Em defesa de António Mesquita e do seu legado

Opinião de Miguel Montez Leal

A Biblioteca Municipal de Marcelino Mesquita, que ocupa o belo edifício oitocentista, revestido a azulejo, com as iniciais do seu último dono (A.M.) e a data da sua construção ou restauro (1874), deverá permanecer naquele local, na rua baptizada com o nome do principal vulto das Letras do Cartaxo: Marcelino Mesquita.
Em testamento e não tendo descendência directa, António Mesquita, irmão do dramaturgo, doou à então Vila do Cartaxo, a sua casa, e terrenos contíguos (que vieram anos mais tarde a ser ocupados pela Escola Preparatória José Tagarro), o espólio do escritor, grande parte da colecção de livros de ambos, e também a famigerada Quinta da Ribeira, em Pontével, que acabou por não ficar em mãos do município.

António Mesquita era uma personalidade muito querida do Cartaxo de então: era altivo, gostava de dar nas vistas, tinha aquela vaidade que quase parece intrínseca ao ribatejano. Gostava de descer a Rua Garrett em Lisboa, admirar as bonitas raparigas, e visitar os cartaxeiros Sá da Costa, ali estabelecidos com livraria própria. Nestes passeios até à capital ia com o seu traje ribatejano, de bom corte, e com o seu chapéu à mazzantini, que lhe dava um ar castiço, e ao mesmo tempo marialva. Foi também político republicano, administrador do concelho nomeado por Manuel de Arriaga, lavrador, produtor de vinhos premiados, fotógrafo amador (participava no Cartaxo Photo Club) e frequentador das tertúlias culturais cartaxenses. Era um homem de Cultura, amante da sua terra, e de uma grande bonomia e simpatia.

Esta doação veio permitir, anos mais tarde, em 1956, a criação da Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita. Este seu legado deve ser respeitado e permanecer in situ, embora saibamos que as bibliotecas de terras pequenas, como a nossa, são mais Museus, do que bibliotecas. Os novos meios informáticos, a internet, fazem com que os livros cada vez saiam menos das suas estantes. Mas esta situação não deve ser impeditiva para que ali se respeite a doação deste benfeitor, e que ali deixe de permanecer o belo mobiliário original, e os seus livros com as lombadas de encadernação antiga. O edifício é central e tem todas as condições, se for sendo utilizado e mantido, para resistir aos tempos. E no Cartaxo, terra tão mutilada e depauperada no seu património, terminar com a biblioteca naquele local, seria um desrespeito à memória de António Mesquita e mais um atentado ao património local. Nada que nós, infelizmente, não conheçamos já de anteriores más decisões e escolhas políticas.

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