Missão Humanitária do Cartaxo para a Guiné

A Quinta do Saraiva recebe na sexta-feira, 1 de março, uma Noite de Fados solidária, que vai juntar em palco os fadistas Manuel José Duarte, Hugo Faustino, Isilda Maria, Vasco Casimiro, Mário Guerra, Ginestal Martins e Ana Paula Santos, acompanhados à guitarra por Nuno Ezequiel e à viola por Alexandre Santos.

As marcações podem ser feitas pelo 913 065 406, 964 115 316 ou pelo 912 670 917 até dia 25 de fevereiro.

Os eventuais lucros desta Noite de Fados revertem a favor do envio de um contentor de bens para a Guiné Bissau, da missão humanitária Bolanha do Canchungo, da Associação Tabanca Pequena.

Esta associação, sediada no Porto, reúne ex-combatentes da Guerra Colonial na Guiné, que têm em comum o amor àquele território, e que tentam, de alguma forma, ajudar.

Maria Isilda Moreira e Mário Guerra são dois dos membros da Tabanca Pequena. ” O ano passado, como fazia 50 anos que o Mário tinha ido para a guerra, resolvi oferecer-lhe a viagem. Mandámos algumas coisas por correio para o hotel para onde íamos para distribuir lá, uns caixotes, levámos o máximo que podíamos levar em malas de porão, mas nunca é suficiente, é uma gotinha de água num copo de água. E chegámos à conclusão, depois de fazermos o país todo, que as carências são de toda a ordem e muito grandes. Chegámos, pusemos tudo de parte, limpámos a cabeça, não pode ser de outra maneira. Mas, depois, começou a germinar aquela história de ‘e se a gente fizesse mais qualquer coisa?'”. começa por explicar Maria Isilda Moreira.

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Daí a começarem a contactar amigos e conhecidos foi um ‘pulinho’. “Começámos a contactar amigos e conhecidos, os nossos sobrinhos entusiasmaram-se com o projeto, associaram-se a nós, e como eles trabalham numa escola e na Infraestruturas de Portugal têm uma rede de amigos muito grande, quando demos por nós, aquilo que seriam mais uns caixotes por correio passou a ter já uma dimensão para um contentor de seis metros, e de um contentor de seis metros já vamos num de 12”, adianta, bem disposta.

Mas nem tudo foi tão fácil quanto a adesão a este projeto. Uma das primeiras dificuldades com que Isilda e Mário se depararam foi encontrar, na Guiné Bissau, uma associação que permitisse fazer a ligação direta entre os dois países, porque, explica Isilda, “uma das pessoas com quem tínhamos uma relação direta numa outra associação para o desenvolvimento em África, com sede em Bissau, morreu. Era a associação que nos permitia fazer a ligação direta, ou seja, as coisas saiam daqui, iam dirigidas àquela associação que, como residente, tinha o direito de desalfandegar, fazer a distribuição, etc”, uma vez que “nós, como entidade estranha à Guiné Bissau, não temos esse direito”.

Mas esta dificuldade não os fez desistir. Assim, “conseguimos, depois, por contactos à esquerda e à direita, uma fundação com sede em Bissau, que vai ser a donatária da carga, embora a carga não se dirija só a essa fundação, que também trabalha na área humanitária, de apoio às crianças”.

O objetivo é tentar desalfandegar os bens o mais rapidamente possível, revela Isilda, até porque “em princípio, o barco parte a 26, chegará a dia 10, que é um dia muito problemático porque é o dia das eleições na Guiné, o que não sabíamos quando começámos isto, em outubro. Nós chegaremos a 19, vamos ficar até 30, e esperamos que nesse período, entre 10 e 19, com essa fundação e com o despachante oficial, que nos vai ficar quase em 2000 euros, consigamos desalfandegar entre 10 e 19, para quando chegarmos podermos dispor da carrinha e fazer os carregamentos em função do roteiro que já fizemos”. A carrinha que Isilda e Mário compraram com o intuito de “oferecer na Guiné, para podermos fazer a distribuição dos bens, porque chegar lá e ter de alugar um jipe, fica caríssimo. Do nosso bolso, decidimos comprar esta carrinha para doar”.

