Ir à feira

Carlos Gouveia | Carlos Gouveia

Mãe, quando é que vamos à feira?
– Vamos no Sábado, porque precisas de um par de botins.
Não me interessava muito pelas botas de cabedal, que era sempre uma chatice experimentá-las para saber o número certo, porque aqui o rapaz estava sempre a crescer. Arregaçar a calça, calçar meia grossa a enfiar o pé pelo cano alto da bota e o meu pai sempre a fazer a prova dos nove para perceber se estava a bater com o dedo grande do pé na biqueira.
E claro, não me livrava de ir ver tamanhos de ceroulas, porque as calças de fazenda picavam-me até à ponta dos cabelos, tal era o arrepio.
Quando olhava para as tendas de calçado, via muitos pais agachados de joelhos no cartão das caixas de sapatos e gaiatos como eu na mesma figura a olhar para o mesmo sítio: os carrosséis.
Ir à feira era ir aos carrosséis. Era das poucas oportunidades que tinha para ser grande, conduzir um carro ou uma mota, como se estivesse numa corrida e os pais a dizerem adeus para mais uma volta, mais uma viagem. Mas sempre com muito respeito pelo carrossel da roda do zoológico, com a girafa de pescoço comprido a olhar para mim.
A primeira feira que tenho memória é a Feira da Piedade, em Santarém. Uma amálgama de tendas e cordéis, com caixas de sapatos em pirâmide e famílias inteiras em romaria para passar um dia a comer castanhas e figos entre casacos de pele e cantigas entoadas de banha-da-cobra, com os rapazolas filhos dos feirantes de rabo ao léu a escaparem entre as mãos das mães que estavam atrás da banca a atender o freguês.
Ir à feira hoje não é muito diferente do antigamente. As tendas, a chuva, o cheiro a castanhas e a cabedal é o mesmo de há décadas ou mesmo séculos. Os preços vão variando pouco ao longo dos anos, alguns continuando a ser pechincha ou outros que nem a regateio descem.
O que muda mesmo são as pessoas: são outras, umas mais velhas com sacos de fruta nas mãos a olhar para o que era no outro tempo e outras que vão nascendo a olhar para os carrosséis com medo que a girafa apareça.
Ir à feira hoje não é muito diferente do antigamente. As tendas, a chuva, o cheiro a castanhas

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