Dia das Mulheres e a violência contra elas exercida

Por Matilde Cunha

Na quarta-feira, 06 de Março, uma mulher foi assassinada pelo marido em Vieira do Minho, distrito de Braga. Tinha 39 anos, 2 filhos e emigrara para Londres, tendo voltado para Portugal há cerca de um ano. Podia ser sua mãe, sua irmã, sua tia, sua filha.

Desde o início do ano já morreram 12 mulheres assassinadas às mãos de namorados, maridos, ex-companheiros ou outros familiares. Em 2018, o número de vítimas ultrapassou as 20 contabilizadas em 2017. Em novembro desse mesmo ano, já tinham morrido 24.

A cada dez minutos uma mulher é assassinada por um homem que é ou já foi seu companheiro. Segundo dados das Nações Unidas, mais de 70% das mulheres são vítimas de violência em algum momento da sua vida, sendo esta violência sistemática e consequência da persistência de desigualdades de género.

Quanto tempo mais teremos de lutar por algo que é um direito? Portugal assinala esta quinta-feira, pela primeira vez, um dia de luto nacional pelas vítimas de violência doméstica. A meu ver, pretende relembrar o quão importante é apoiar as vítimas, demonstrando de certa forma que não estão sozinhas e que lhes damos voz. Em contraste, julgo que pouco ou nada é dada voz às vítimas de violência.

Desvalorizamos os casos e acabam todos silenciados, maior parte das vezes pela morte. O desfecho destes casos? Homens em prisão preventiva e casos arquivados, fechados em pastas, esquecidos.

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Quando leio as notícias que nos mostram que estes casos não param de aumentar, penso se um dia de luto nacional pelas vítimas de violência doméstica mudará assim tanto as vidas de quem todos os dias sofre nas mãos de um agressor. Não será preciso mais? Não é urgente que sejam tomadas medidas contra os agressores, que realmente protejam quem mais precisa de proteção? Julgo que, enquanto a justiça nada fizer, os agressores sentir-se-ão sempre protegidos e beneficiados por uma lei que “esquece” e acaba por desvalorizar estes crimes cometidos.

Desde que me lembro que luto por causas feministas, tentando mudar a mentalidade dos que mais perto estão de mim.

Feminismo para mim é a defesa de direitos iguais e oportunidades iguais para homens e mulheres – bem como a constatação de que este objetivo estava longe de ser cumprido. Não sou de extremos neste assunto do feminismo, mas não posso deixar de dizer que a tradição vai longa (demasiado até!) e é urgente educar as novas gerações de meninas e meninos no sentido de igualdade, liberdade, paridade, respeito.

Depois de tudo isto, e não menos importante neste assunto, para quando uma reflexão sobre a magistratura e quem nela se integra, agora que temos provas de que falta formação aos juízes, que por sua vez devem ser penalizados se assim o merecerem? São ou pouco nada fiscalizados, não é verdade?

Não desfaço do Dia Internacional da Mulher, mas de que nos serve celebrar se não é por ser Dia da Mulher que aquela vizinha, amiga, prima ou conhecida vai deixar de sofrer agressões, por exemplo? Desta forma, e reforçando a minha ideia anterior, parece-me crucial que se mudem as mentalidades. Parece-me urgente que se apoiem as vítimas para que possam sair destas situações de terror, medo e violência. Parece-me hoje, em pleno século XXI, que ainda continua a ser muito difícil e perigoso ser mulher.

Acredito em muita coisa, mas não posso acreditar que seja preciso morrerem mais pessoas para que algo seja feito.

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