Já era antes de ser: Frederico Corado

Perfil de Frederico Corado, por Cristiana Borges, aluna do 1º ano de Mestrado em Jornalismo na Universidade Nova de Lisboa.

À pergunta sobre qual a profissão que tem, responde sempre da mesma maneira: “é muito complicado”. Aos 38 anos é incapaz de a uniformizar. “Sou realizador e encenador”, conclui. Não nasceu sequer consigo, já lhe estava inscrito nos genes.

Filho de um realizador e crítico de cinema e de uma publicitária, Frederico Corado sempre esteve ligado à cultura. O pai, Lauro António Corado, ficou conhecido por realizar “Manhã Submersa”,“A Bela e a Rosa” e “O Vestido Cor de Fogo”. A mãe, Maria Eduarda Colares, é criadora de emblemáticos slogans publicitários: “Diga bom dia com Mokambo”; “Foi você que pediu um Porto Ferreira”; “Luso, tão natural como a sua sede”, entre outros. Na família a convivência com a arte não nasceu na geração dos progenitores. O avô paterno, Lauro da Silva Corado, que Frederico não chegou a conhecer, pintava. “Era um pintor maravilhoso e eu tenho pena de não me poder ter pintado”, lamenta.

Hoje, aos 38 anos, Frederico Corado é realizador e encenador. “O habitar dos dois mundos [cinema e teatro]”, foi sempre simultâneo e por isso nem sabe, nem faz sentido, para si, dizer de qual gosta mais. “Para mim é tentar dividir farinhas do mesmo saco”, afirma. No cinema gosta de filmar e dirigir os atores mas detesta a montagem. “É muito chata e depois é com máquinas e eu não gosto delas”, diz. No teatro não tem paciência para os ensaios de leitura e não gosta do fim das peças. Em ambas as artes há géneros que não trabalha porque não são o seu território. “Nós temos uma maturação para as coisas, há uma certa altura em que apetece comédia, drama, depois uma coisa mais terrorífica. Conjugo o lado para o qual tendo com o que o público anda a tender”, explica.

A profissão, os hábitos e o núcleo de relações dos pais tiveram o seu peso. “Influenciou sem que qualquer um de nós o tenha imposto, sequer sugerido. Nunca o incentivámos, mas também nunca o reprimimos. Ele escolheu o seu próprio caminho, mas claro que o que via e ouvia connosco, o que lia e o que aprendia o sugestionaram”, reconhece o pai. Quando os pais queriam um tempo a dois deixavam-no entregue aos seus baby-sitters de serviço, Marina Mota e Carlos Cunha. “Ia para o teatro e ficava no fosso da orquestra a ver a revista”, conta Frederico.

Nasceu a 22 de Outubro de 1977 na Mouraria, mas foi nas Avenidas Novas que viveu a sua infância. Uma fase “muito feliz, muito realizada”, refere. Desse tempo, recorda com carinho, Geralda, uma cabo-verdiana que ainda hoje é empregada dos pais, os cheiros e as cores do Outono, mas também os natais. “Tive tudo o que podia ter tido. Fartei-me de ser miúdo”. Lauro António conta que o filho “sempre foi uma criança de convívio fácil, carinhosa, mas independente, de personalidade vincada”.

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O Inspector Geral, levada à cena pela Área de Serviço, com encenação de Frederico Corado
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“Foi desde tão cedo, que ficou cá dentro [a paixão pelas duas artes]”, explica o realizador e encenador. Saiu da maternidade e com 15 dias fez, pela primeira vez, parte do elenco de um filme. Era o principezinho em “O Príncipe com Orelhas de Burro”, uma comédia de António Macedo. O primeiro recibo foi-lhe passado aos dois anos quando participou num anúncio à Kodak. Aos oito deu voz à célebre frase: “Hmm sabe mesmo a chocolate”, numa publicidade à Nesquik. Mais tarde, para a Moulinex, dizia: “a mãe faz os melhores bolos do mundo”.

No cinema, acompanhava muitas vezes o pai nas filmagens e nos estúdios. Também seguia a mãe nas rodagens dos anúncios publicitários. No teatro, recorda a satisfação com que via em cena o ator Camacho Costa. “Os meus pais eram muito amigos dele e foi quase um segundo pai para mim”, revela. Em casa as suas brincadeiras não eram as típicas. “Enquanto outros miúdos jogavam à bola, ele entretinha-se a criar teatrinhos e a ver muito cinema”, recorda o pai. Fred, como lhe chamam os amigos, fala de um desses momentos:“Eu era muito miúdo e fui ver a “Mãe Coragem”, feito pela Eunice Muñoz, ao Teatro Nacional e lembro-me de chegar a casa e de me pôr em cima da cama e puxar uma carroça imaginária”.

