Governar não é o mesmo que gerir empresas

Opinião de Renato Campos

Muitas vezes as pessoas são levadas a fazer juízos de valor dos governantes apenas e só por estes cumprirem, ou não, determinadas regras de gestão normalmente utilizadas na gestão empresarial. Chega-se a julgar o exercício político e o serviço público prestado, apenas pelos balanços financeiros operacionais, secundarizando-se o nível de concretização dos benefícios qualitativos. Os territórios e as pessoas, são governadas com políticas que abarcam o diversificado quotidiano da vida das comunidades e procuram a sua otimização qualitativa. Ao contrário, as empresas são, fundamentalmente, geridas através de técnicas de gestão que pressupõem a obtenção de objetivos concretos, no contexto da execução da sua atividade, impondo, como regra, a maximização dos resultados (lucros!).

No entanto, governar, é muito mais do que isso. Será priorizar, responsavelmente, um conjunto diversificado de políticas, que abarcam a vida das populações e dos territórios e que, de forma harmoniosa e equilibrada, promovam uma melhor qualidade de vida corrigindo as assimetrias de desenvolvimento. Isto, porém, nunca esquecendo a principal regra de uma sociedade democrática e civilizada: as políticas devem servir as pessoas e nunca o contrário.

É evidente que, depois da definição e priorização das políticas, há que recorrer a métodos e conceitos técnicos para avaliar os níveis possíveis de concretização, de acordo com os meios disponíveis, normalmente a instrumentos operacionais de gestão, particularmente no planeamento e controlo orçamental, algumas deles comuns à gestão empresarial, mas não subordinadas apenas aos mesmos critérios de pura rentabilidade.

Presentemente, Portugal e a Europa, são governados por uma geração de tecnocratas que, com uma estranha frieza social, idolatram mercados financeiros e confundem países com empresas e eleitores com funcionários. A situação grega é bem a ilustração disso. Numa estratégia de vistas curtas, para além dos rácios de endividamento, ninguém se parece preocupar com as graves implicações do colapso grego. No entanto, está em causa a problemática posição geoestratégica da região dos Balcãs e do médio oriente, onde sobressai o terror islâmico ou o rosnar do gigante russo, situações que voltam a levantar, novamente na Europa, os fantasmas da guerra ou da incontrolável agitação terrorista. Estar atento e evitar isto, deveria constituir a prioridade política da atual elite liberal de governantes europeus que, totalmente submissos aos mercados financeiros especulativos, têm vindo a conduzir a UE, quiçá, até à derrocada final.

Talvez a leitura dos manuais de geografia, de história e de filosofia que, estranhamente, têm vindo a ser retirados dos programas tecnocratas das universidades, hoje lhes faça falta, para que compreendendo o passado, possam no presente projetar o futuro da Europa comunitária no respeito pelos seus princípios fundadores. A isso se chama política, e não gestão e deve ser executada por políticos!

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