#MeToo

Por Maria Beatriz Tacão

O #MeToo é um movimento internacional que se tornou viral em 2006, cujo objetivo se prendia em dar ênfase ao abuso e assédio sexual, maioritariamente, no local de trabalho, como forma de alertar a população para este mesmo problema.

Admito que nunca tinha dado grande relevância ao #MeToo, até ter visto a nova série da Apple TV, com a Jennifer Anniston, Reese Witherspoon e Steve Carell – tem piada, eu sei –, que aborda esta mesma questão – não vou dar spoiler, prometo.

Até então, tinha ideia de um #MeToo, em que os homens passavam sempre por ser os predadores, agressores, violadores, detendo toda e qualquer culpa. Mas, com o decorrer da série, pude-me aperceber de uma faceta do #MeToo completamente diferente: mulheres, que escolhem envolver-se com homens hierarquicamente superiores, que acabam por ver a sua vida destruída, porque a sociedade as julga por estarem com esses mesmos homens. E por sociedade, digo a própria empresa onde esse homem e essa mulher se encontram. O homem tem sempre a sua culpa, não tiro isso. Mas também me custa acreditar que não exista culpa por parte das pessoas ao redor da mulher, que a julgam por ter estado com esse homem com poder.

Não obstante, à medida que a série avança, e apesar de achar que o homem nem sempre tem culpa das repercussões que o facto de uma mulher estar com ele tem no seu quotidiano, é de deixar estarrecida qualquer mulher, o impacto que um simples olhar no local de trabalho tem na mulher que se envolveu sexualmente com esse homem. Porque, quer queiramos quer não, o homem aproveita-se do poder e do nome que tem, de forma a obter tudo aquilo que quer e pensa que pode ter. E esse é o problema: ele acha que pode ter tudo, sem ter qualquer repercussão – mas elas existem. Não só para ele, mas para todas as mulheres que involuntariamente se envolvem com ele. As palavras, os olhares, os suspiros de julgamento, o medo, destroem a autoestima de qualquer mulher. E o pior, pelo menos para mim, é a forma como as próprias empresas, por quererem proteger não só a sua imagem, mas o homem no poder em causa e o seu nome, encobrem todas as situações.

Apercebi-me também que é verdade que muitas das vezes as mulheres aceitam voluntariamente envolver-se sexualmente com estes homens. Mas, a questão é que, basta um olhar dos mesmos para se instalar um pânico imenso, só de pensar nas consequências que o ato de recusar pode trazer à mulher. É desolador. Desolador pensar que uma mulher não pode ser livre no seu local de trabalho, com medo que um homem, hierarquicamente superior, possa por o seu futuro, pessoal e profissional, em causa.

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Encontramo-nos em pleno Século XXI e está na altura de acabar com a perversidade de confundir e enganar a mulher, por forma a levá-la a praticar atos sexuais. Não só está na altura de acabar com esta perversidade, como está na altura de abolir com todo o bullying que advém da escolha da mulher de efetivamente estar com um homem num cargo hierarquicamente superior. Sim, porque o problema não está só no homem que engana, mas no colega que julga e na empresa que prefere esconder.

Incentivemos todas as mulheres a denunciar e a quebrar o silêncio, não fosse a verdade a arma mais poderosa que todos temos em mãos.

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