Conta que aos dez anos pegou na máquina de escrever do pai e redigiu a sua primeira peça de teatro, sobre a Revolução Francesa. Lauro António confirma: “Senti que se estava ali a engendrar um bom sarilho, sabendo-se o quão difícil é a carreira artística em Portugal. Pensei tudo isso, mas com algum orgulho, ao saber que o Frederico não seria um daqueles miúdos que só pensa em Playstation e futilidades”. Às letras da máquina sobrepunham-se as anotações a caneta, feitas pela sua mãe. “Naquela altura os erros eram bastantes, hoje são mais pequenas gralhas, mas tornou-se uma espécie de acordo tácito entre nós. Também o Frederico é sempre um dos três primeiros leitores daquilo que eu escrevo”, revela Maria Eduarda, a mãe.

Foi no Colégio Moderno que Frederico Corado fez a sua formação. “Sou um bocado alérgico a escolas, a formação formal diz-me muito pouco”, refere. Na instituição de ensino perguntaram-lhe o que queria fazer e a resposta foi: “teatro e cinema”. “Então faz que nós apoiamos-te”, reponderam-lhe. E foi no colégio que fez a sua primeira produção cinematográfica, “O Recreio”. “A Isabel Soares, a diretora da escola e a Maria Barroso deram-me muito apoio. Fiz a estreia na Biblioteca de Lisboa, na altura a Maria Barroso era primeira-dama, com certeza devia ter mais que fazer, e foi à estreia do filme”, relembra.

Do colégio recebeu também o seu primeiro prémio. O pai refere que Frederico “nunca foi um grande estudante, nas matérias obrigatórias da escola, mas era capaz de se interessar por matérias extra curriculares que o apaixonavam quase até à obsessão”. Na altura em que o colégio distinguia os melhores alunos, Frederico não constava da lista mas como tinha acabado de criar o cineclube “Cinema Moderno”, a direção do estabelecimento atribuiu-lhe um galardão. “É um prémio que eu guardo ainda hoje ao pé das restantes coisas que fiz”, conta.

Nápoles Milionária, levada à cena pela Área de Serviço, com encenação de Frederico Corado
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No cinema e no teatro, a mãe esteve sempre na retaguarda das primeiras experiências. Em 2001 Frederico Corado terminou “Telefona-me!”, o seu primeiro filme em 35 milímetros. Uma curta-metragem adaptada do conto “Telefona-me, Carlos”, da autoria de Maria Eduarda. Já em 2003, encenou a sua primeira peça de teatro, “Táxi”, cujo texto também era da sua mãe. “Temos uma enorme empatia e um sentido de humor muito semelhante, o que nos leva a ter este tipo de cumplicidade”, explica Maria Eduarda, que diz ter ficado “muito emocionada e feliz” com a escolha do filho. E acrescenta: “Ninguém como ele para traduzir exatamente o que eu tinha em mente”.

Em jovem lembra-se de ter visto a peça “Passa por Mim no Rossio”, de Filipe La Féria e de ter dito: “eu tenho de trabalhar com este homem”. Corria o ano de 1998, quando o encenador telefonou para sua casa para falar com Lauro António. Foi Frederico Corado quem atendeu. Depois de uma conversa surgiu o convite: “Oiça lá você está interessado nisto? Então apareça cá”, disse Filipe La Féria. “Entusiasmadíssimo” com a ideia, Frederico foi e por lá ficou até 2012. Começou por fazer vídeos para os espetáculos de Lá Féria entre os quais “Amália”; “A Canção de Lisboa”; “Música no Coração” mas também “Campo Pequeno de Novo em Grande” e a “Gala das 7 Maravilhas”. Em 2005 foi convidado pelo encenador para trabalhar na produção do teatro Politeama e mais tarde tornou-se assistente de encenação.

“Quando era assistente de encenação do La Féria uma vez um ator teve um impedimento sério, em cima da hora e o Frederico, como tinha mais ou menos o mesmo físico, vestiu a roupa de cena e entrou de repente em palco, perante o espanto de todos”, conta Maria Eduarda. Na altura, o que valeu a Frederico foi a participação do ator não ser de muito relevo e “a coisa lá se aguentou até ele poder regressar”, acrescenta a mãe. Foi Filipe La Féria quem ensinou a Frederico Corado tudo o que, hoje, sabe sobre teatro.

Em 2010 recebeu um convite de José Raposo para fazer uns vídeos para uma rubrica mensal que o ator tem no Centro Cultural do Cartaxo. Depois de fazer os trabalhos para a tertúlia “José Raposo Convida”, propuseram-lhe que trouxesse uma peça sua ao Cartaxo e que na altura estava em cena em Lisboa: “O Prisioneiro da Segunda Avenida”. Depois, foi Frederico quem sugeriu fazer uma primeira peça no CCC, “O Marido Ideal”, em 2012.“Um projeto que se propunha conjugar os esforços da comunidade, em elenco, cenários, figurinos, empresários” e que se viria a revelar um sucesso, tanto que o espetáculo se estendeu por mais um dia.

