político profissional e, com o tempo, vai também deixar a sua marca, naturalmente diferente, não será tanta obra estruturante, será outro tipo de intervenções e de dinâmicas que eu espero que ele venha a concretizar conjuntamente com a sua equipa e os presidentes de Junta. Acho que tudo tem o seu caminho, tudo tem o seu tempo.

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Cumpre-lhe, também, a tarefa de consolidação financeira. E é inevitável. A consolidação financeira existe no Cartaxo como está a existir nos outros municípios todos. Foi um período de tempo de desregulamentação e de consolidação de obra apoiada pelos fundos comunitários. Alguém acredita que o Cartaxo tem uma dívida muito superior a Santarém? A dívida de Santarém é três vezes superior e alguém fala da dívida de Santarém?

Ficou obra, ficou matéria estruturante. E tem coisas menos boas, que resultaram de ter-se dado um passo maior do que a perna.

A dívida do Cartaxo é considerada uma das maiores do País…
Será que a dívida do Cartaxo não foi sobrevalorizada? Pelos políticos, não foi pelo povo.

Quanto é que deixou de dívida quando saiu da Câmara Municipal?
44,3 milhões de euros.

Tem noção de que nos dois anos seguintes, com Paulo Varanda, a dívida cresceu?
Passou para 52 milhões de euros.

Pedro Ribeiro disse que, quando chegou, encontrou a casa desarrumada e endividada…
Eu não quero, nem vou fazer qualquer comentário sobre os meus sucessores nem sobre os meus antecessores.

Mas a Câmara do Cartaxo chegou a um ponto de quase ficar paralisada…
O Município do Cartaxo tinha capacidade de endividamento, assim como outros municípios. E o que aconteceu foi que tivemos que nos financiar a curto prazo. Ou seja, os financiamentos que foram traçados de 2002 a 2011, os municípios continuaram a fazer obra, foi o caso do Cartaxo, e foram-se financiando a curto prazo. Aliás, os empréstimos, em 2011, quando eu saí, estavam com uma maturidade média de cinco, sete anos, o que é incrível. Em média não ultrapassavam isto.

Isto aconteceu porque a ministra impediu os municípios de contraírem empréstimos de médio e longo prazo, tendo eles, ou não, capacidade de endividamento – e o Município do Cartaxo tinha – e, em vez de estar a pedir 20 milhões de euros a um prazo de 20 anos, que é o que está acontecer agora, o que aconteceu foi que o Município do Cartaxo endividou-se com os fornecedores, com os empreiteiros e a curto prazo, por empréstimos de acordos de regularização de divida, feitos pela banca, propositadamente, para salvaguardar esse tipo de financiamentos de curto prazo. E este é o problema do desequilibro financeiro.

A Câmara tinha, quando eu lá cheguei, uma dívida 6,3 milhões de euros. Em 2008, a dívida da Câmara já ultrapassava os 30 milhões de euros. Por isso, vamos falar verdade e certo. A dívida da Câmara cresceu também com obra e não se pode estar dos dois lados. Os atuais gestores autárquicos são responsáveis pela dívida que foi feita nessa altura e que foi a maior parte. A maior parte da divida ocorreu até 2008, porque as grandes obras, aquelas que exigiram mais esforço da Câmara por comparticipação comunitária, foram feitas até 2008. A dívida subiu de 2002 até 2008 perto de 30 milhões de euros.
Pode-se dizer que foi desmedido, foi um erro, foi megalomania. Mas também se não se fosse megalómano para se fazer os acessos à autoestrada, as áreas empresariais e os equipamentos sociais que estavam em falta, não se faziam mais. Há sempre as duas faces.

Talvez o Parque Central seja a minha obra mais polémica, mas há ali coisas que têm de ser valorizadas e melhoradas.

E pensou, na altura, que ia ser fácil pagar/ controlar essa dívida?
Eu sempre achei que este problema, à semelhança de outros problemas que acontecem nos municípios, tinha de ser resolvido em conjunto. E está a ser. O Cartaxo não é exceção. Este problema que foi criado do ponto de vista de desequilíbrio financeiro tinha de ser resolvido em conjunto com vários municípios. O FAM (Fundo de Apoio Municipal) nasceu não foi só por solidariedade dos outros município, foi porque havia um problema estrutural, em termos financeiros, e que resultou disto.

