Líderes precisam-se

Opinião de João Fróis

Vivemos tempos estranhos, em que deambulamos entre uma cultura de facilidade e um pretenso igualitarismo social em que não se vislumbram cabeças de cartaz, líderes de opinião ou decisores sensatos e fortes que comandem e mostrem caminhos e soluções.

Em poucos anos e com o fim da guerra fria fomos perdendo líderes mundiais, influenciadores políticos e estratégicos que acertadamente abram caminhos entre mares revoltos de problemas. A razão das ideias foi-se perdendo na divisão geopolítica que fragmentou um mundo já em si desigual e desfasado, em eras e crenças. Com o colapso anunciado do capitalismo, a soçobrar, dia após dia, agigantam-se hostes e fações e a barbárie toma-nos de assalto, invade-nos por dentro sem pedir licença e vai-nos matando os sonhos de um mundo, senão melhor, possível.

Na pequena escala dos dias comuns, deparamo-nos com a insensatez e arrogância brutal de quem se impõe no vazio que a ética vai deixando. Ideias perigosas são agora assumidas despudoradamente por quem antes não as impunha em nome do respeito pelo outro, pela liberdade de ser e crer em coisas diferentes. Agora o outro passou a ser incómodo, alguém que nos “rouba” o espaço na estrada, na fila ou nas oportunidades de trabalho.

 

Ao acabarem os líderes, inspiradores e decisores, caímos nos pântanos insondáveis do oportunismo, da revanche, do populismo barato e demagógico em que tudo e todos se arrogam com direitos de ser, fazer e opinar sobre tudo e nada. Sim, o nada é a pedra de toque pois é o que muitos sabem sobre coisa alguma, apenas querendo protagonismo e que não lhe roubem o seu quinhão, o seu lugar ao sol, seja a que preço for, por cima de quantos houver porque esses outros só atrapalham. Esta modelação medíocre vai-se impondo na falta de exemplo e educação entre gerações, gerando jovens imaturos, desresponsabilizados e bem sentados nos facilitismos que os seus pais alimentaram, nas suas próprias fraquezas e falhas. Os líderes em casa estão a morrer e com eles a esperança em indivíduos sãos, esclarecidos e sensatos que venham a inspirar o mundo e a liderar o futuro.

 

A verdade é que não somos todos iguais, nem em capacidades, tão pouco em oportunidades e menos ainda em resistência à pressão e aos inúmeros desafios que esta vida nos coloca. Somos iguais em humanidade e capacidade de fazer o bem, todos os dias. Em cooperar e inspirar. Em partilhar e acrescentar. Temos de lutar por ideais, por valores e pela ordem social. Pela cultura e liberdade. E para tal temos todos de ser líderes à nossa escala e gerar os que o possam fazer, acertadamente, a nível global. Haja esperança e homens bons. O mundo precisa deles urgentemente.

 

Crónica publicada na edição de outubro do Jornal de Cá.

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