Do elenco de “O Marido Ideal” fazia parte o ator Mário Júlio. Foi durante a preparação da peça que se conheceram. “O Frederico queria fazer teatro no Cartaxo, eu também”, refere Mário Júlio. Dessa determinação conjunta surge aquilo que o ator apelida “desígnio divino”: a Área de Serviço, um projeto de criação artística do Cartaxo. “Os desejos de um tinham eco na vontade do outro”, afirma Mário Júlio, atual sócio de Frederico. Foi no último dia de “O Marido Ideal” que nasceu a Área de Serviço. “Pedi a todas as pessoas da plateia para se levantarem e tirámos uma fotografia para assinalar o início”, conta Frederico.

No princípio, o projeto de teatro comunitário fazia em média dois espetáculos por ano, hoje faz cinco e ainda organiza um festival de cinema. Em 2013, durante os ensaios da peça “As Alegres Comadres de Windsor”, Frederico apaixonou-se, o que o fez fazer as malas e mudar-se para Vale da Pinta. “Com o projecto aqui a ter pés para andar, era também necessária a mudança”, explica.

Pedro Ribeiro, presidente da Câmara Municipal do Cartaxo, fala de um novo impulso que a forma enérgica de ser e de trabalhar de Frederico trouxeram à cidade: “A sua grande conquista foi juntar e unir várias dezenas de pessoas, de diversas faixas etárias, da nossa terra e de concelhos vizinhos, em redor de um projeto de teatro comunitário, que tem levado à cena vários trabalhos de grande qualidade e com muita regularidade”.

Há muitas alturas em que Frederico se questiona: “Porque é que eu me meti nisto? Penso isso várias vezes ao dia”, revela. “É muito complicado de se fazer, é muito difícil e nunca há as condições que queremos”. Já desistiu de vários projetos, diz que há muito pouca coisa a funcionar como deve ser, mas nem por isso, alguma vez, pensou em seguir outro caminho. Sobre ter outra profissão, o pai responde: “Imaginar, imaginei, mas nunca tive muita esperança. Ele desde muito cedo deu indicações do que queria ser”.

Pouco Barulho, levada à cena pela Área de Serviço, com encenação de Frederico Corado
Pouco Barulho, levada à cena pela Área de Serviço, com encenação de Frederico Corado

Vânia Calado, namorada de Frederico e atriz em várias das suas peças, diz que este, enquanto encenador, deposita confiança em quem trabalha consigo o que faz com que “todos se sintam parte do projeto”. Frederico “consegue puxar pelos que trabalham com ele, fazendo com se faça sempre mais e melhor sem perder o entusiasmo”, acrescenta. Mário Júlio completa a descrição: “É muito criativo, exigente e responsável. Ele não tem a certeza de tudo, hesita, pensa, cria à nossa frente. Tem um plano geral e um planeamento pessoal (não o revela habitualmente), e é «sobre as tábuas» que concretiza os pormenores”.

Entre o que fez e o que faz, há ainda muito que sonha fazer. Há tempos escreveu um filme, “Crónica dos Dias Tesos”, baseado num livro de Luís Amorim de Sousa e que seria a sua primeira longa-metragem. A ação decorre em Londres, por sinal a sua cidade de eleição, o que o obrigaria a mudar-se para lá durante uns tempos. “Estou numa fase difícil porque o estado atual do país me deixa um bocado mole”, confidencia Frederico. “A minha vontade era ir para outro sítio qualquer mas ao mesmo tempo não deixar o que está cá, o que é impossível”, reconhece.

Enquanto a mudança é apenas desejo, por cá a luta contra as dificuldades da área são diárias. “Não há segurança nenhuma. A única certeza é não saber com o que se conta amanhã. Isso causa-me grandes angústias, sobretudo sabendo que, mais dia, menos dia, ele ficará sem pai e mãe”, diz Lauro António. Os pais sempre foram não só uma referência, mas também um pilar. “Eles sempre me apoiaram e continuam a apoiar, sempre foram atrás das minhas loucuras. Sempre apoiaram os meus golpes”. O pai diz que “era bom que [Frederico] tivesse um pouco mais de racionalidade e pragmatismo financeiro. Em arte todos querem trabalho pro bono, mas ninguém paga pro bono a conta do supermercado”. Alexandra Prado Coelho, a irmã, fala de “alguma teimosia, que por vezes o leva a fazer «orelhas moucas»” ao que lhe dizem. Frederico reconhece: “Hei-de ficar com um galo tão grande que hei-de perceber”.

“Não sei se me defino”, (in)caracteriza-se Frederico. Victor Jorge ajuda à visualização da figura do seu amigo. “Aquele corpão todo produz uma quantidade de afeto e dedicação humana considerável. É muito fofo e sabe estar”, diz. “Não posso deixar de referir que o espacinho nos dentes da frente lhe dá um tom muito patusco”, acrescenta Victor Jorge. Psicologicamente, a mãe fala de uma “pessoa honesta, idealista”, um “trabalhador para lá dos limites do razoável, mas cujo idealismo e otimismo levam muitas vezes à falta de realismo”.


 

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