A obra pode estar feita, mas não existe dinheiro para a manter e dinamizar. Como a zona de bares no Parque Central, o Parque de Santa Eulália, o Centro de Convívio…

Isso é um facto, mas o Centro de Convívio nasceu e sempre foi uma obra partilhada com a Junta de Freguesia do Cartaxo. E essa obra, se é assim, a responsabilidade é partilhada pelas freguesias e a dinâmica deve ser acometida a quem de direito.

Mas as juntas de freguesia contavam com uma determinada verba vinda da Câmara e que de repente deixam de poder receber?
Então, se vamos falar de consolidação financeira, e estamos a fazê-lo, e eu acredito que é positivo, então também podemos dizer que, na altura, por exemplo, o atual vice-presidente da Câmara era presidente de uma das maiores freguesias que recebia mais dinheiro, então também tem responsabilidades nesta dívida.

O percurso que foi seguido é um percurso que tem coisas boas – ficou obra, ficou matéria estruturante – e tem coisa menos boas, que resultaram de ter-se dado um passo maior do que a perna, em determinados sentidos.

E assume isso – acha que deu um passo maior do que a perna?
Na circunstância em que foi feito eu voltaria a fazer o mesmo. Hoje, não. Há pouco, quando eu referia a questão da desregulação financeira, era real – para as famílias, para as empresas. O próprio crédito era fácil para alavancar obra que era cofinanciada.

Mas o crédito era fácil a todas as autarquias e apenas 46 estão nesta situação…
Mas numa análise mais minuciosa vai aperceber-se do seguinte: os municípios de que estamos a falar, a maior parte deles, são municípios de média dimensão, à exceção de uns quantos que são de grande dimensão. E são municípios que tinham atrasos estruturais em duas áreas fundamentais: nas acessibilidades e nos equipamentos sociais. O Cartaxo era um exemplo disso.

Temos de contextualizar. Por isso eu digo que hoje faria diferente, porque o quadro financeiro, o quadro do País está diferente. Se não há dinheiro, mesmo que venha dinheiro apoiado comunitariamente, eu tenho que ter muita calma, tenho de ser mais seletivo. Naquela altura, o que sentia era o seguinte: se aquilo não fosse feito, e os fundos comunitários vinham muito nesta perspetiva, pura e simplesmente nunca mais era feito, porque eram financiados a 70 por cento, 80 por cento e, nalguns casos, a 90 por cento.

O tempo vai permitir ver o que é que fica e avaliar, verdadeiramente, a obra que ficou.

Mas a Câmara não estava tão endividada como agora…
Eu acho que, e posso estar enganado, em 2017 vai haver dinheiro para estradas, para valorizações na área do ambiente, na área paisagística…
Com isto eu não quero dizer nada em termos da gestão, o que eu acho é que no Cartaxo tem-se perdido muito tempo com política e pouco tempo a agarrar nas coisas e a levá-las para a frente. É, honestamente, a minha posição.

No seu tempo não fez política?
No meu tempo eu fiz muita política, mas quantas críticas é que eu fiz aos meus antecessores? Olhava para as realidades, geria e olhava para a frente. A primeira coisa que eu fiz em 2002 foi assumir que o grande desafio que havia, aquando do alargamento para as três faixas da autoestrada, tinha de ser feito o nó de acesso. Foi uma luta enorme e contei com todos os partidos e, aliás, quem acabou por dar a valorização do nó foi o PSD, que estava no Governo. Em 2005 estava feito. Eu não perdi muito tempo com politiquices e, sobretudo, a olhar para trás.

Hoje temos o nó e os equipamentos, mas temos pessoas infelizes…
As pessoas dizem isso, mas e quantas pessoas não utilizam esses acessos para irem a Santarém e Lisboa e demorarem 30 minutos? A questão é que não se consegue fazer tudo ao mesmo tempo. E eu não fiz a obra sozinho, eu fiz a obra suportado por três maiorias absolutas da população. E fiz a obra suportado por presidentes de Junta que me apoiaram sempre também com a confiança da população. E fizemos a obra suportada por coletividades. Toda a comunidade do Cartaxo partilhou do crescimento do Cartaxo num determinado tempo. O Cartaxo cresceu em determinadas matérias assistido pelas freguesias, pelas coletividades e construindo os equipamentos sociais e os acessos.

