Doce de tomate

Opinião de Carlos Gouveia

Ainda não era maior de idade e já trabalhava. Nada de exploração infantil, pois já tinha corpo rijo de adolescente para dar o manifesto nas searas da lezíria. Se quisesse comprar um par de sapatilhas da Converse que a Tecnibola colocava bem iluminado na montra em destaque no esquina do Largo de Marvila em Santarém, tinha de ir trabalhar. Nem valia pena fazer o choradinho que a minha vida ia acabar se não tivesse os imaculados ténis nos pés. Vai trabalhar, meu filho. Como é óbvio, os meus pais nunca dariam dez contos por umas sapatilhas. Dez contos de reis não é difícil de esquecer, pois tive de apanhar muito tomate para receber dez notas de mil paus.
Ia muito cedo com a companhia do meu primo para a Ribeira de Santarém, com o farnel privilegiado feito pela mãe às seis da manhã e boleia do pai. Lá pelas 7 e meia da manhã, a carrinha de caixa aberta da dona Jacinta, que era a patroa, apanháva-nos e lá iamos pelos campos junto ao Tejo pela estrada de campo, para apanhar tomate. Tinha duas formas de ganhar o dia: apanhar à caixa de tomate ou ao dia. Preferia sempre ganhar à caixa de tomate, pois quanto mais apanhasse, mais ganhava. Até ao meio-dia, ninguém me ouvia a falar e a fazer ronha, pois era a melhor altura para estar de costas vergadas ao sol e apanhar caixas que marcava com dois torrões. Posso dizer com orgulho que era o campeão do tomate nos campos da Dona Jacinta. Mas só até ao almoço, à tarde era para dormir a sesta à sombra de uma árvore. Ao fim da semana, a Dona Jacinta lá me chamava e fazia o pagamento merecido.
Após duas semanas árduas de labuta, lá fui eu com o dinheiro contado para comprar os ténis que tanto queria, que tanto sacrifício custou a ganhar. Ainda fui à vindima para as vinhas da Azeitada, perto de Benfica do Ribatejo, mas não era a mesma coisa. Além de ter crises intestinais diárias pelo facto de abusar dos bagos do morangueiro e ter a patroa a correr atrás de mim, tinha de trabalhar o dia todo., uma canseira. Não era justo, meu rico tomate.

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