Já foi a iniciativa mais badalada do concelho

Eleição da Rainha das Vindimas do concelho do Cartaxo

Vitor de Sousa

Corria o ano de 1988 quando Vítor de Sousa, radialista por paixão, no tempo das rádios piratas, apresentou uma ideia revolucionária: porque não eleger a Rainha das Vindimas do Concelho do Cartaxo? A ideia veio para ficar, e a eleição da Rainha das Vindimas já leva 28 anos.

Foi no seio da então Rádio Cartaxo – hoje, Tejo Rádio Jornal – que, nos idos de 1988, nascia a primeira eleição da Rainha das Vindimas do Concelho do Cartaxo.

A iniciativa nasceu e ganhou forma no programa “Isto é Festa”, da autoria de Vítor de Sousa, que hoje dá nome ao Prémio Simpatia, numa homenagem da Câmara Municipal a um homem que sempre defendeu os usos e costumes dos cartaxeiros.

À primeira edição, concorreram oito candidatas: Madalena Carvalho (Vila Chã de Ourique), Brigite Reis (Lapa), Sandra Anastácio (Pontével), Raquel Vieira (Vale da Pinta), Paula Vieira (Valada), Fátima Mendes (Vale da Pedra), Gina Ferreira (Ereira) e Sílvia Gonçalves (Cartaxo). De entre estas, saiu vencedora a candidata de Vale da Pedra, Fátima Mendes. E aqui reside uma das primeiras curiosidades deste concurso. Fátima Mendes era a candidata da freguesia de Vale da Pedra, que recentemente tinha sido desanexada da freguesia de Pontével – a 23 de maio desse ano.

A primeira edição da Rainha das Vindimas realizou-se no velhinho Cineteatro Ribatejo, que fecharia portas pouco depois, o que “transportou” a Rainha das Vindimas, em 1989, para o Ateneu Artístico Cartaxense.

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Jorge Blanco era um dos elementos da organização da Rainha das Vindimas, apesar de “não ter entrado logo na primeira edição, porque ainda estava a estudar na Secundária. Entrei só em 89”.

Este era “um concurso mais dinâmico… era inovador, não havia Internet nem essas coisas todas. Por isso, atraía as raparigas com facilidade”, diz Jorge Blanco, salientando o papel importante de Vítor de Sousa em todo este processo. “O Vítor era muito importante, conhecia toda a gente, lidava muito com as coletividades”, que eram parte muito importante da Rainha das Vindimas. Todos os anos, existia a preocupação que os intervalos entre desfiles fossem ocupados “com coisas feitas nas freguesias. Havia teatro, música, dança…” E, depois, havia a possibilidade de fazer render o peixe, como diz o povo. Em Pontével, por exemplo, faziam-se eliminatórias nas localidades da freguesia, onde eram escolhidas as candidatas à semi-final. E também aqui entravam as coletividades, “que tinham oportunidade de mostrar o trabalho que faziam à população”, acrescenta Jorge Blanco. No caso de Pontével, “temos que destacar o papel do Carlos Rui Duarte, que desde muito novo esteve ligado à Rainha das Vindimas, e que foi sempre um grande dinamizador do concurso em Pontével, e a nível concelhio”.

Se em Pontével, por exemplo, era fácil encontrar candidatas, outras freguesias havia em que as coisas não se passavam da mesma forma. Jorge Blanco salienta que “nas freguesias mais pequenas, como Valada ou Ereira, não era fácil; tínhamos que andar a convidar as miúdas”.

E como este era um conceito inovador, outra coisa que era relativamente fácil arranjar era os prémios.

Em 89, por exemplo, a Região de Turismo do Ribatejo ofereceu uma viagem à Madeira à Rainha das Vindimas (que nesse ano foi Ana Isabel Vieira, de Pontével). “Recordo-me que, por exemplo, durante muitos anos, o Instituto Português da Juventude oferecia os prémios às três primeiras classificadas.

Estadias em pousadas… também houve um ano em que o primeiro prémio foi um computador, já não me lembro oferecido por quem. Mas era mais fácil, até porque não existiam muitos concursos destes”, refere Jorge Blanco.

Jorge Blanco esteve na organização da Rainha das Vindimas até 2004, altura em que “me desliguei completamente da coisa”.

O objetivo do Vítor era que as pessoas sentissem orgulho, não só na sua freguesia, mas no concelho todo.

