Memórias Breves dos Dias de Azar

Por Pedro Mesquita Lopes

Se o senhor La Palisse fosse vivo não acredito que cunhasse como sua, como uma verdade evidente, a frase que às vezes se ouve de que “A sorte dá muito trabalho”, pois às vezes isso é verdade e outras não. Há sortes que são apenas isso: uma feliz conjugação de fatores que resultam num resultado mais agradável do que o esperado.

 

Por outro lado, parece-me que o senhor Jacques de La Palisse, um individuo francês que viveu realmente – quero dizer, não sei se viveu realmente, sei que esteve vivo e depois morreu, o que, convenhamos, não é a mesma coisa que viver realmente; o que é uma lapalissada, mas que não deixa de ser areia demais para a minha camioneta e não vou por aí. Voltem atrás, ao início do parágrafo, releiam até ao travessão e depois voltem aqui, a seguir ao próximo travessão) – e que só depois de morto e por erro se veio a tornar famoso (as coisas que a Wikipédia nos permite saber), podia ter abraçado como sua, como uma lapalissada, o contraponto àquela frase, essa sim, uma verdade evidente, a de que a falta de trabalho, de cuidado, de empenho dá azar. Muito azar.

 

E foi isso que o Cartaxo durante muitos e longos dias, semanas, meses e anos teve: azar. O azar próprio que resulta não da falta de sorte, que essa pode sempre acontecer, mas a que decorre da falta de trabalho, de falta de cuidado, de falta de empenho.

 

O Cartaxo tinha azar. O concelho do Cartaxo, como o Baltazar, tinha muito azar: ora eram os investidores que vinham e iam; ora eram as estradas que criavam buracos por má vontade; ora eram as ervas que se multiplicavam porque sim; ora eram os projetos que se projetavam projetar mas que nunca saíam do projeto, os malandros!; ora eram as poucas obras que se faziam e corriam mal porque isto e porque aquilo ou por outra coisa qualquer. Havia sempre um azar, uma pouca sorte, um imprevisto, uma contingência que justificava a impacção, o adiamento, a procrastinação do mais básico ao mais complexo e que explicava a nossa irrelevância, o nosso marasmo, o nosso retrocesso enquanto cidade, enquanto concelho, enquanto comunidade.

 

– Vem tudo isto a propósito de quê? – perguntaria o La Palisse se pudesse.

 

Vem tudo isto a propósito da memória ou da falta dela, respondo eu.

 

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Vem tudo isto a propósito da necessidade de nos lembrarmos de onde estávamos há um ano, há cinco, há dez ou há quinze. Da necessidade de termos a perspetiva do que foi feito, bem e mal, do que se gastou sem obra, do que se hipotecou sem contrapartidas, do homérico buraco financeiro em que nos deixaram, do que se fazia de quatro em quatro anos para eleitor ver, do que não se fez nem se tinha intenção de fazer apesar dos bonitos discursos, dos passou-bem sorridentes, dos beijinhos simpáticos e das palmadinhas nas costas.

 

A memória dos longos dias de azar que nos trouxeram aqui importa e é relevante. Não justifica o presente, nem desculpa o futuro, mas enquadra-os e torna-os mais compreensíveis, inteligíveis e escrutináveis.

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