Num momento em que a dificuldade de acesso à habitação se tornou uma das maiores angústias da sociedade portuguesa, as recentes acampadas em Lisboa e no Porto tiveram um mérito inegável ao obrigarem o país a olhar para uma realidade que já ninguém consegue ignorar.
É verdade, porém, que parte da mensagem se perdeu pelo caminho!
Por um lado, a resposta policial gerou fundamentada indignação e controvérsia, sendo importante recordar, a este título, um princípio básico de qualquer democracia madura desenvolvida, a autoridade do Estado e a força das instituições não assentam na intimidação pela exibição de poder, mas sim na sua legitimidade, na proporcionalidade e sobretudo, no mais elementar respeito pelos direitos fundamentais
Por outro lado, também, algumas das mensagens associadas ao protesto acabaram por desviar atenções do problema central. Quando uma reivindicação sobre habitação se transforma num palco para discursos sobre burguesia e luta de classes, ou quando se mistura a crise habitacional portuguesa com a causa palestiniana (que tal como a causa ucraniana, exige uma dignidade própria que rejeita o aproveitamento), cria-se uma dispersão que enfraquece a própria reivindicação. Pior ainda, quando o protesto resvala para sessões de karaoke e performances artísticas, corre-se o risco de banalizar uma causa demasiado séria para ser tratada como um festival temático.
Passada esta espuma mediática, importa, contudo, regressar ao problema de fundo.
Porque o verdadeiro debate não é sobre a forma do protesto, mas sobre as razões que levaram milhares de pessoas a sentir necessidade de protestar. E essas razões encontram-se num desequilíbrio crescente entre a capacidade financeira das famílias e o custo de acesso à habitação.
Na verdade, a atual crise habitacional não é o resultado de um acontecimento isolado, mas da acumulação de múltiplas pressões sobre um mercado incapaz de se autorregular. A inflação, a subida das taxas de juro, a crescente mobilidade internacional, a pressão demográfica e a instabilidade geopolítica global contribuíram para intensificar um fenómeno que se faz sentir em grande parte da Europa. Porém, em Portugal, estas pressões encontraram um mercado habitacional particularmente vulnerável, marcado por uma insuficiente capacidade de resposta da oferta perante o aumento da procura.
E quando a procura cresce de forma sustentada e a oferta não acompanha o ritmo, o mercado acaba inevitavelmente por ajustar-se, neste caso, através dos preços. Como consequência, as casas tornam-se mais caras, as rendas mais elevadas e o acesso à habitação mais difícil.
É precisamente por isso que a resposta a esta crise habitacional exige pragmatismo, capacidade de execução e uma visão integrada. Não existem soluções milagrosas e muito menos existem respostas únicas para um problema que resulta, em grande medida, da conjugação de múltiplos fatores. Num tempo em que o populismo prospera à custa da frustração legítima das pessoas, é particularmente importante distinguir as propostas que produzem resultados, dos slogans ocos que apenas produzem aplausos nas redes sociais.
A boa notícia, todavia, é que não partimos do zero! Ao contrário do que por vezes se pretende fazer crer, não faltam estudos, propostas ou soluções. Muitas delas têm vindo a ser apresentadas, debatidas e aperfeiçoadas ao longo dos anos, seja por especialistas, universidades, associações do setor, autarquias, organizações da sociedade civil ou pelos próprios partidos políticos.
O problema já não reside na falta de diagnósticos nem na ausência de propostas. Reside, sobretudo, na dificuldade em transformar conhecimento acumulado em ação concreta e em construir os consensos necessários para enfrentar um desafio que ultrapassa ciclos eleitorais e fronteiras ideológicas.
Importa agora transformar a divisão em cooperação, o diagnóstico em decisão e a indignação em ação. Em suma, importa fazer acontecer!