O que é que teria feito diferente?
O Parque Central. Aquela obra teve ali um princípio de gestão do trânsito que foi desvirtuada. Aquela ideia é uma ideia antiga que era criar um jardim central que reúne vários serviços, como Câmara Municipal, Mercado, Finanças, bancos, tribunal, há mais de 20 anos que a Nacional 3 é municipal e, como tal a ideia do Parque Central é antiga.

A sua concretização, na minha opinião, falhou em dois pontos: a gestão da entrada e da saída do parque de estacionamento, que ali é vital, teve de ser feita daquela forma, mas foi limitada. Como ela poderia fazer-se era a entrada por cima e a saída por baixo, que agora obriga a uma gestão de trânsito que se acomode a essa realidade. Depois, não tenho dúvidas nenhumas, eu olho para aquele Parque Central e aquilo faz sentido em determinado tipo de espaços modernos, mas a reflorestação tem de acontecer. Não diria na parte central, mas pode ser feita de forma a que se crie uma estrutura arbórea que dê ali condições e habitat comunitário. Foi sempre esse o princípio, as pessoas poderem dirigirem-se ao centro e usufruir daquele espaço central.

Se calhar cometi mais erros pessoais do que propriamente erros políticos ou de fazer mal ao Cartaxo…

Porque é que a população não foi consultada sobre esta obra?
No primeiro projeto da união houve consulta da população. Houve uma maqueta que foi partilhada…

Um projeto que não corresponde ao que lá está.
Que não corresponde parcialmente. Talvez o Parque Central seja a minha obra mais polémica, mas assumindo claramente que há ali coisas que têm de ser valorizadas e melhoradas – eu assumo essa questão, responsavelmente, podia ter corrido melhor e isso deve ser dito e tornado público – há aqui questões que são vitais: o facto de ter ali uma zona central com todos os serviços, é das poucas cidades que tem esse privilégio. O caminho é para a frente, não é para trás.

Acha que o Cartaxo ficou melhor com este espaço renovado?
Não tenho dúvidas. Ficou melhor e para o futuro. Estão ali todos os serviços comerciais, financeiros, públicos. Eu acho que é uma riqueza enorme. E a rua Batalhoz compete aos atuais autarcas e comerciantes, mas precisa de ser estudada uma revitalização. O Cartaxo tem a capacidade de ter uma artéria comercial, mas poucas são as lojas que estão modernizadas… É merecedor, quer da parte dos comerciantes quer da parte dos autarcas, de uma análise muito atenta para ter uma revitalização, um projeto de reabilitação urbana e de revitalização económica. É fundamental.

No início do primeiro mandato disse que nos três anos seguintes “ficamos a cem por cento no abastecimento de água, no saneamento e no tratamento”. Disse ainda “não posso andar a vender qualidade de vida e a fazer equipamentos como o Centro Cultural, um estádio ou um pavilhão desportivo e depois não ter o básico. Estes investimentos têm de ser feitos até ao final do mandato”. Apesar de tudo, quando saiu da presidência, o concelho continuava sem ter estas infraestruturas básicas a 100 por cento. O que é que falhou?
É um facto. Não estão a 100 por cento e estão limitadas, sobretudo na parte do saneamento e do tratamento do saneamento. Que é um investimento que está a ser feito.

O que é que o levou a achar naquela altura que conseguia fazê-lo?
Os fundos comunitários apoiados para aquelas áreas e que, na altura, estavam projetados para serem apoiados e depois acabou por não acontecer. Essa parte é das obras que ficaram por fazer que eu tenho mais pena que não tenha sido bem sucedida. E não foi bem sucedida porque nós também ficámos muito limitados, porque começaram a dar dinheiro para estruturas intermunicipais e a deixar de privilegiar os casos concretos de cada município. Foi aí que nasceu a famosa questão das Águas do Ribatejo, a partir de uma determinada altura, 2005/ 2006, os dinheiros começaram a vir não isolados para cada município, mas mais numa lógica intermunicipal, em termos de ambiente, saneamento e de águas, e os financiamentos começaram a rarear.

