Hoje, sabemos mais que ontem (X)

Crónica de José Caria luís

De salto em salto, de sobressalto em sobressalto, cá vamos chorando, rezando, e lamentando, de acordo com a sensibilidade e crenças de cada um, pela desdita que nos bateu à porta. Entretanto, de permeio, no intuito de estabelecer algum equilíbrio praticado por gente desequilibrada, ainda se peca pela má conduta de uns quantos que tardam em não saber viver inseridos numa sociedade que se pretende disciplinada. Mas, neste campo, melhor serão as análises e os pareceres de sociólogos e psicólogos. Nos meus tempos de menino de aldeia, destacava-se um velho ditado que dizia: “quem dá o pão, dá o pau.” E que grandes pauladas na tola muitos precisavam…

Mas hoje, a lengalenga é outra. Tem mais a ver com a grande revolução, traduzida em evolução, operada na nossa sociedade rural feminina na década de 60. Década esta em que as meninas casadoiras, tendentes a escapar aos ditos e mexericos de província, operados por autênticas alcateias esfaimadas, perpetradas por lobisomens em figura de mulheres, na ânsia de denegrir a vida alheia, dizia eu, que as ditas futuras consortes usavam de grande astúcia para fazer ver à aldeia quão imaculadas estavam. Por isso, elas, lá no seu conceito, mereciam subir ao altar de branco vestidas. Agora, era o bonito! As mais velhotas, ressabiadas, arreigadas a falsos preconceitos, quase que juravam que aquele casamento era uma autêntica blasfémia, uma real heresia. Com tal noiva que não merecia ir de branco. Mas as meninas faziam outra leitura: no inverno, quanto mais não fosse, para servir de agasalho, ainda se tolerava que a noiva envergasse um vestido de lã, mas, no pino do verão, que era o tempo para esses cerimoniais, nem pensar. Era um tule branco, azulado ou rosa, de seda ou algodão leve e mais nada! Que se lixassem as dentadas das velhas. Mães houve, que, indignadas pela contestação e mexeriquices das velhas da aldeia contra as suas filhas, se prontificaram a exibir o lençol usado na noite de núpcias na vidraça de uma das suas janelas se, acaso, necessário fosse. Pelos vistos, essa ameaça, que eu tivesse conhecimento, nunca se concretizou, mas, contrapondo e retaliando, já havia quem dissesse que essa demonstração de prova era mais fácil para quem tinha galinhas em capoeira. Estas linguarudas das velhas eram lixadas! Como está bom de ver, a rapaziada da escola, encarnando os arautos das notícias, assim que soube daquela ameaça do sudário, passava horas infinitas nas redondezas só para poder observar o fenómeno, caso o dito viesse a acontecer. Foi uma época em que as transições foram bastante problemáticas. Daquelas alcoviteiras, com telhados de vidro, quem terá atirado a primeira pedra.

*Artigo publicado na edição de março do Jornal de Cá.

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