Mais um Ano Escolar, mas com que Escola?

Opinião de Ana Benavente

Começou mais um ano escolar. Pais, professores, alunos, todos, afinal, só pediam que começasse a horas e sem grandes atropelos. Tão modestos e pobres nos tornaram!

A pretexto da crise, os últimos governos instalaram uma escola que pouco tem a ver com a Educação Para Todos, com igualdade de oportunidades, que, desde 1974, com erros e falhas, mas sempre com os mesmos objectivos, se tinha vindo a construir. Uma escola que formava os jovens para a vida, com saberes e espírito crítico, capazes de intervir. Uma escola para cidadãos, capazes de orientar a sua vida individual e colectiva.

Ora o que temos hoje uma escola de turmas grandes, de agrupamentos imensos em que as crianças e os jovens vivem como em instituições fechadas, (no caso dos que vêm de fora das cidades). Temos uma escola “de arame farpado”, cheia de “muros”, metáforas que uso pra vos dizer que temos uma escola selectiva, produtora de exclusão, em que os exames condicionam tudo o que lá se faz. E isto num país empobrecido e mais desigual. As escolas recebem mais quanto melhores resultados tiverem nos exames e, por isso, escolhem os alunos.

Hoje, um aluno que reprove duas vezes seguidas e três alternadas (e a reprovação voltou em força, com conteúdos cada vez mais abstractos e exames em todos os graus de ensino) é “empurrado” para uma via dita vocacional, em que aprenderá alguma profissão, mas nunca mais voltará a estudar como os outros.

Conseguiram fazer o que queriam: a escola dos “eleitos” (os meninos que vêm das classes letradas e que pagam explicações) e os “excluídos (aqueles cujos pais não os sabem ensinar em casa e vivem com muitas dificuldades). É a escola das desigualdades. Disseram-nos ter importado um modelo alemão. Mas a nossa sociedade tem a mesma estrutura produtiva, a mesma história e os mesmos graus de qualificação da Alemanha? Por favor…
Acabaram com a Educação de Adultos. Quando comparamos os nossos graus educativos com os outros países europeus, perdemos para os países do Norte (já o sabíamos), mas perdemos também para os países de Leste.
Os professores andam exaustos, as escolas perderam recursos educativos, os alunos são “carne para canhão” (agora até o inglês, boa ferramenta, concordo) leva à reprovação logo no 1º ciclo.

Não se fala nisto durante a campanha eleitoral. Mas devíamos estar muito atentos, nós, ao que estamos a fazer aos nossos filhos e netos. A criá-los na competição individual, a cansá-los desde pequenos, a preparar-lhes um mundo assustador.
Estou disponível para debater este tema quando o Cartaxo quiser.

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P.S. ao acaso da cidade, encontrei uma jovem que me conhecia do Jornal mas não sabia que eu era do Cartaxo. Sucedem-se as gerações, claro. Pois sou, com muito gosto, nascida e criada na Rua Luís de Camões, em frente ao mercado. Filha de professores, não podia deixar de vos falar, com revolta, sobre a educação que estamos a deixar que imponham aos nossos filhos.

*Ana Benavente escreve com a antiga grafia

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