Liberdade

Opinião de João Fróis

Na Grécia antiga a Eleutheria era liberdade de movimento. Mais tarde na Alemanha a Freiheit que deu origem à inglesa Freedom, descrevia a ausência de correntes no pescoço, numa alusão à libertação da escravidão. O latim falava em Libertas que significava independência, numa oposição ao dependere, ou seja, estar preso.

Todos estes conceitos partem de uma ideia de liberdade de movimentos, uma matriz física, corpórea e que marcou os ideais de liberdade durante séculos, face às constantes restrições e atentados à mesma.

Mas já no decurso do séc. XX a ideia de liberdade evoluiu para uma matriz mais psicológica, emocional e sentimental. A liberdade de pensar, de ter opinião individual e ser respeitado como tal, marcaram a evolução do conceito neste século fraturante.

Da luta de Luther King, assente na liberdade entre raças, à luta berlinense entre blocos, assente em ideais políticos, foi nas asas da música que a liberdade voou e ganhou asas. O movimento hippie deu espaço para que cada um se assumisse na sua individualidade e se libertasse da censura e grilhões sociais. Os anos 60 e 70 marcaram roturas sociais que dificilmente aconteceriam sem esta magia que a música permitiu. A liberdade criativa da composição musical alimentava a libertação psicológica e emocional de milhões de jovens que não se reviam nos modelos conservadores e castradores do pós guerra. A moda fez a sua parte possibilitando que cada um usasse as roupas que a sua excentricidade ditasse, sem regras nem limites. Percebia-se que acima de tudo a liberdade é um conceito, um ideal e que mais que movimento é essência interior de pensar e sonhar.

Vivemos agora tempos de improvável castração de movimentos. Um vírus obriga-nos a viver confinados em casa e a deixar de fazer o mais natural no homem, socializar.

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Mas as perguntas sobre o que aí vem, impõem-se. Se agora aceitamos perder parte da nossa liberdade, que iremos fazer face às regras e imposições que se adivinham no controlo que as autoridades irão necessariamente fazer? Onde é que estará a nossa liberdade? De movimentos, será controlada. Mas a de pensar, sentir e decidir? Irá soçobrar face à primeira? Ou iremos defender a nossa identidade criativa, não censurada, de emitir opinião e lutar pelos ideais que tantos lutaram para fazer vingar?

Veremos o que aí vem. E que sociedade temos para interpretar a inversão da liberdade em que vivemos até há dois meses atrás.

Hoje é dia 25 de Abril. Há 46 anos Salgueiro Mais ajudava-nos a fazer cair o Estado Novo. E a fazer cair a censura, o corporativismo estatal, a PIDE e o proteccionismo e isolacionismo político e social. O mundo mostra que estes conceitos não morreram e que há que tenda a fazer destes os novos ventos populistas, contra todas as ameaças. O ciclo repete-se e a História volta a mostrar as suas leis. A liberdade está sob imensa pressão. Cabe a cada um lutar pela sua e pela coletiva. Para o bem comum. Assim seja.

*Artigo publicado na edição de maio do Jornal de Cá.

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