E foi aí que surgiu a Cartagua?
Aconteceu porque foi estudada a hipótese das Águas do Ribatejo e, com a saída de Santarém, o Cartaxo estaria a entregar muito mais património e dinheiro aos restantes municípios, que eram mais pequenos. E esse assunto foi estudado, foi apreciado, foi aprovado por uma grande unanimidade dos partidos e, inclusive, o atual presidente da Câmara, na altura, apoiou esta estratégia. A estrutura de águas da Câmara tinha 50 anos de idade, estava em rutura. Passado muito pouco tempo houve problemas reais, onde se notou que aquilo, de facto, estava em decadência completa. Eu assumo responsavelmente o percurso todo. Lá está, houve algumas coisas em que houve dinheiro e houve capacidade para fazer obra e dívida e ali, infelizmente, foi-nos coartada a possibilidade de sozinhos podermos avançar com os investimentos. Tivemos que nos socorrer de um privado, que na altura dava-nos quatro coisas: a integração dos trabalhadores da Câmara; os investimentos básicos fundamentais, que eram os mais urgentes na altura, foram feitos mais na rede de águas, menos na parte das ETAR, que é a parte que falta significativa, e alguns esgotos; conseguimos na concessão 20 milhões de euros de investimentos, que é o que está hoje – na altura, os 40 por cento que nos competiam a nós, que agora, pelos vistos, vão passar todos para o privado, vinham por financiamento desta estrutura, ou seja, a Cartagua viabilizava o financiamento comunitário dos 40 por cento; e havia um ponto que era fundamental, mas isso foi reconhecido da esquerda à direita, como se sabia a Câmara estava com dificuldades e negociou um contrato de rendas de 23 milhões de euros – que eu recordo-me que, na altura, ninguém dizia que era possível – que foram úteis ao município.

 

Se não se fosse megalómano para se fazer os acessos à autoestrada, as áreas empresariais e os equipamentos sociais que estavam em falta, não se faziam mais. Há sempre as duas faces.

Que no seu mandato recebe o grosso da primeira parte.
De uma primeira parte. O privado faz investimentos iniciais e dá a renda inicial, e o resto da concessão estava previsto ele atribuir 23 menos nove milhões de euros de renda e estamos a falar de uma verba de 14 a 15 milhões de euros, com a atualização, diluídos pelos restantes 31. E agora faço uma pergunta – e então onde é que está essa renda hoje? Já repararam que a renda passou de cerca de meio milhão de euros, por ano, para uns pouco mais de 110 mil euros?

 

Onde é que foram aplicados os sete milhões de euros recebidos da primeira parte das rendas?
Foi para pagar dívida, uma parte significativa de dívida a fornecedores e para pagar alguns contratos com o banco para garantir que conseguíamos fazer algum financiamento de mais longo prazo.

Não acha que se projetou baseado em expetativas e condicionantes que não se vieram a verificar, como o número de população?
Isso é uma ideia que foi passada publicamente mas que não corresponde à verdade. Isso é a posição da Cartágua e é do privado. A posição da Câmara não pode ser essa, não deve ir pela linha do privado, nem pela defesa do privado. O fator Z e as projeções demográficas são a linha do privado. Essa ideia de que a projeção da população foi demasiada e que agora os aumentos de preço, a diminuição da renda, tudo o que é de mau acontece porque no início foi vendida uma ideia ao privado que agora acaba por não ser a realidade. As projeções que o privado faz são a 30 anos, o que significa que essa ideia de que a população não aumentou tanto quanto se previa, a linha de tendência. A população pode não estar a crescer tanto quanto se esperava, hoje, mas quem é que nos diz que daqui a cinco ou dez anos essa linha de tendência não é cumprida?

Vai haver um aumento significativo da água de 4,9 por cento, durante seis anos, vai ser sempre uma salvaguarda do privado e é o privado que diz: a projeção da população não é esta, devia ter sido aquela. Mas o privado soube isso quando assinou o contrato comigo, em 2010.

Foi um excelente negócio para a Câmara, na altura, obter as rendas, obter os investimentos, garantir que o preço – e eu levei porrada por causa do preço…

Fez política com a água ao longo de uma série de anos, antes da entrada da Cartágua?
Não foi fazer política. Diz isso por nunca ter aumentado a água. Eu não aumentei o preço da água porque nunca quis penalizar a população por aquilo que não sabia que ia acontecer. Não foi fazer política. Nós tivemos o processo das águas parado desde 2005 e não aumentámos o preço da água durante cinco ou seis anos, foi o período de tempo em que estivéssemos indecisos se íamos para a Águas do Ribatejo ou para outra. Não é no preço da água que se ganham votos, não é por aí. Ali a grande preocupação foi sempre uma preocupação de gestão.

