Em busca dos nossos antepassados

Opinião de Miguel Montez Leal

Durante séculos o registo dos antepassados e a feitura de árvores genealógicas era um exclusivo de famílias nobres, famílias fidalgas, tituladas ou não. E essas famílias normalmente não necessitam de grandes investigações, pois há muito que sabem donde vêm. Nos últimos quinze anos, pelo menos, tenho vindo a assistir a um despertar e a um enorme interesse na busca dos ancestrais. Famílias, povoações, províncias, instituições, todas desejam completar o puzzle da sua História.

Normalmente a memória familiar raramente ultrapassa o bisavô, ou trisavô, mas como costumo dizer dois pais temos todos nós, quatro avós, oito bisavós, dezasseis trisavós, trinta e dois tetravós, sessenta e quatro pentavós… e assim sucessiva e exponencialmente. Em seis gerações somamos 126 pessoas. Imaginem em 10 ou 12? Milhares de pessoas. Por isso quando dizemos, o meu bisavô, a qual deles nos referimos?

Muitas pessoas também crêem que se a sua família está há três ou quatro gerações numa terra, imaginam que sempre dali foram, e que são “ribatejanos puros”. Nada mais errado. Quanto mais investigamos mais verificamos que somos de muito lado, do Norte, do Sul, das ilhas, ou até do estrangeiro (quase sempre de países como Inglaterra, Espanha, França, Holanda, Itália…), e que, de certa forma, somos todos parentes uns dos outros, em particular num país europeu de tamanho médio, como é o nosso, e que no século XVI, ainda só tinha aproximadamente 1 milhão e meio de habitantes. Na procura dos antepassados vamos encontrando apelidos que não suspeitávamos, gente que viveu muito bem, outros que viveram com dificuldades, uns que subiram na vida, outros que desceram, na autêntica “roda da fortuna” que constitui a vida de qualquer ser humano.

Vivemos em República desde 1910, e por isso, formal e juridicamente, a nobreza foi extinta. Mas existem os seus descendentes, uns que tentam revalidar títulos extintos, outros que guardam a memória de um passado mais ou menos grandioso apenas no seu recato de família. A nobreza era uma forma criada pelo Rei de premiar aqueles que se destacassem nas armas, na diplomacia, às vezes, nas letras.

Dizia o Abade Jazente (Amarante, 1719-1789), num conhecido soneto sobre esta temática: //Qualquer homem, como eu, tem quatro avós/Estes quatro por força dezasseis/Sessenta e quatro a estes contareis/Em só três gerações que expomos nós/.

Se o calculo procede/ espreitai vós/Que pela proa vem cinquenta e seis/Sobre duzentos mais, que lhe dareis/Qual chapéu de cardeal! Que espalha os nós/Se um homem só dá tanto cabedal/Dos ascendentes seus, que farão mil?/Uma província? Todo Portugal?/

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Por esta conta, amigo, ou nobre, ou vil/Sempre és parente do marquês de tal,/E também do porteiro Afonso Gil//.

*O autor não adopta o acordo ortográfico vigente.

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