Dona Aurora

Opinião de Carlos Gouveia

Sendo um entusiasta de vinhos, licores e associados, tenho o calcanhar de Aquiles na avaliação crítica de um vinho. Poderia ser um conhecedor de todo o processo da feitoria de um vinho, mas confesso que o pecado mortal da preguiça é mais forte ao abrir uma garrafa de vinho e dá-lo a provar ao regalo da boca.

Há vinhos que nos marcam, como o tinto da Casa de Santar, parecendo um chocolate com sabor a framboesa a derreter-se em cada garfada de um naco de cabrito, acabado de assar no forno, como recompensa de um ano de trabalho árduo e que nunca mais acabava. Também temos os vinhos da terra que nos alimentam e onde acordamos a ver o sol de todos os dias, que morrem e se desfazem como nós, dormindo profundamente no fundo da terra que já não medra, ó meu rico Joanicas. E ainda temos vinhos mágicos que custam muito a viver e que teimam em nascer todos os anos de muitos tempos e gerações, como as vinhas dos currais do Pico nos Açores.

A Dona Aurora não me conhece e eu também não a conheço mas eu sei quem ela é. No outro dia, um colega de trabalho numa das pausas natalícias, chama-me com recato para provar dois vinhos, branco e tinto. Pela cor da cara dele, já devia ter feito aquele convite repetidas vezes a outros colegas durante o dia, muito alegre e expansivo. Nada de exageros, porque o vinho sabe quando tem de descansar e também temos de deixá-lo à sua sorte. Tu que és destas coisas, anda cá provar isto. Perguntei de onde era, de quem era. Prova primeiro e diz o que gostas mais, não tenhas medo. Gosto mais do tinto, é mais doce, escorrega melhor. Parece abafado. Mas é de quem? São da Dona Aurora, produção da família. É vinho do Porto, lá de cima do Douro.

Se um dia eu tiver um vinho feito por mim, vou batizá-lo de Dona Aurora.

 

Crónica publicada na edição de janeiro do Jornal de Cá.

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