Eu sei que nesta questão as grandes lutas não têm sido comigo, têm sido com a adenda. Mas quem está ali nunca deve defender os interesses do privado, sempre defender o interesse do público. E não venham com as desculpas do fator Z – um negócio tem de ser bom para ambas as partes e, neste caso em concreto, se a água tem de ser aumentada para haver equilíbrio em ambas as partes, muito bem, mas que se aumente a 12 ou a 20 anos e o privado que pague.

Em 2007 assina um contrato de arredamento com o senhorio do campo das pratas em que, entre outras coisas lhe prometia a revisão do PDM consoante o seu interesse ou uma indemnização de 500 mil euros caso essa revisão não acontecesse, quando a revisão do PDM não depende da Câmara Municipal?
Está lá bem claro, a Câmara comprometeu-se a envidar esforços para na revisão do PDM integrar aquele espaço. Envidar esforços, não está lá um compromisso formal de fazer algo que estivesse fora da lei. Não me venham dizer que os contratos têm prazos e não são negociados. Honestamente, aquele contrato foi feito em boa fé para resolver um problema gravíssimo que o Sport Lisboa e Cartaxo tinha, não era uma questão política, era uma questão real – os miúdos estavam lá e precisavam de ser salvaguardados, porque senão eram despejados. E aquele contrato procurou salvaguardar isso, pagámos uma renda e a condição mais natural que tinha que acontecer com aquele contrato era, pura e simplesmente, ser renegociado e dizer que o PDM vai demorar mais tempo do que está previsto por isso vamos manter o pagamento das rendas durante mais tempo. Aquele contrato tinha de ser revisto e falar-se com o proprietário, ponto final.

A dada altura, com a possibilidade da vinda do novo aeroporto para a Ota, no concelho de Alenquer, parecia quase a galinha dos ovos de ouro para os autarcas da região. Não terá sido um quê de irresponsabilidade, criar uma estratégia de desenvolvimento baseada nessa suposição?
Eu acho que todos os autarcas da nossa região foram enganados e as populações foram enganadas. Aliás, eu acho que o País anda a ser enganado com essa questão do aeroporto há décadas.

Que garantias tinha, na altura?
Garantias não, eram realidades assumidas como sendo “amanhã aquilo vai avançar e avança para ali”. E isso condiciona. Eu recordo-me que eu e muitos colegas meus andámos, durante muito tempo, a fazer projetos intermunicipais, projetos turísticos… de ‘n’ coisas que, para nós, eram dadas como adquiridas, e depois acabou por ser nada. Agora, há um aspeto que é relevante, a melhor certeza destas minhas palavras é o facto de, depois, ter havido uma preocupação enorme, do Governo da altura, em aprovar um pacote anti-Ota, ou seja, compensações da Ota, que depois estimava em 2,1 mil milhões de euros para o conjunto dos municípios que tinham sido afetados pela mega da própria Ota. Isto é um facto. Áreas de contenção, vias verdes para aprovação e para licenciamentos, etc. Esta é uma realidade.

Não vamos novamente à questão das águas e da projeção da população, porque a projeção da população do Cartaxo tinha, também, muito a ver – e tem, ainda hoje – com a questão dos parques de negócios, Casal Branco, Falcão e o da própria Lapa. Ou seja, o facto de um concelho passar a ser mais industrializado e com mais empresas, condiciona favoravelmente a atração de população, para além da qualidade de vida, para além do urbanismo e da qualidade que pode atrair pessoas, junto a Lisboa. Eu continuo a acreditar que isto não é fantasia ou a minha ambição desmedida ou megalomania. O Cartaxo continua a ter potencialidades de desenvolvimento.

Mas isso irá alguma vez acontecer?
Eu penso que vai acontecer. Reparem: aquela Área Empresarial, de costas ou de barriga, é uma área de vantagens enormes. Fiscais, que é uma das ALE’s (Área de Localização Empresarial) com vantagens de Fisco, ou seja, de isenção de Derrama, um conjunto de realidades que não têm a ver só com o Município, tem a ver com a estrutura nacional que está criada. Para além destas, aquela área tem uma centralidade enorme. Se os preços forem competitivos, que na altura foram projetados como competitivos, há condições para isso avançar.

