Mãos à uva: a colheita dos meus idosos

Por Raquel Marques Rodrigues

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Quem é que não sabe como decorriam à época das vindimas do tempo dos nossos avós? Qual deles foi o mais atrevido e teve a coragem de confessar que deu uma escapadela de amor na vinha? Porque ainda hoje adoram beber o seu copinho de vinho à hora da refeição? Recordar tradições vinícolas é reviver o passado dos meus idosos, por isso no lar onde trabalho chegando a setembro o mês é dedicado ao tema das vindimas.

Já lá vai o tempo em que muitos das idosas iam vindimar, quando o sol nascia elas lá estavam devidamente trajadas, com o seu chapéu de palha, uma saia rodada às riscas, um casaco e, claro, não podiam faltar os cestos e a tesoura para cortar. A idosa Maria C., de 92 anos, partilha comigo com orgulho e ao mesmo tempo com uma lágrima no canto do olho que: “o meu capataz era o meu pai. Apanhávamos quatro tinas na carroça. Custava-me tanto acartar os cestos… Sabe menina, para o almoço levava uma sardinha e pão cozido de oito dias e quando a dor de barriga apertava, limpava o cu às parras”. Vida árdua mas carregada de emoção.

Como será este ano? Penso e trabalho com os idosos na novidade que se pode introduzir na festa das vindimas. Qual a música selecionada para acompanhar o desfile etnográfico dos seniores residentes? Cada ano ensaia-se uma música alusiva ao tema, mas “era o vinho meu bem, era o vinho, era a coisa que eu mais adorava, só por morte, meu bem, só por morte, o vinho deixava…” será sempre a letra eleita que ficará eternamente gravada nos meus ouvidos pela C., de 95 anos. Uma música contagiante que a utente canta todo o ano.

A prova dos vinhos, o concurso dos cestos, a eleição da rainha das vindimas, a representação teatral, a confeção dos trajes – chapéus, lenços, aventais, saias, e decorações são atividades realizadas para este dia de festa na animação cultural, permitindo explorar a criatividade e a partilha dos seus costumes.

Para sempre recordarei a Sra. M., de 74 anos, a quem todos carinhosamente tratavam pela “costureirinha do lar”, que uma vez mais deu mãos à obra para terminar a bandeira da adiafa. Ela pôs mãos ao dedal e à agulha e deitou-se às três da manhã. A esta atitude chama-se: Insónias? Coragem? Empenho? Dedicação? Para mim Motivação! É o que falta a muita gente…

Só posso concluir que os idosos são como o vinho: quanto mais velhos estão, melhores são. Com eles aprendi que não adianta chorar pelo vinho derramado, porque o propósito será abrir outro novo, façamos um brinde à sua longevidade e ergamos os nossos copos ao envelhecimento ativo.

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