Esperança, ‘malgré tout’

Bilhete Postal do Oeste, por Miguel Montez Leal, Investigador do IHA Nova fcsh, Instituto de História de Arte

Miguel Montez Leal

Enquanto escrevo esta crónica escuto o grande Ryuchi Sakamoto. Há pessoas que nunca deveriam partir para a outra dimensão, que a todos nos espera. Mas entre todos nós, os que por aqui andamos a tentar ser felizes, a cuidar dos nossos e dos outros e a experimentarmos não errarmos assim tanto quotidianamente, somos imperfeitos todos…não é novidade…Sakamoto é e será imortal a nós que vivemos nos séculos XX e XXI, e a Vida, a sagrada Vida, é mesmo um sopro, passa tão veloz e um dia quando olhamos para o espelho enquanto estamos a fazer a barba percebemos que já não somos a criança ou o jovem, somos apenas um invólucro a fazer o seu caminho diário de desaparecer fisicamente e ser substituído e ou continuado por uma nova geração. Por isso o Livro, os livros, o ensino, a cultura e os valores que passamos são tão importantes.

Tinha preparada uma crónica solar e positiva a puxar pela nossa terra e o nosso concelho, mas perante aquilo a que temos e estamos a assistir neste Mundo que dizem humano e civilizado, mudei a agulha de marear.

Wagner desceu à terra, a Cavalgada das Valquírias sobrevoa os céus, ouvem-se as hélices de helicópteros, drones estão por todo o lado e cerca de dois milhões de civis vão ser esmagados, trucidados e eliminados da face da terra. Não tomo partidos nem consigo fazê-lo, tomo o partido da humanidade, não sou anti-semita nem pró-palestiniano.  E não sou político, nem diplomata, nem militar. Deixo esses temas de tão difícil resolução com os especialistas. E não opino, sem base documental o eu possamos dizer é nada…

Jovens militars, miúdos e miúdas de vinte e vinte e um anos, mais altos do que os homens e mulheres da minha geração vão para a guerra, as miúdas e as jovens militares também, claro e obviamente.

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Entretanto os civis sem água, sem electricidade, sem gás, sem comida aguardam o momento do golpe final. Alguns tremendo, abraçando-se, com fome, frio e medo e chorando aguardam pela esperança ou pela misericórdia…

Alguns abastados(e não é crime viver-se confortavelmente), preparam-se para ir para as feiras de Natal da Alsácia Lorena, esquiar para a Sierra Nevada e Chamonix…ou organizarem a passagem de ano a bordo de paquetes luxuosos para verem o fogo de  de artifício e beberem espumante de segunda categoria…dormindo em camas apertadas de cabine, algumas com apenas com 1,90 cm de comprimento. São felizes, são milionários e estão-se nas tintas para o Mundo, também eles podem morrer em qualquer momento, mais vale celebrarem a sua suposta juventude, comerem uvas passas de pacote da indústria alimentar da nossa época e ficarem ébrios, porque é melhor morrer anestesiado do que lúcido… viver é um milagre e morrer é muito difícil mas a todos nos vai acontecer.

Mas depois seremos abraçados e ficarão a memória e as memórias.

Sou cristão, de educação católica, mas não sou de missa ou de procissão, não sou anglicano mas poderia sê-lo, amo a Natureza, sinto a presença de Deus em todo o lado, da minha Mãe e dos meus em cada canto ou recanto

Não sou Mr. Scrooge de Dickens, nem austero, mas gostava de falar do Natal deste ano.

O Natal celebra o dia de nascimento do Messias, um ser de Luz, um Ser extraordinário, cuja mensagem foi desvirtuada por motivos patrimoniais por Paulo, que nada tem de santo. Era um burocrata pérfido, estratega e cobrador de impostos. Nada mais. E ganhou, mas não deveria ter assim sido.

Sou Montez Leal e Victoria Pereira, isto é cristão, mas leitor, leitor e não vou em histórias da carochinha. O símbolo fundador era um peixe e uma runa, não uma cruz, um instrumento de tortura e de morte. A religião significa solidariedade, humanidade, Amor, e não “culpa e pecado” que não existem, somos só nós apenas a não tentarmos errar todos os dias. Oscar Wilde dizia que “a experiência é o que chamamos aos erros que cometemos.”

Para mim o valor base da nossa Vida são a Família e os Amigos, os Amigos e a Família.

Juntemo-nos à lareira, celebremos o Natal com as nossas presenças, as de todos, amigos e família, não façamos caridade, ajudemos quem conseguirmos e pudermos e não o exibamos.

Não compremos mil prendas para a maior parte das nossas crianças que já têm quase tudo materialmente, mas que às vezes não têm o principal que é o tempo dos pais, a atenção, o exemplo, o amor e o carinho. Larguemos o telemóvel e todos os gadgets e ipads da nossa dita civilização. Ouçamo-nos uns aos outros.

Ajudemos o comércio local num concelho pequenino de apenas 23 500 habitantes, ajudemos vizinhos, amigos e conhecidos.

Uma garrafa de vinho tinto do Cartaxo, ou do Douro e outra de gin, um bacalhau no forno, uma tábua de queijos e presuntos, e alegria, porque a alegria é Vida, e não deveríamos nascer e vir ao mundo para sofrer ou tanto sofrer. E nós somos maioritariamente privilegiados, não estamos na Faixa de Gaza ou no interior da África do Sul ou nas espetes da Mongólia. Somos europeus desde sempre (muitos antes de terem inventado a C.E.E, ou a actual U.E. de que sou acérrimo defensor), portugueses, ocidentais e atlânticos e já cá andamos há quase 900 anos.

Um óptimo São Martinho! Sejam amigos e felizes, ou pelo menos tentem. Saúde, Salud, Cheers! I have to go to drink my morning coffee, from Delta, do grande e luminoso Comendador Senhor Nabeiro.


*O autor escreve de acordo com a antiga grafia. Imagens retiradas da internet (autor desconhecido)

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