Mãe

Opinião de João Fróis

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O princípio de tudo nesta vida, tal como a conhecemos. A nossa mãe. Dá-nos a vida e ama-nos incondicionalmente ao longo desta nossa existência, como se cada dia fosse o primeiro e fossemos eternamente meninos. Ao seu lado o pai, naturalmente. E sendo-o orgulhosamente de três belas crianças, valorizo imenso a comunhão de ambos na construção dos seres que ajudam a crescer e a formar-se no seio da sociedade.

Mas hoje foco-me na mãe e em particular na minha, falecida há breves dias e do qual ainda não me recompus por inteiro. Nunca estamos preparados para perder os nossos pais, seja em que altura da vida for. E mesmo aceitando a ordem natural das coisas, sabendo de antemão que todos nós iremos partir deste mundo, chegada a hora, a consternação apodera-se de nós e o vazio envolve-nos. A morte tem esse poder de nos reduzir à nossa pequenez frágil e perene. Como folhas caducas que caem para dar lugar a novas. E ficamos condoídos, a lamber as feridas de ficarmos mais sós e na última linha em que não temos mais ninguém acima de nós nesta escala de tempo a que chamamos vida. O tempo, esse escultor que nos dimensiona, tem virtudes únicas na forma como nos abala e amansa, como nos atira ao chão e depois, ajuda a levantar. E se há curtas semanas ainda estávamos juntos a celebrar o aniversário de uma das netas, ninguém iria adivinhar que seria a última reunião familiar em que estaríamos todos juntos. E em poucos dias a entrada no hospital, a perceção da gravidade e a esperança resiliente em que fosse possível vencer mais esta batalha, como antes almejara em tantas outras. Os dias de incerteza, a angústia mal digerida, o sono interrompido e eis que somos confrontados com a sentença final e a impotência para manter a centelha da vida acesa.

Num ápice tudo acontece e a vida esvai-se na dignidade assistida dos mistérios de morpheu. As lágrimas que quase nunca saem caíram soltas na dor imensa da perda abrupta. A impotência esmaga-nos e deixa-nos atarantados. Foi assim há treze anos atrás quando perdi o meu pai, breves meses após ter sido pai pela primeira vez. Ficamos torpes e frágeis perante os mistérios da vida e esta dança das cadeiras em que caem uns e se levantam outros. Mas sempre assim foi e será e a aceitação desta nossa condição é mais do que necessária, imperativa para podermos viver. Um dia de cada vez como uma bênção. Porque nesta viagem em que recebemos um bilhete só de ida nunca sabemos quando a mesma termina e em que apeadeiro iremos ficar. Gozemos pois o caminho e as suas benesses e virtudes.

O amor é sem dúvida o sentido maior desta existência humana e só ele nos dimensiona e dignifica enquanto seres conscientes da nossa mortalidade. A partir daqui todos os caminhos de fé são plausíveis e cabe a cada um acreditar em caminhos que se abrem para lá desta negra etapa, assim como se aceitam as visões finalistas dos que entendem que tudo termina aqui. Assumo-me crente, espiritualista e homem de fé. Acredito no espírito, na energia essencial que anima cada um de nós e a que chamamos alma. E conforto-me na ideia da reunião de todos os nossos que já partiram e na paz que todos almejamos alcançar. Estou sereno nessa convicção e encontro-me com os meus na memória bem viva de tudo o que são e foram para mim e para os seus. Somos memória sem dúvida alguma. É com ela que crescemos e vamos avançando e aprendendo, é nela que assentamos a consciência e os alicerces que nos estruturam, é nela que nos encontramos enquanto seres sociais e éticos, filhos, pais, irmãos e familiares, amigos e conhecidos. É nela que fundamos a identidade e verdade de quem somos e do que queremos passar aos vindouros. E são as boas e belas memórias da minha mãe e pai que me ajudam a avançar e a todos os dias acompanhar, acarinhar, educar e amar incondicionalmente os meus filhos adorados. É este legado de amor e bondade que nos anima e dimensiona. É este sentido de passagem de testemunho, de missão construtora e edificadora que nos congrega e motiva a lutar todos os dias e a tentar superar todas as dificuldades, mantendo incólume o essencial, a paz e o amor nos corações dos nossos!

