Opinião

Maio, Maduro Maio

Visto de Cá, por Pedro Mesquita Lopes

By Jornal de Cá

May 20, 2023

Em “Espécie de Altar”, uma música do novo disco de Jorge Palma, “Vida”, a uma certa altura o homem canta: “O futuro vem lá, sinuoso e matreiro, e o que deixa antever não é convidativo. Tenho um médico bom, é um homem sincero, diz-me que também ele se sente apreensivo.”

Ora, não precisamos de ser cantautores, nem médicos, nem bons, nem sequer sinceros para estarmos apreensivos com o que o futuro nos reserva, basta termos memória e capacidade para sentir temperaturas, para perceber que estamos tramados, que já estamos no futuro que cientistas e políticos nos diziam vir a acontecer só daqui a dez a vinte ou a cem anos. Basta sentirmos o calor estival de Abril ou o calor de ananases dos dois primeiros dias de Maio para entender que o futuro, tão sinuoso e matreiro como sempre foi, é agora bastante mais quente, mais seco e mais extremo.

E, como em quase tudo, o que vemos ser feito e o que nos é “vendido” como solução é contraintuitivo, absurdo, estranho, mas é-nos apresentado como tão necessário como indiscutível: “É o progresso, estúpido!”

Não se pensa, nem se debate, nem sequer se pondera as consequências a curto, a médio ou a longo prazo daquilo que se faz hoje. “Este é o caminho”, dizem-nos, mas nem precisavam de dizer porque a nossa capacidade de influenciar ou alterar é mínima, para não dizer que não é nenhuma. “Este é o caminho”, repetem e doutrinam-nos para, mais à frente, alguém poder alijar responsabilidades, entretanto coletivizadas. Quando a “escolha” é do coletivo, a responsabilidade não é de ninguém!

Vem isto a propósito da “cultura” dos painéis fotovoltaicos que está a alastrar por todo o país – e também no Cartaxo –, numa sucessão de grosseiras violações do ambiente e do território, mas a que, por força de lei, ninguém se pode opor – as Câmaras Municipais, por exemplo, em regra não o podem fazer – e que é mais fácil de licenciar do que quase tudo, por mais pequeno que seja, que se queira fazer nesses territórios. Para o volfrâmio dos tempos modernos não é preciso pedir licença, basta pagar, e não há RAN, nem REN que atrapalhe, é uma maravilha… As terras ficam “limpas”, secas, sem árvores, sem vegetação, sem animais, nem insetos, mas não há-de ser nada, é o progresso!

Se há tantas áreas urbanas sem aproveitamento, tantos telhados industriais e habitacionais à mão de semear, porque é que havemos de andar a cortar árvores (mesmo eucaliptos), a limpar e a desmatar áreas enormes, a dar cabo de ecossistemas para “plantar” armações de metal para a cultura do painel fotovoltaico?

No Pátio das Cantigas, Vasco Santana não precisou de uma torneira para ser feliz, espetou um prego na parede e o vinho palhete jorrava que era uma maravilha.

No Cartaxo, em 2023, a graça está numa torneira, homenagem ao vinho e a quem o produz. Parabéns a quem idealizou e não desistiu de fazer o monumento, que o é, e a quem, aceitando ideias e projetos externos, os concretiza!

Se eu tivesse o dom do Jorge Palma, havia de arranjar uma letra para cantar que é outra espécie de altar no meio de uma rotunda.