Felizmente há luar…

Opinião de Pedro Mesquita Lopes

Felizmente, a vida tem destas coisas (e doutras, mas para agora vou só escrever sobre estas). O mundo é cada vez um lugar menos recomendável e mais incerto, mas, por outro lado, num ponto de vista histórico e tirando parte das últimas décadas, nunca vivemos melhor ou, pelo menos, nunca tivemos tão boas possibilidades de viver melhor e no entanto… cá estamos, a festejar a vida ter destas coisas (e doutras, que, para o caso, não interessam nada).

É tudo um bocadinho estranho, quero-vos dizer. Aliás, se pensarmos bem, é tudo muito estranho e até incompreensível e se nos embrenharmos a fundo, para lá da espuma dos dias, o mais certo é ficarmos absolutamente depressivos, o que também não vale a pena porque não vai adiantar nada. E, atenção, não estou a dizer que a depressão é uma escolha, não é: é uma doença e, como quase a maioria das outras doenças, quem a tem não tem culpa de a ter. Adiante, que não é sobre nada disto que eu queria escrever e quando falei em depressivo não era num quadro clínico, mas no sentido empírico e vulgar de tristeza incapacitante, decorrente da percepção da nossa insignificância e irrelevância no quadro geral da vida e das opções que meia dúzia de indivíduos, entidades ou organizações tomam em nosso nome e da sociedade em geral.

“Ah, Fadista!”, exclama o leitor que esteve no mesmo sítio que eu, sem perceber metade da frase, mas a apreciar o tom da mesma.

“Que parvoíce de conversa”, sentencia outro leitor, sóbrio e sem paciência.

“Mas, afinal, este individuo está exactamente a falar de quê?”, pergunta a leitora, franzindo o sobrolho, hesitante e receosa das consequências para a sua saúde mental da decisão de continuar a ler.

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Das coisas, digo eu, das coisas que nos fazem felizes. Das coisas que nos lembram outros tempos. Das coisas normais que já não nos lembrávamos que eram normais e que, na sua normalidade, nos preenchem e nos satisfazem.

Ainda há coisas assim e este último fim de semana teve-as e por isso merece ser celebrado. Na verdade, apesar do título armado ao pingarelho, nem sei se houve luar, mas sei que houve enguias fritas, sopa de peixe, caracoletas assadas, vinho tinto, conversas, ausência de máscaras, sorrisos, narizes, bocas, mesas corridas, conversas desconexas, outras sopas, arroz doce, carnes de várias maneiras, cumprimentos, muitos cumprimentos, caspiadas, mais vinho, mais caracoletas assadas (mesmo mal assadas, quase sashimi de caracoletas), musica, ranchos, uma atmosfera eléctrica, balcões, pessoas, muitas pessoas, bifanas, açorda (come a tu!) de sável, coscorões, vinho… Festa. Este fim de semana houve Festa do Vinho e foi muito bom voltar, como se tudo fosse normal.

*Artigo publicado na edição de maio do Jornal de Cá.

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