São estes valores maiores que bebi em tenra idade, no ensinamento dos meus pais e na companhia próxima da minha mãe. Atenta e interessada mas sempre com respeito pela nossa identidade. Foi assim que cedo comecei a ter a chave de casa e a gerir o dinheiro, participando da economia caseira e do valor do mesmo. Foi com os livros que nunca faltaram que fui conhecendo muito do mundo lá fora, em tempos ainda longe das facilidades informativas e comunicacionais de hoje. E foi no seio da família que fui percebendo a importância maior do amor que dela recebemos e nos ajuda a sermos quem somos. Foi assim com os meus avós maternos e os meus tios e primos. Com presença constante e partilha de ensinamentos. Na mercearia dos meus avós, aberta mais de sessenta anos, aprendi muito do que sou hoje na gestão material e perceção do real valor das coisas. Conheci de perto o valor de cada produto e os seus ciclos, trabalhei e ajudei a manter as portas abertas quando o meu avô partiu. A minha mãe, eterna cuidadora da família tinha cumprido abnegadamente a primeira das suas missões na doença do seu pai, com esforço e presença constantes até ao epílogo. Os tempos do Sr. Carlos caixeiro viajante, do produtor de vinho de pequena escala, do merceeiro mor da aldeia e redondezas tinham chegado ao fim. Nova missão se abria e manter as portas abertas com a minha avó ao leme foi alcançado por mais quatorze anos. Mantendo-a na sua casa e a fazer o que sempre fez e mais gostava, estar junto dos amigos e clientes de sempre, com um sorriso largo e afetuoso para todos. Era assim a “menina” Lídia como era carinhosamente tratada por todos. E foi nesta missão que a minha mãe se ocupou, ao mesmo tempo que apoiava o meu pai já doente e incapacitado desde o dealbar dos cinquentas. E fê-lo sempre com dedicação cuidada e sem hesitar em dar o melhor de si para que os seus estivessem o melhor que fosse humanamente possível. Sei-o bem pois participei ativamente desde sempre nesta missão cuidadora.

Também eu o sou e cresci enquanto homem neste sentido maior de proteção e cuidado com os nossos. Só assim faz sentido para mim. Foi assim que a minha mãe acompanhou a mãe até ao fim, já na sua casa e onde eu ainda estava, próximo dos meus. Foi assim que acompanhou diariamente e com total entrega o meu pai até ao fim, poucos anos depois da mãe ter partido. Na sua dor fui amparo, tal como meu irmão, e foram anos de sofrimento e luto, atenuados com a presença da minha primeira filha nos seus primeiros anos e dos ternos cuidados que lhe deu sempre. O amor sempre esteve presente e foi nele que encontrou forças para avançar e superar o vazio de alma. E o seu espírito positivo e batalhador foi depois posto à prova quando enfrentou em duríssima prova a doença abrupta e o risco de morte. Venceu na altura, assim como as lutas posteriores já aqui no Porto. Foi também aqui que se alegrou com a chegada de mais uma neta, a “florzinha” como ela lhe chamava. E foi sempre de perto, entre a família e com muito amor que fomos caminhando, dia a dia, na esperança de ainda termos a bênção de muitos dias felizes juntos.

Não foi assim e há agora que aceitar e afirmar o legado que deixou nos seus e na nobre missão de cuidarmos uns dos outros. É assim desde sempre e assim continuará. Não concebo a vida sem amor e sem a sua vivência diária, sem a partilha de afetos e sentimentos, sem a proximidade e solidariedade interessadas e genuínas. Não basta dizer. Muito menos adiar. Menos ainda não acompanhar ou deixar longe. A vida é breve e nada é mais importante que amarmos os nossos e estarmos de bem com a vida e todos os que connosco nela se cruzam. Em paz e com a bondade no gesto e o amor bem vivo no coração.

Este é o meu legado. Esta é a homenagem à minha mãe e que continuarei com firmeza e alegria a alimentar, todos os dias. Que encontres a paz eterna e sejas mais uma estrela luminosa no céu, a olhar pelos teus e pelo bem deste mundo. Descansa em paz mamã. D. Estefânia para amigos e conhecidos, Fânia para família em tempos idos, avó Fana para os netos, a minha saudosa Maria. Nós por cá continuaremos o teu legado. Com todo o meu amor! Até sempre mãe.

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