Foi, também, no âmbito da Ota que apareceram projetos como Centros Escolares para todas as freguesias, pavilhões multiusos, o Pavilhão Desportivo, a Escola de Negócios do Vale do Tejo, o Centro de Incubação de Empresas… Ou seja, o Plano Estratégico 2005/2015 assentava no aeroporto da Ota?
Não assentava só na Ota, mas que a Ota foi um fator condicionador de muitas das coisas, em termos de desenvolvimento, foi. Disso não tenho dúvida nenhuma. Quem disser o contrário está a assumir que nós sentimo-nos muito bem com a não-Ota. Com certeza que não. O que eu tive de fazer foi gerir o que é que era essencial. Com o que é que nós temos de ficar? Ok, temos de ficar com uma nova escola.

Por que é que ao final de dois anos, no seu terceiro mandato, resolveu abdicar e deixar a Câmara Municipal nas mãos de Paulo Varanda? Não sente que defraudou as pessoas que votaram em si?
Eu penso que não. O PS sempre teve tradição de fazer mudanças a meio do mandato e a continuidade. Depois de Conde Rodrigues foi sempre assim que aconteceu e toda a gente sabia, eu tornei público, que no terceiro mandato não estaria até ao fim. Por isso, defraudar as expectativas seria se eu, quando me tivesse candidatado, tivesse deixado claro que iria estar até ao fim. Sempre fui contra os mandatos ilimitados, acho que as pessoas devem estar um determinado período de tempo e depois devem dar o lugar a outras ideias e a outras formas de fazer as coisas.

 

Há coisas que podiam ter sido feitas melhor. Mas fi-lo convictamente de que estava a fazer o bem.

Os seus mandatos foram marcados pela instabilidade política, com a saída dos vereadores Elvira Tristão, Pedro Ribeiro, Francisco Casimiro, Álvaro Pires, Augusto Parreira, Rute Ouro… Por outro lado, os presidentes da Assembleia Municipal também não fizeram um segundo mandato. Não lhe parece estranha a saída de tanta gente do projeto político por si liderado?
Eu nunca fui uma pessoa de partidos e quando entrei na política como sendo o Paulo, bom aluno, bom rapaz, fora das questões político-partidárias, do sistema, aliás, tudo aquilo que eu fiz, e algumas das ruturas, foi contra esse sistema. Algumas delas de gestão, lá dentro, e outras contra o sistema. E com isso criei inimigos, dentro do meu partido. E depois algumas pessoas, por inimizades pessoais, pelo seu feitio e pela sua forma de estar na vida, foram cultivando, neste caso eu diria mais do lado do Bloco de Esquerda (BE), inimizades pessoais e até raiva, ódio de estimação, que ainda hoje existe.

Não é estranho que a Câmara tenha sido auditada, em catadupa, pelo Ministério Público, Polícia Judiciária, Tribunal de Contas, Inspeção Geral de Finanças, Inspeção-geral da Administração Local? Fizeram-se dezenas de inspeções, de auditorias, de perseguições, hoje não se faz nenhuma. Há ódios de estimação claros e foram esses ódios que foram ao longo do tempo, e ainda hoje nas redes sociais, alimentando sempre o anátema do Paulo Caldas. E tenho dúvidas que algumas pessoas, nesta vida, tivessem aguentado o que eu aguentei, em termos pessoais e familiares, por causa dessas perseguições de pessoas que não prestam. Dessas investigações todas, das minhas idas a tribunal, saiu o quê? Arquivamentos totais e absolvição. Essas pessoas, do PS e do BE, que fizeram essas denúncias e essas perseguições é que deviam estar hoje a pagar todos os custos inerentes aos processos que foram levantados, não era a Câmara. São dezenas de milhares de euros gastos, porquê, para quê, a favor de quem?

Sentiu-se um alvo a abater?
Eu senti uma perseguição enorme diabólica, pessoal, política. Não percebo. Eu nunca cultivei ambições políticas no sentido de chegar ali ou a outro lado. Eu acho que foi excessivo. E essa perseguição acabou há pouco tempo, espero que tenha acabado. Lá que eu assuma as minhas responsabilidades ou os meus erros, que tenho assumido sempre, é uma coisa. Como disse há pouco, hoje teria feito diferente, seria mais seletivo nalguns dos investimentos, porque o tempo também a isso obrigava.

