Num cenário nunca antes visto na democracia lusa, com uma multiplicidade de candidaturas no espectro centro direita, dificilmente poderia haver um resultado muito diferente do que se verificou. E tentar retirar daqui grandes ilações a nível partidário é puro aproveitamento político.
Esta eleição é claramente personalizada e mais do que a origem partidária, com a exceção do Chega, é o perfil do candidato que faz quase toda a diferença. Atentemos aos casos de António José Seguro e Luís Marques Mendes. Este último sai claramente derrotado destas eleições e não foi por ter o apoio do PSD que almejou sequer chegar a uma segunda volta, quedando-se por um quinto lugar. Já Seguro, que esteve dez anos afastado da vida política ativa e nunca foi uma preferência do seu partido, apenas recebeu o apoio, algo titubeante, do PS, na reta final da campanha.
A vitória nesta primeira volta cabe mais à moderação do António José que ao pretenso oxigénio dado pelo partido onde militou e fez história. Naturalmente muito se irá escrever e dizer sobre a derrota do governo e de Montenegro e da pretensa vitória do partido socialista e de José Luís Carneiro, alimentando perceções nas várias lutas que se travam atualmente no cenário político caseiro.
A exceção de André Ventura tem igualmente muito a ver com o seu perfil de liderança e que marca indubitavelmente a ascensão do partido, tanto que o seu resultado de ontem revela a mesma base das anteriores eleições autárquicas e legislativas. Neste caso Ventura e o Chega confundem-se e será a segunda volta que irá demonstrar até onde a sua margem eleitoral poderá crescer.
Mas olhemos para os cenários que se colocaram na longa corrida eleitoral e que foram marcando as oscilações nas candidaturas até aos últimos dias de estrada.
O almirante Gouveia e Melo foi durante meses um protocandidato com a aura conquistada como grande mestre da era Covid. Um perfil sério, competente e circunspecto em claro contraste com a esfusiante postura de Marcelo Rebelo de Sousa e que tantos detratores vinha a granjear. Foi dado como imbatível, mas a procissão não tinha sequer saído do adro. Entretanto e com algumas hesitações foram surgindo mais candidatos, uns mais óbvios que outros.
Marques Mendes foi o que há muito projetava e o apoio do seu partido foi surgindo com alguma parcimónia, mas sem deixar de estar presente. Os anos de comentário político na televisão deram-lhe a notoriedade achada suficiente para almejar ser o presidente de todos os portugueses.
Cotrim de Figueiredo surgiu como o diferencial na ala direita e mostrou capacidade para ir crescendo sustentadamente, nomeadamente nos jovens eleitores e até fora dos grandes centros urbanos. Estava assim criada a cisão no espectro centro direita, com três candidaturas potenciais e com diferenças substanciais entre si. Já na ala esquerda as candidaturas mostravam mais fraquezas que forças e mesmos em assumirem o voto útil em Seguro, esta inclinação eleitoral foi incontornável na noite de ontem e já assumida, entretanto, por Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto. Estes candidatos, apelidados de candidaturas teimosas da esquerda, acabaram por ser provas de vida de partidos em clara queda e que o voto útil em Seguro confirma sem filtros. Em resumo, a esquerda unificou-se para garantir a sua presença e força partidária e ideológica e a direita espartilhou-se nas suas enormes diferenças, mostrando as clivagens que vão sendo esgrimidas no debate político atual.
Cada candidato revela uma realidade factual. Seguro tornou-se o grande unificador da esquerda. Mendes nunca foi consensual no PSD. Cotrim é maior que a IL. Ventura é o partido. Gouveia e Melo personifica o “pai” dos saudosistas da velha ordem. Catarina, Filipe e Pinto não se distinguem dos seus partidos.
Temos agora, mais que uma pretensa disputa entre esquerda e direita, até porque convém lembrar que Seguro foi apelidado nas suas hostes de ser mais social democrata que socialista e Ventura a nível económico defende políticas de esquerda, uma contenda entre dois perfis muito diferentes e que no limite marcarão a decisão final a 8 de fevereiro.
Seguro é moderação, Ventura é contestação. Seguro é institucional, Ventura é disruptivo e antissistema. Seguro é plural, Ventura é sectorial. Seguro é temperado e previsível, Ventura é provocador e inconstante. Serão estas qualidades que irão ser escrutinadas mais que as suas filiações partidárias. Estas pesarão por certo, mas será o perfil de chefe de estado que irá decidir a eleição. E se na esquerda todos já deram o apoio a Seguro, na direita ninguém assume apoios a Ventura, algo expectável face ao incómodo que o crescimento do Chega sempre provocou.
João Cotrim de Figueiredo no seu discurso de assunção da derrota, mesmo com um resultado positivo, claramente à frente de Gouveia e Melo, mas sobretudo de Marques Mendes, voltou a lançar umas farpas a Luís Montenegro por este ter insistido no apoio a um esvaziado Mendes e não ter tido a coragem de o apoiar e ter dado assim o impulso, quem sabe definitivo, para a sua ida à segunda volta com Seguro, deixando Ventura de fora.
Por fim um exercício de pura retórica. Será que Montenegro não prefere Ventura em Belém a ter de vir a disputar as próximas legislativas com ele e as poder potencialmente perder?
E no mesmo sentido será que José Luís Carneiro não prefere ter Seguro em Belém a ter que potencialmente disputar a liderança do partido com este renovado ativo que apenas perdeu para um, na época, imbatível António Costa?
Para lá destes jogos de bastidores e das táticas partidárias que se irão desenrolar, serão os portugueses a decidir quem querem que os represente na muito complexa agenda internacional, com a ameaça impensável à sobrevivência da NATO e ao posicionamento da União Europeia face a um mundo em convulsão política, económica e militar.