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MOALI: a indústria que revolucionou o Cartaxo

"Quem passa hoje na Estrada Nacional 3, entre os quilómetros 21,6 e 21,8, a dois quilómetros do Cartaxo, vê um grande edifício industrial, com uma fachada de centenas de metros, e dificilmente imagina que foi das poucas empresas do Cartaxo com importância nacional e internacional, e a actividade e impacto que teve na sociedade e na economia local. O edifício da antiga MOALI, Máquinas Industriais S.A.R.L. é hoje uma ruína gigante de memórias que se esfumam, à medida que as gerações que lá trabalharam vão desaparecendo. Entre as memórias que importam resgatar, são as relacionadas com o operariado e o cadinho de experiências revolucionárias, uma espécie de revolução ainda antes da Revolução do 25 de Abril de 1974". Bagos da Memória, por Pedro Gaurim

By Jornal de Cá

January 14, 2026

Bagos da Memória, por Pedro Gaurim

Foi o antigo funcionário Aires Miranda, que hoje com os seus 87 anos, ávidos de vida e energia, nos transmitiu, amavelmente, por várias conversas telefónicas, um valioso testemunho, que é sempre louvável nos meios de comunicação, sobre a História desta unidade industrial e a sua experiência pessoal. Esta memória, que não foi publicada sem a revisão do entrevistado, para evitar gralhas de informação de uma época que não vivemos, estrutura-se em três partes: na primeira parte apresentamos Aires Miranda; na segunda parte explica-se o impacto social no meio local com referência aos momentos anterior e posterior à Revolução do 25 de Abril de 1974; na terceira parte caracterizamos a fábrica, as suas origens e actividade.

 

As memórias de José Aires Miranda José Mendes Aires Miranda nasceu a 28 de Fevereiro de 1938 na freguesia de Cernache do Bonjardim no Concelho da Sertã. Fez o ensino primário na Escola Nº6 do Bairro de Campo de Ourique tendo ingressado na Escola Industrial Machado de Castro entre 1951 e 1956. Morou em Lisboa no bairro de Campo de Ourique onde tem as suas recordações de meninice e juventude. Casou em 1962.

 

José Mendes Aires Miranda

Aires Miranda trabalhou entre 1955 e 1961, na SOREFAME (Sociedades Reunidas de Fabricações Metálicas), ainda antes de fazer o exame final do “Curso Industrial de Serralheiro Mecânico” e ainda antes da SOREFAME, trabalhou na O.G.M.A. em Alverca, na indústria aeronáutica, no fabrico de flaps e ailerons para as aeronaves Chipmunk, onde era técnico de preparação de trabalho e métodos. A SOREFAME era a maior empresa metalomecânica de Portugal, uma grande escola de conhecimento industrial, fundada na Amadora em 1943. Nesta fábrica, que a partir da década de 1950 se torna conhecida como importante construtor de material circulante ferroviário e que foi motivo de orgulho nacional, Aires Miranda adquiriu experiência em Métodos de Organização do Trabalho, que irá implementar na MOALI. Muda-se para o Cartaxo motivado pelos ordenados da MOALI, mais altos que os da SOREFAME. Entra na MOALI em 1961, onde permaneceu 9 anos e aí implementou a prática do Desenho Técnico, substituindo a prática da amostragem, método que consistia normalmente em fabricar a partir de um molde existente, que já era considerado um método mais antigo e obsoleto. Passaram-se a fazer croquis ou esboços e todas as componentes da maquinaria eram desenhadas. A MOALI era conhecida por oferecer ordenados comparativamente mais elevados, tendo essa sido uma estratégia para se fixar no meio e captar mão de obra. Foi essa a principal motivação para se estabelecer no Cartaxo, com uma subida significativa de ordenado, dos 2750$00 na SOREFAME para os 3250$00 na MOALI. No Cartaxo instalou-se com a esposa na Rua José Tagarro, nas novas moradias em banda do “Chico Bernardino”, acabadas de construir por iniciativa do negociante de vinhos Francisco Nogueira Bernardino. Aqui viria a nascer a sua filha.

Começou como preparador de trabalho e depois como desenhador. Ensinou os operários a ler os desenhos técnicos: planificações, intersecções, etc. Até 1961, Aires Miranda só conhecia o Cartaxo de passagem, porque atravessava a vila desde pequeno na Estrada Nacional 3, sendo esta a grande ligação entre a Capital e as Beiras, nas viagens de automóvel ou autocarro que fazia com a família, entre Lisboa e a sua terra natal. Aires Miranda entrou para a MOALI cerca de um ano depois da fábrica abrir.

Aires Miranda foi delegado sindical, sendo nomeado pela Direcção da empresa para representar todos os funcionários junto do Sindicato dos Metalúrgicos. Aires Miranda e José da Cruz (o “Zé Cruz”) vieram a formar o primeiro Centro de Alegria no Trabalho (CAT) no Concelho do Cartaxo, estrutura associada à antiga FNAT (Federação Nacional para Alegria no Trabalho) e actual INATEL, que funcionou no edifício chamado “Correios Velhos”, no Largo do Sargento-Mor (onde tinha funcionado os correios até 1967, altura em que foram transferidos para o actual edifício). O CAT da MOALI tinha televisão, mesas de matraquilhos, etc. e era habitual os operários, após jantarem em casa, irem confraternizar durante o serão. O CAT realizava as festas de Natal dos filhos do pessoal da MOALI, com brinquedos que iam comprar na região de Leiria. Como o CAT não tinha fundos próprios, sendo as iniciativas subsidiadas pela Direcção da MOALI.