Entregou o seu cartão de militante em 2010. Ainda se considera socialista?
Eu e a minha mulher entregámos o cartão do partido porque a minha vida, e ainda hoje a minha família, tem esse impacto. Não é preciso dizer mais, mas ainda hoje sofro com isso, e a minha família, porque devassaram a minha vida no dia 18 de maio de 2010. E quem o fez foram aquelas pessoas invejosas, medíocres e dementes, condes e barões dos partidos, que vão continuando a viver à conta disso. E isto com a entrada da Polícia Judiciária na minha casa no dia 18 de maio de 2010. E eu entreguei o cartão do partido a 1 de junho. E ao fazer a entrega do cartão de militante tive o cuidado de tornar público que o fazia por razões pessoais e políticas. De facto, a política e as pessoas que continuam envolvidas nessas mediocridades e ações medíocres, não prestam. Como não prestam, afasto-me.

Mas espera voltar a aproximar-se? Independentemente de partidos, até em movimentos independentes?
Tenho dúvidas. Eu acho que os movimentos independentes são movimentos muito positivos, que representam muitas pessoas que estão descontentes com a política e que encontram na ação cívica um espaço para fazerem coisas positivas em prol do meio onde estão e daquilo que desenvolvem. Aliás, há muitos países desenvolvidos que já têm movimentos independentes, partidos de causas.

E vê-se a integrar um desses movimentos?
Não. Considero-me uma pessoa que gosta da política e acho que a política é útil, a política nobre é positiva. E fui político.

Sente saudades?
Não. Estou a fazer coisas e, por isso, as minhas saudades de fazer coisas fora da política têm tanto ânimo como se estivesse na política, que é um espaço para fazer coisas. Agora, a política tem aspetos que não prestam.

 

Tenho uma máxima que é tudo o que de bom e de mau os meus admiradores e os meus adversários dizem, é exagerado.

Considera-se socialista?
Sou socialista por convicção, mantenho a minha visão de centro-esquerda, da sociedade, da comunidade… centro-esquerda e também centro-direita, porque muitas das políticas que eu vou, hoje, advogando e defendendo estão na área da competitividade das empresas, estão numa área que eu até diria que são mais encostadas à social-democracia do que propriamente ao socialismo na sua quimera.

Desiludi-me com as pessoas do partido, completamente. E ao ver o percurso que o País tem tido, como as coisas se vão desenvolvendo e vão evoluindo, eu percebo que as pessoas – e eu próprio – vão-se distanciando. Porque há coisas que não prestam. Mas quando eu digo partido, acho que há pessoas também noutros partidos que se movem por ódios, vinganças. A política vive muito disso, cheia dessas porcarias.

Mas há uma coisa que me parece ser de enaltecer. Eu sempre tive, não só a consideração, de um conjunto de pessoas, acredito que à parte das divergências políticas, pessoas como o Renato Campos, o Francisco Pereira, que são pessoas de valor e de mérito próprio, não considero que eles sejam políticos, naquela acessão que estava a dizer há pouco, mas tive sempre, da parte do PSD e da CDU do concelho valor e reciprocidade de valor. Os meus adversários políticos, sempre os tratei com apreço, respeito e carinho, e sempre notei deles reciprocidade e esse mesmo apreço, respeito e carinho, sendo nós adversários. E digo isto em relação a pessoas concretas, tipo Vasco Cunha e outros, que ao longo da vida fomos cultivando sempre diferenças, mas nunca senti, da parte deles, invejas e mediocridades que encontrei dentro do meu partido.

Está a referir-se a quem?
Eu não me refiro a uma só pessoa, nem vou fulanizar. É público.

São públicas as divergências que teve com o atual presidente de Câmara. Está a referir-se a Pedro Ribeiro?
Não, não. Eu acho que eu e o Pedro somos pessoas diferentes, que temos formas de pensar diferentes e até de carácter. Mas nunca senti, da parte do Pedro Ribeiro, maldade ou inveja na perspetiva de me destruir. Vamos aqui deixar bem claras as coisas: aquilo que me importa, hoje, honestamente, é “deixem-me em paz, eu tenho a minha vida, como sempre tive”. Se vocês me perguntarem, eu continuo a viver no Cartaxo, pelo carinho que tenho pelo Cartaxo, pelos cartaxeiros.

