Hoje, sabemos mais que ontem (VII)

Crónica de José Caria Luís

É por entre lamúrias, lamentos e demais sofrimentos, causados pelo flagelo que por cá se instalou e vai devastando muitos milhares de vidas, que, com incontida revolta, vamos assistindo ao exponencial aumento de casos Covid. Ocorre-me uma cena do D. Quixote, lutando contra os moinhos de vento; apenas com a diferença de os “moinhos” de hoje serem bem mais contundentes e letais que os de antanho. Porém, pelo que me é dado ver nas ruas da “nossa aldeia”, na Imprensa e redes sociais, continuamos a assistir a comportamentos bizarros e irresponsáveis próprios de uma considerável camada – porque não dizer cambada – de gentinha que, além de não fazer uso do sabão e da máscara, também não costuma usar o que tem entre as orelhas, ao contrário da classe asinina. Há gente desta má estirpe que parece estar aguardando que o azar bata à porta de um seu ente querido (se o tiver) para, a partir daí, entrar em modo de recato e respeito pelo próximo. Não porque eu seja apologista do estafado chavão que reza: “dantes é que era bom”, mas, colocando certos laivos de escassez de bens e alguma fominha de parte, os energúmenos e arruaceiros estavam em número muito reduzido e, esses sim, confinados. Bem, mas na expetativa de que a situação não se agrave, vamos prosseguir na alusão às memórias do antigamente.

Como vinha sendo relatado na edição anterior, o tema que versava o modusvivendi do relacionamento entre jovens está longe de estar esgotado. Pois era! Após autorização do pai da menina – e só do pai – era, por este, estabelecido o plano semanal para dar início às conversas que, por força dos estatutos do patriarca, era apenas ao domingo à noite. O rapazote, depois do juramento a que o pai da conversada o tinha forçado, tinha de observar as regras ora impostas.

Já falámos de namoros à janela e ao postigo da porta, mas é que havia janelas e janelões. Ora, a namorar ao janelão, alguns com o peitoril a 2 metros de altura, é que o culto não tinha cabimento, a não ser por pura malvadez. Era forçoso que a moçoila fosse solidária e desse uma mãozinha, pelo menos, para melhor desempenho da função namoro, porque das três, uma: ou o rapaz ficava de torcicolo logo na primeira noite e perdia a disponibilidade física e moral para continuar; era tentado a trepar para o interior, se a rapariga acedesse de modo conivente, mas arriscando a infração de invasão de propriedade, caso fosse topado pela sogra, que era quem, por ordem do marido, tinha por função estar à coca; ou, pior que isso, dava à sola dali p’ra fora, sem retorno. Em Vale da Pinta, felizmente, e a bem de todos, parece que a segunda versão foi a que melhor se coadunou com a realidade. Ao rapaz, para atingir o estatuto de compincha e ser-lhe franqueada a porta de entrada, só lhe faltava fazer o pino.

Mas, contava o meu avô que, no seu tempo, até se chegou a namorar em cima do dorso do burro. É verdade: aqueles que tivessem um jumento e dele fizessem alarde, além de se apresentarem com o estatuto de burguês, ainda poderiam tirar partido da cota altimétrica para, de pé, em jeito de circo romano, fazerem o equilíbrio condizente com a situação.

*Artigo publicado na edição de dezembro do Jornal de Cá.

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