Relativamente a actividades recreativas e de lazer para trabalhadores, vale a pena referir que a o CAT da MOALI chegou a ter uma equipa de futebol de salão, informal, que disputava partidas entre funcionários, por exemplo, entre solteiros e casados e participava também em torneios com equipas de outras entidades locais. Chegaram a ir a Santarém ou Torres Novas e jogavam no Pavilhão da FNAT (actual INATEL, na Rua Aida Cunha e Silva, Cartaxo). Também eram habituais os almoços de confraternização ao sábado e jogos de futebol entre solteiros e casados, no campo das Pratas, confraternizações em que chegavam a vir equipas de Lisboa.

 

Memorias Fotograficas do Cartaxo, arquivo da Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita

O impacto social da MOALI no meio local A MOALI teve um grande impacto social no Cartaxo, que era uma região com monocultura de vinha. O recrutamento de mão-de-obra local pela MOALI provocou à época a natural reacção e até alguma repulsa por parte das Casas Agrícolas, dos vitivinicultores, dos armazenistas/negociantes de vinho e das oficinas de serralharia, que não pretendiam rivalizar na captação de mão-de-obra com as condições nomeadamente da MOALI, que ofereciam vencimentos superiores e outras regalias.

Mais tarde, vieram pessoas da zona de Pombal para se fixar no Cartaxo, que foram denominadas de “compra-tudos”, por comprarem terrenos agrícolas disponíveis, o que não era muito vulgar naquele tempo. Diversificaram um pouco a produção agrícola, melhorando a oferta do mercado municipal, que era bastante limitado em termos hortícolas devido à preponderância da vitivinicultura.

A MOALI também teve impacto na fuga de mão de obra das oficinas locais, sobretudo nas de serralharia, mecânica e carroçarias, que constituíam uma parte significativa das oficinas.

A MOALI teve impacto na dinâmica do comércio e da restauração, contribuindo para aumentar o movimento comercial pelo maior número de clientes com poder de compra. Neste aspecto, refere-se o Jardim-Bar, situado na Praça 15 de Dezembro, a muito frequentado pelo pessoal da MOALI, por aí se situar a paragem da camionagem Vinagre e a paragem do transporte oferecida pela empresa ao pessoal técnico.

A MOALI foi um atractivo tão forte a nível regional que provocou migrações. Muitos vieram de Abrantes, outros de vários cantos do Alentejo, e o facto das pessoas virem trabalhar para o Cartaxo, acabavam por trazer mais gente, tendo-se alcançado seguramente, em determinado momento, que metade dos funcionários fossem não originários do Cartaxo, atendendo a que, também no Cartaxo não existiam determinados saberes e ou especialidades suficientes como torneiros, fresadores, soldadores e afinadores de mós.

Neste particular, deve-se referir que a MOALI nunca retirou pessoal às indústrias cerâmicas da Cruz do Campo, na altura uma actividade importante no concelho, porque eram operários especializados em áreas muito diferentes e com muito menor sofisticação produtiva.

 

A Revolução do 25 de Abril na fábrica Aires Miranda saiu da MOALI em finais de 1971, na sequência de despedimentos que envolveram também o chefe da soldadura e o chefe da Organização do Trabalho, como forma de intimidar outros trabalhadores nas suas reivindicações laborais. A PIDE por vezes percorria a fábrica, em andamento de passeio, observando demoradamente os operários.

Aires Miranda veio a fundar, conjuntamente com Filipe Negreira, Manuel Rosa, Armando Cavaleiro, Joaquim Inácio e José Calção Coelho a empresa SOREMEMO (Sociedade de Reparações de Metalomecânica e Montagens) em Dezembro de 1973, na Estrada das Várzeas, que foi a primeira de várias empresas metalomecânicas fundadas no Cartaxo por antigos funcionários da MOALI e a única criada antes da Revolução do 25 de Abril de 1974. Várias outras empresas se formaram com pessoal saído da MOALI, nomeadamente a METALGRUPO, a METALCARTAXO, A METAL 3 e a VICAPE, bem como, a LUPEX, fundada por Bento Rosa, (também antigo desenhador e dirigente da MOALI), na Zona Industrial do Cartaxo.

No período anterior à Revolução de 25 de Abril 1974, houve focos de insubordinação entre o pessoal e as chefias, em que eram reivindicados sobretudo aumentos salariais, pese embora, fosse frequente a PIDE deambular pela fábrica, observando os operários como forma de intimidação.

Estas acções de reivindicação agravaram-se após a Revolução, iniciando o longo período de declínio da fábrica. Neste processo de declínio não foram alheias as saídas de algumas chefias, cansadas pela incapacidade de comandarem as operações de produção devido à agitação política no meio operário. Foi o caso do sócio Faria Amaro, que foi para a Áustria e para a Bélgica onde tinha uma empresa, levando Bento Rosa consigo, devido à elevada competência deste.

