Diego

Opinião de João Fróis

Morreu o homem, nasceu o mito.

Genial, louco, polémico, artista, foram alguns dos adjetivos que o mundo do futebol e seus incontáveis fãs atribuíram a Diego Armando Maradona Franco, nascido em 1960 na imensa Buenos Aires, cidade onde fechou há dias a centelha da vida.

Mais do que um futebolista, “El Pibe de Oro”, foi um homem do povo, nascido e criado na periferia pobre da capital do país das pampas. E sem o saber recuperou para esta nação a aura mirífica que Eva Péron (1919/1952), a eterna Evita, alcançara em apenas sete anos na sua curta vida ao lado do general Juan Péron.

Se Péron governara como um Deus na terra, Evita atingiu a alma argentina numa espiral de sedução e fascínio coletivos sem igual, encarnando as ambições e sonhos de um povo sedento de glória.

Foi nessa mesma senda que Diego entrou na alma deste país louco por futebol. La Bombonera, o mítico estádio do Boca Juniors, onde jogou entre 1981 e 1982 e veio a terminar a carreira em 2001, na noite da sua morte deixou acesa, no meio de uma imensa escuridão, a luz do camarote onde Maradona assistia aos jogos do seu clube do coração. Como se a sua luz nunca se extinguisse e certamente irá sempre brilhar forte na alma da Argentina.

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Maradona jogou em quatro mundiais de futebol, mas foi no México 86 que subiu ao Olimpo dos deuses, ao levar a alvi-celeste ao sabor do seu génio e que teve no apelidado golo do século, contra a Inglaterra, o seu momento eterno, ao fintar meia equipa adversária, levando consigo os sonhos e ambições de toda uma Argentina que exultou com a conquista do ceptro.

“El Diez”, o seu número mágico, voltou a fazer magia em Nápoles, clube onde jogou sete anos, entre 1984 e 1991, conseguindo conquistar os dois únicos títulos num Cálcio dominado pelos poderosos clubes do norte transalpino, Juventus, ACMilan e Internazionale. Foi na cidade que inventou a pizza, que Diego desceu aos infernos e iniciou uma vida recheada de polémicas. Envolveu-se com a Camorra, máfia napolitana e viciou-se em cocaína na sequência de uma lesão grave. Criticou a FIFA e os seus dirigentes e teve conflitos com a imprensa, ávida de “sangue”.

Foi tendo altos e baixos, como qualquer comum mortal e nunca escondeu as suas fraquezas. Mas a sua paixão pelo jogo, que considerava o mais belo de todos, fê-lo ir avançando e transportando consigo a chama de génio, de um talento único e irrepetível e de uma irreverência genuína que nunca abandonou. O aquecimento num jogo da Taça UEFA contra o Bayern de Munique, em 1989, ao som de Life is Life, recreando-se com a bola, voltou a mostrar a simplicidade e alegria de um homem do povo que ousara sonhar e alcançar a glória, precisamente o que o seu povo almejara com Evita.

Maradona representou a alegria de um menino nascido pobre e que teve no futebol as suas asas, as de um sonho que todo um país depositou nas suas fintas fabulosas, nos seus golos artísticos, nos seus festejos explosivos. Encarnou a alma de um povo e viveu como se nunca morresse. E na verdade o mito irá perdurar e tal como Jorge Luis Borges, viverá eternamente como símbolo maior da Argentina. Hasta siempre Diego. A “mão de Deus” chegou assim ao criador.

*Artigo publicado na edição de dezembro do Jornal de Cá.

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