Jorge Blanco

Ainda assim, não deixa de salientar que “o objetivo do Vítor era que as pessoas sentissem orgulho, não só na sua freguesia, mas no concelho todo”. Por isso, na génese deste concurso está a eleição da mais bela, mas também os conhecimentos sobre o concelho, em proporções iguais. A Rainha das Vindimas era aquela que conseguisse maior pontuação final no conjunto do espetáculo final, visita à sua freguesia, prova de palco e teste escrito de cultura geral, todos a valerem um máximo de dez pontos”, explica Jorge Blanco. “O peso de cada uma das provas era o mesmo, para que todas estivessem em pé de igualdade”, acrescenta.

A terminar, Jorge Blanco desvenda aquele que considera ter sido o segredo do sucesso da iniciativa: “o Vítor, com o espírito dele, aquilo era quase uma coletividade. Criava-se ali um grupo muito bom com as miúdas, que depois faziam desfiles de moda para as casas comerciais do concelho, participavam no Prémio Estini… O sucesso da coisa ia para lá de ser um espetáculo, porque o Vítor quis sempre dar-lhe uma dinâmica cultural”, termina.

Durante três meses antes, falava-se da Rainha das Vindimas, se já tinham conseguido bilhetes, que roupa iam usar, e três meses depois, discutia-se se os prémios tinham sido justos, se as candidatas estavam bem vestidas…

Carlos Palmeiro

Os primeiros passos

A Rainha das Vindimas nasceu, como já dissemos, no seio da então Rádio Cartaxo.

Carlos Palmeiro, presidente da direção da Rádio, recorda que o objetivo era criar um evento de promoção da Rádio. Chegou-se a um concurso, “muito primário”, a que se “decidiu chamar Rainha das Vindimas, e entregar a produção ao Vítor de Sousa, que tinha muito jeito para estas coisas e que facilmente conseguia colaboração”, diz Carlos Palmeiro.

A iniciativa ganhou dimensão – “durante três meses antes, falava-se da Rainha das Vindimas, se já tinham conseguido bilhetes, que roupa iam usar, e três meses depois, discutia-se se os prémios tinham sido justos, se as candidatas estavam bem vestidas…” – e contou, desde o início, com o apoio logístico da Câmara Municipal do Cartaxo.

No entanto, corria o ano de 1994, quando Carlos Palmeiro viu uma notícia no jornal “O Povo do Cartaxo” que lhe desagradou sobremaneira: “vi uma notícia no jornal a dizer que a Câmara ia organizar a Rainha das Vindimas. E eu pedi ao Nuno (Heitor Ferreira) que publicasse outra, no mesmo espaço e com as mesmas dimensões, com o título «Procura-se largo para fazer Feira dos Santos». Se eles se podiam apropriar duma coisa que não era deles, era da Rádio, todos se podiam apropriar de tudo…”.

Aliás, Carlos Palmeiro considera que este foi um golpe político, “porque, aquando das eleições do Dr. Conde Rodrigues para a Câmara, quem estava a dirigir as operações daquilo que interessava para a Rádio era o Vítor de Sousa”, que era o produtor da Rainha das Vindimas. Mas como “na Rádio, ninguém é produtor independente”, o concurso era da Rádio e não do Vítor.

Por isso, Carlos Palmeiro considera que este caso se trata de uma usurpação, dado que a Rádio nunca foi ouvida nesta questão.

Apesar de tudo, Carlos Palmeiro considera que “a Rainha das Vindimas teve anos de belíssimas produções. Era a iniciativa mais badalada do concelho, quer cá dentro quer fora de portas”. Foi uma iniciativa “que pôs a terra em movimento. As freguesias traziam claques para fazer barulho pelas suas candidatas, as pessoas arranjavam-se”.

No entanto, Carlos Palmeiro deixa algumas críticas. “Enquanto o Vítor foi vivo, havia disponibilidade para dar vida àquilo. Depois, veio o Paulo Caldas e aquilo tem morrido. A Câmara acabou por não melhorar a condução da iniciativa”.

O Concurso hoje 

O concurso da Rainha das Vindimas conta também, desde 2014, com a eleição do Rei das Vindimas, e continua a ser, nos dias de hoje, um evento que tem como principal objetivo a valorização e divulgação dos usos e costumes do concelho.

A cultura da vinha e a produção de vinho, que desde sempre estiveram ligadas à história do concelho do Cartaxo, são enaltecidas num concurso que envolve todas as seis freguesias, que se fazem representar por jovens naturais de cada uma delas.

O processo de eleição contempla várias etapas, nas quais são avaliadas as capacidades e conhecimentos dos candidatos e dos candidatos – prova escrita, visita guiada ao concelho e espetáculo final.

Desde 2008, realiza-se, igualmente, o concurso Rainha das Vindimas Nacional, onde as candidatas escolhidas em cada município competem pelo título maior.

 

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