E sente-se bem acolhido no Cartaxo? É que ninguém o vê…
Eu passo um mês, mês e meio na Austrália. Quando estou cá, tenho a vida a nível da área internacional da AIP, é sempre difícil conciliar os fins de semana em família. Quando estou em missões externas acabo por também estar fora. Eu sempre tive carinho e notei sempre esse carinho quando sou abordado na rua pelas pessoas. Eu acho que a elite política passou determinado tipo de mensagem que o tempo vai ajudar a desconstruir, ou seja, as críticas, a tal imagem do ser mal-amado, etc, por algumas pessoas, na minha ótica, e penso que não estou a ser injusto com isso, ou vaidoso ou hipócrita, é passada pelas mesmas pessoas, pela mesma lógica de pensamento, mas que são uns poucos, e que vão passando essa mensagem. Alguns deles andam nas redes sociais, outros vão-se ficando pela política e vão continuar a vida na política, uns em Lisboa, outros por aqui, e vão passando essa mensagem, essa leitura, tentando deixar passar a marca. Uma marca de “o homem deixou dívida”. Mas reparem uma coisa, no fim disto tudo, eu acho que o Cartaxo vai ter uma evolução, como vos disse, acho que cumpre a este executivo, que eu acho que vai ter maioria absoluta nas próximas eleições, é a minha visão clara, cumpre um mandato de continuidade.

Fica satisfeito com isso (maioria absoluta)?
A minha satisfação não é pela maioria absoluta ou não. Eu acho é que continua a não haver uma alternativa que se mostre à população.
Penso que o próprio PSD, com uma candidatura apresentando projetos mais ligados ao futuro, desenvolvimento empresarial e outros, pode ter caminho para conquistar o seu eleitorado, que o tem. Agora, se isso é suficiente para tirar a força a um presidente político e que tem feito o seu caminho, que está a procurar resolver o problema da consolidação financeira e, ao mesmo tempo, recriar, dar vida, valorizar. Se ele seguir esse caminho de dar valor àquilo que está construído, penso que o caminho da maioria absoluta existe. E as pessoas devem ter, no seu tempo, oportunidade para dar valor e criar e desenvolver.

O que fez foi sempre a pensar no melhor para o Cartaxo?
Sim, sim. Foi, assumindo, naturalmente, os meus erros e que nem tudo correu bem, e que há coisas que podiam ter sido feitas melhor. Mas fi-lo convictamente de que estava a fazer o bem, algumas vezes com expetativas que não foram satisfeitas, mas foi nessa perspetiva. A minha angústia, em termos pessoais, de ter sido um bocado massacrado, tem muito a ver com isso.

Tenho uma máxima que é tudo o que de bom e de mau os meus admiradores e os meus adversários dizem, é exagerado. É aquilo que, honestamente, eu sinto, à medida que o tempo vai passando. O tempo vai permitir ver o que é que fica e avaliar, verdadeiramente, a obra que ficou. Eu digo-vos isto porque considero que fui um presidente simples, próximo das pessoas, com os meus erros, com a minha maneira de ser. Até vos digo mais, se calhar cometi mais erros pessoais, que me afetaram como pessoa, do que propriamente erros políticos ou de fazer mal ao Cartaxo. Honestamente, é aquilo que eu sinto. E acho que deixei obra para o futuro do Cartaxo e da população. Mas também deixei dívidas.

Foi absolvido em vários processos que respondeu em tribunal. Sente-se aliviado?
Uma das coisas que eu sinto que não merecia foi passar três anos da minha vida num tribunal. Não desejo isto ao meu pior inimigo, àquele de quem não disse o nome mas falei muito. Passar três anos, de pé, e sempre dei a cara e estive ali sempre, a defender o que tinha feito, ainda por cima, em coisas que não brada aos céus. Se fosse uma questão pessoal, que eu tivesse agido duvidosamente em prol próprio, mas não foi o caso. Mas estar ali três anos a ter que estar perante um juiz, a ter que prestar provas, a estar em pé, e depois testemunhas, dezenas de testemunhas, não desejo a ninguém e acho que é atroz.

Como viveu esses tempo? Foi difícil?
Foi, e teve e tem efeitos na minha família. Eu sou o político, não é? Vivi naquilo e assumo isso. Mas não tinham esse direito. Não sou uma pessoa de rancores. Desejo que essas pessoas desapareçam da minha vida, mas é lixado. É a vida.

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