É dia como todos os outros

Crónica de Vânia Calado

Sábado de manhã. Ainda o sol vai baixo e já se contam horas de trabalho que o fim-de-semana só o é quando o dia é santo. Nos outros, vai tudo dar ao mesmo. Com o corpo a ganhar cor ao sol e os músculos a enrijecer de enxada na mão.

Ele endireita as costas. Apoiado no cabo, tira o boné e limpa o suor da testa com as costas da mão. Trabalha a pouca terra que é sua quando não está na de quem lhe paga. Naquelas manhãs, o cheiro a pó da terra seca mistura-se com o do fermento que está a ganhar corpo desde do dia anterior. Um quanto de farinha, mais um tanto de água, tudo com o que sobrou da massa da semana que passou. Deixar chegar o dia seguinte. Paciência é uma virtude, é o que é.

Manhã cedo, com ares de dia fresco, e ela faz-se ao caminho numa altivez que não sabe que tem. Costas direitas e queixo levantado para equilibrar a cesta que leva à cabeça. Pés a chinelar naquela estrada que não é nada e o som da enxada a escavar a terra a acompanhar-lhe o caminho até que desaparece lá no fundo.

O avio é feito de cabeça. Uma posta de bacalhau, das mais pequenas que estão para lá escondidas que o grão já está de molho, à espera. Vai um chouriço e uma chouriça para dar sabor à sopa e servir de conduto numa fatia de pão. No pão que ela vai amassar quando chegar a casa. Volta a fazer-se à estrada com o cesto que pouco pesa no pescoço e os bolsos vazios.

O velho alguidar de barro, já lascado, o lenço a prender o cabelo e os braços nus a remexer a farinha. Lá fora, a enxada continua a tratar do que é seu e o sol já vai alto. Ali dentro, é mais uma aguinha para mais um pãozinho. A panela com grão a cozer e os chouriços a secar na chaminé. A lenha a crepitar no forno, as mãos nuas a remexer a lume. O cheiro da comida que ainda não está pronta, a encher o estômago. A rapidez das mãos a moldar o pão, a deixá-lo tomar forma antes de se entregar ao calor. Raspar os restos da massa que ficaram na mesa, que aqui não se estraga nada, e amassar com canela. O cheiro à antecipação do bolo feito do que sobrou.

Mais artigos
1 De 9

Sábado à tarde. Dia de trabalho. Mais um.


Ler mais textos da autora

Pode gostar também
Comentários
Loading...