“Teremos de fazer viagens de ida e volta ao mesmo sítio, porque levamos muita coisa, e não queremos chegar ali e entregar uma t-shirt a cada miúdo, queremos entregar a cada miúdo, por exemplo, três mudas, e a cada mãe, pelo menos, dois ou três sacos de comida, e a cada centro hospitalar o suficiente para terem compressas para, pelo menos, seis meses, ou seringas para um ano”, são os planos dos mentores desta missão humanitária.

No contentor de 12 metros irão “máquinas de medição da tensão, de colesterol, temos gaze gorda para os casos de queimaduras, que são muitíssimo graves, lá, e eles não têm nada com que os tratar, temos esterilizadores de instrumentos cirúrgicos, máquinas de aerossol… temos grampos umbilicais, temos produtos desinfetantes… tudo o que possa imaginar na área da enfermagem médica. E só não temos mais porque, por exemplo, se nós mencionamos medicamentos, não passam”, lamenta Isilda.

Além deste material, a missão tem para entregar máquinas de costura, carrinhos de bebé, porta-bebés, cadeiras de rodas, livros, material escolar, “fraldas não descartáveis, de pano, para não as deitarem para a mata, temos banheiras… temos a casa cheia!”, ri Isilda, no centro daquilo a que chama a Caverna do Ali Bábá.

A maior parte dos bens foi conseguida junto de particulares, exceção feita a duas farmácias, entre as quais, a Farmácia Central do Cartaxo, uma empresa que doou 150 quilos de farinha de trigo, outra que ofereceu barrinhas energéticas, a Lavricartaxo doou sementes e a Casa Brincheiro ofereceu muita roupa interior. A LabCartaxo também contribuiu para esta recolha de bens.

Além de ser uma grande operação de logística, a missão tem um custo bastante avultado, uma vez que “o transporte e o aluguer do contentor são 3400 euros, mais o camião que tem de vir aqui carregar, porque o contentor não cabia aqui, e depois temos mais 1750 euros do despachante na Guiné Bissau, fora todas as taxas que nos venham a pedir. Para desalfandegar a carrinha, por exemplo, são à volta de 400 euros, se escaparmos aos direitos de importação, se for considerada mesmo doação de uma associação para outra. Se não, anda à volta dos 3300 euros. Se fizermos as contas, é um monte de dinheiro, mas pronto, não fazemos férias durante muitos anos”, assegura, bem-disposta, realçando que a Tabanca Pequena vai pagar cerca de metade dos custos.

É com o objetivo de angariar algum dinheiro mas, sobretudo, de dar visibilidade ao projeto que decidiram organizar a Noite de Fados de dia 1 de março. “A Noite de Fados, no fundo, é para dar um bocadinho mais de visibilidade ao projeto, mas não é dali que vai vir o dinheiro, porque também temos despesas. 60 jantares vão ser para pagar despesas evidentes. Depois, vêm as outras associadas, não sei se precisamos de instalação sonora na sala, temos de comprar pacotinhos para embrulhar as prendinhas das rifas… Depois de deduzirmos essas despesas todas, se calhar, ainda vamos por dinheiro para a Noite de Fados”, antevê Isilda.

Por isso, quem quiser contribuir pode fazê-lo através do NIB PT 50003600869910005722224. Aquando da transferência, deverá acrescentar ‘Tabanca Pequena’ e a referência ‘Contentor’.

No entanto, e depois de uma longa conversa com Isilda e com Mário, é fácil perceber que não desistem. “Um dos lemas da minha vida é tentar repartir com os outros aquilo que a vida me permitiu ter. A vida não me deu nada, mas deu-me uma grande força”, confessa Isilda, ao mesmo tempo que diz, com a alegria, mas também o cansaço, no rosto que “levamos a vida nisto. A nossa vida é acabar de comer, ir para o computador fazer listas e responder à correspondência oficial, e tentar dormir alguma coisa e, às 6h, 6h30, voltar”.

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