Esquecer a Campanha Eleitoral

Opinião de Pedro Mesquita Lopes

Quando estiverem a ler isto – o termo é correcto e propositado pois, na verdade, ainda não percebi o que isto é: uma crónica, um artigo de opinião ou outra coisa qualquer.

Recomeço: Quando estiverem a ler isto as eleições já foram: a nossa participação já aconteceu, os votos já foram contados e já houve vencedores e vencidos. E os personagens que andaram duas ou três semanas a passear pelo país, como se o país lhes interessasse verdadeira e genuinamente, já voltaram ao bas-fond onde se movem e convivem longe da população – o “Povo” com que alguns enchem a boca (e os bolsos) – e que pouco lhes interessa nos intervalos das eleições. É verdade que nem todos são assim, e se muitos se movem apenas entre o nada e o lugar nenhum (ambos, naturalmente, localizados em Lisboa), há os que continuam a ir a sítios e a ver pessoas e possam com propriedade dizer, como alguém me disse uma vez ao terceiro dia da Festa do Vinho: “Ainda cá ando…”

Dito isto, é importante salientar que… Pois, isso mesmo, da campanha eleitoral não há nada a salientar.

“Temos de salientar que não há nada a salientar e, vamo’lá ver, isso não é por si só uma coisa má” ou, como diria o outro, “Eu vejo-me obrigado a concordar com o José Albino e o facto de nada haver a salientar é por si só um facto que devemos salientar e se outros o não salientam o suficiente, nós devemos fazê-lo.”

E foi isto – não foi, mas, o que é pior, é que podia ter sido e, se fosse, não era pior do que foi.

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Na ficção, para que possamos desfrutar do que vemos e entretermo-nos, dizem que nos socorremos da temporária suspensão da descrença, nas campanhas eleitorais – especialmente nas nacionais, que são bem piores que as locais – acho que recorremos a algo mais forte, a uma espécie de amnésia voluntária, que nos permite ir votar esquecidos de quase tudo o que se passou nas semanas anteriores.

Só a amnésia pode explicar que possamos dar o nosso voto a quem nos vai representar ou governar durante quatro anos e respeitar essas pessoas nas suas funções depois das figuras que as vimos fazer e do que lhes ouvimos dizer em campanha eleitoral.

*Artigo publicado na edição de fevereiro do Jornal de Cá.

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