Fornos de cal marcam a história industrial de Pontével

Ainda existe um forno de cal em Pontével, património industrial oitocentista que testemunha os idos tempos da produção artesanal desta substância, obtida através da decomposição térmica da pedra de calcário, que por aqui terminou na década de 60 do século passado. O Jornal de Cá esteve lá com João Frederico Batista, que nos contou todo o processo artesanal da produção de cal.

Os fornos de cal são parte do património histórico de Pontével, onde se estima que terão existido 22 ou 23. Não se sabe quando terão sido construídos ou quando terá tido início este tipo de exploração em Pontével, mas os fornos tradicionais de cal terão cessado a sua produção em meados do século XX, mais precisamente nos anos 60, numa altura em que o processo já estava industrializado. Apesar de ainda existirem alguns fornos tradicionais em funcionamento pelo país, ainda no início deste século, eram muitos mais os que se encontravam em ruínas.

Em Pontével, dos mais de 20 fornos de cal que existiam apenas restou o forno de S. Gens, de grandes dimensões, situado a poucos metros da EM 512-1, que liga Pontével a Vale da Pinta, e segundo Zelinda Pêgo, historiadora, deverá ser o único existente no concelho do Cartaxo. O Jornal de Cá esteve lá com João Frederico Baptista, que nos contou todo o processo artesanal da produção de cal e cuja explicação o nosso leitor poderá ver em vídeo, em jornaldeca.pt e nas redes sociais.

Estes fornos localizavam-se, habitualmente, próximo das explorações de pedra calcária, de onde a rocha era extraída e, posteriormente, levada aos fornos a elevadas temperaturas (cerca de 850 graus centígrados), usando-se a lenha como combustível. O processo, árduo, moroso, realizado com precisão e experiência adquirida com os antepassados, terminava ao fim de cerca de uma semana, com o calcário cozido, e que depois era arrefecido e desenfornado, passando a designar-se por óxido de cálcio ou cal viva.

“A cal, tão utilizada na construção, caiação, e até na agricultura, a calda bordalesa – mistura de cal com sulfato de cobre, com que se curavam as vinhas contra o míldio e o oídio – teve certamente um papel importante na economia de Pontével no séc. XVIII”, conta Zelinda Pêgo. Nomeadamente depois do terramoto de 1755, com a reconstrução da cidade de Lisboa, na qual os fornos de cal de Pontével foram um bom contributo e, segundo a historiadora, serviram para que voltassem a funcionar, depois de o rei “levantar a proibição da limpeza das matas”, medida que antes impusera “como protecção às caçadas”. Situação que se viu forçado a reverter para que os fornos pudessem ter lenha para trabalhar, “para a produção da cal que tão necessária era na capital”.

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No documento enviado ao rei D. José com os fornos de cal existentes, desde Alverca até Santarém, estão indicados os que não coziam por não terem mato, conta Zelinda Pêgo, entre os quais: “o forno das Enxurreiras, do Casalinho, do Casal do Aguiar, Vale do Silva, do Bugalho, do António Silvestre, da Falagueira, do Casal da Ribeira, do Gaio, do Casal do Pinheiro, do Areal, de S.Gens, e o da viúva no mesmo sítio, do Desembargador, dos Lameiros, do Viso, da Fonte da Telha, do Pedro do Rego, de Nabais, do Carrascal e do Vale da Pedra, o do Francisco Alves e o do Casal do Carreira”.

O que resta para ajudar a marcar a história, o forno de de S. Gens, apesar de estar situado em terreno de particulares, foi recentemente limpo e preservado, pela Junta de Freguesia de Pontével. Desde então, passou a estar mais visível a quem passa e a fazer parte das visitas guiadas à freguesia de Pontével.

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