Maio, Maduro Maio

Visto de Cá, por Pedro Mesquita Lopes

Em “Espécie de Altar”, uma música do novo disco de Jorge Palma, “Vida”, a uma certa altura o homem canta: “O futuro vem lá, sinuoso e matreiro, e o que deixa antever não é convidativo. Tenho um médico bom, é um homem sincero, diz-me que também ele se sente apreensivo.”

Ora, não precisamos de ser cantautores, nem médicos, nem bons, nem sequer sinceros para estarmos apreensivos com o que o futuro nos reserva, basta termos memória e capacidade para sentir temperaturas, para perceber que estamos tramados, que já estamos no futuro que cientistas e políticos nos diziam vir a acontecer só daqui a dez a vinte ou a cem anos. Basta sentirmos o calor estival de Abril ou o calor de ananases dos dois primeiros dias de Maio para entender que o futuro, tão sinuoso e matreiro como sempre foi, é agora bastante mais quente, mais seco e mais extremo.

E, como em quase tudo, o que vemos ser feito e o que nos é “vendido” como solução é contraintuitivo, absurdo, estranho, mas é-nos apresentado como tão necessário como indiscutível: “É o progresso, estúpido!”

Não se pensa, nem se debate, nem sequer se pondera as consequências a curto, a médio ou a longo prazo daquilo que se faz hoje. “Este é o caminho”, dizem-nos, mas nem precisavam de dizer porque a nossa capacidade de influenciar ou alterar é mínima, para não dizer que não é nenhuma. “Este é o caminho”, repetem e doutrinam-nos para, mais à frente, alguém poder alijar responsabilidades, entretanto coletivizadas. Quando a “escolha” é do coletivo, a responsabilidade não é de ninguém!

Vem isto a propósito da “cultura” dos painéis fotovoltaicos que está a alastrar por todo o país – e também no Cartaxo –, numa sucessão de grosseiras violações do ambiente e do território, mas a que, por força de lei, ninguém se pode opor – as Câmaras Municipais, por exemplo, em regra não o podem fazer – e que é mais fácil de licenciar do que quase tudo, por mais pequeno que seja, que se queira fazer nesses territórios. Para o volfrâmio dos tempos modernos não é preciso pedir licença, basta pagar, e não há RAN, nem REN que atrapalhe, é uma maravilha… As terras ficam “limpas”, secas, sem árvores, sem vegetação, sem animais, nem insetos, mas não há-de ser nada, é o progresso!

Se há tantas áreas urbanas sem aproveitamento, tantos telhados industriais e habitacionais à mão de semear, porque é que havemos de andar a cortar árvores (mesmo eucaliptos), a limpar e a desmatar áreas enormes, a dar cabo de ecossistemas para “plantar” armações de metal para a cultura do painel fotovoltaico?

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No Pátio das Cantigas, Vasco Santana não precisou de uma torneira para ser feliz, espetou um prego na parede e o vinho palhete jorrava que era uma maravilha.

No Cartaxo, em 2023, a graça está numa torneira, homenagem ao vinho e a quem o produz. Parabéns a quem idealizou e não desistiu de fazer o monumento, que o é, e a quem, aceitando ideias e projetos externos, os concretiza!

Se eu tivesse o dom do Jorge Palma, havia de arranjar uma letra para cantar que é outra espécie de altar no meio de uma rotunda.

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