 

Memorias Fotográficas do Cartaxo, arquivo da Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita

[Epílogo]

A MOALI tornou-se uma escola muito importante para os seus trabalhadores e se diferenciava no sector metalomecânico pela qualidade dos seus produtos. A empresa reuniu especialistas metalúrgicos que vieram de vários locais, como Jorge Rodrigues, de Lisboa, e Correia da Silva que veio da Casa Hipólito (Lisboa), sendo um sítio onde os operários acabaram por ganhar conhecimentos especializados nas diversas áreas, indo mais tarde trabalhar para novas empresas metalúrgicas que se fundaram no Cartaxo a partir da década de 1970.

Quando a fábrica fechou e os operários ficaram sem trabalho, havia ordenados em atraso, tendo levado cerca de uma década a serem indemnizados.

No final houve um leilão e a fábrica foi comprada por sucateiros, que tiveram por interesse desmontar e vender a maquinaria, de ferro, a peso, restando apenas a grande carcaça de betão e tijolo, com coberturas de amianto, ao abandono, que ainda se vê.

Nas memórias de Aires Miranda, não houve nenhum acidente grave de trabalho ou mortes. Nem memória de haver reportagens de meios de comunicação social na fábrica, que pudessem ter realizado registo fílmico das instalações.

 

 

Inícios da MOALI Os estatutos da MOALI, datados de 11 de Abril de 1960, foram publicados no Dário do Governo, a 2 de Maio desse ano. No início, a sua actividade destinava-se ao mercado de máquinas industriais de moagens alimentares, de onde vem o nome MOALI. Nos estatutos da MOALI pode ler-se que o seu objecto social se insere na “indústria de fabrico de máquinas, aparelhos e diversos equipamentos de transporte e conservação de cereais e outras indústrias de alimentação e transformação de produtos agrícolas”. A MOALI pertencia à SOCAM (Societè de Construction d’Apareils Mécaniques) de Paris, onde foi sediada no Nº225 da famosa Rue de Saint-Honoré. Além da SOCAM, os outros principais accionistas foram o Eng.º João Falcão Ramalho Ortigão, o major Eurico José Branco de Faria Amaro e o Eng.º Rui Pereira Ramalho Ortigão.

A sede da MOALI era na Av. Da República, nº 32, sendo aí que se encontravam os engenheiros. Os projectos eram executados em Lisboa e distribuídos a Correia da Silva, encarregado geral.

 

Memorias Fotográficas do Cartaxo, arquivo da Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita

No Cartaxo, a fábrica foi implantada num terreno com cerca de 3,5 ha (para termo de comparação, a área ajardinada do centro do Cartaxo tem 4 ha). A área construída inicial, correspondente a oficinas, tinha cerca de 500m2. No início o local situava-se na freguesia de Pontével e mais tarde passou a pertencer à de Vale da Pedra, após a sua fundação em 1988. A proximidade ao centro urbano do Cartaxo, fez com que os funcionários fossem daí provenientes ou que residissem na sua maioria, incluindo os oriundos de outras geografias. Também no início, a Direcção era composta por 3 elementos: dois engenheiros da SOCAM e um encarregado geral, Correia da Silva, pessoa de reconhecida competência técnica devido ao Curso Industrial tirado na Casa Pia e do seu reconhecimento profissional.

As instalações da MOALI terão sido construídas por administração directa, ou seja, sob a própria direcção de Correia da Silva a desenvolver o projecto das instalações.

O edifício administrativo, encontrava-se separado dos pavilhões fabris, ao longo do caminho vicinal perpendicular à Estrada Nacional 3, na qual está a larga entrada da fábrica, aí estrategicamente colocada para evitar constrangimentos na referida Estrada Nacional. Também fora do edifício fabril ficava a carpintaria, a forja e mais tarde as secções de decapagem e pintura industrial inicialmente com jacto de areia e ultimamente com jacto de granalha.

Os diferentes acessos ao edifício industrial eram usados, indiscriminadamente, para entrada dos materiais e saída dos sub-conjuntos ou conjuntos a enviar ao cliente.

A ala fabril era composta pelos gabinetes técnico, secção de mecânica, secção de serralharia civil, zona de pintura, balneários, armazéns, ferramentaria.

No início da sua actividade, a MOALI construía peças de serralharia ligeira, destinada ao sector da moagem: sassores ou purificadores (espoeirante de farinha), eclusas, planchisteres, moinhos de martelos para partir grão, silos, elevadores de alcatruzes, e todo e qualquer equipamento inerente à indústria de moagem, para o mercado nacional.

O fornecimento de electricidade para a fábrica, era garantido por um posto transformador dispondo para o efeito de uma cabine eléctrica própria. Havia electricistas de serviço (por ex. o Sr. Vaz Pinto, que teve uma oficina de reparações eléctricas na Rua do Quintino no Cartaxo).

Por outro lado, atendendo a que a fábrica estava fora da zona urbana do Cartaxo, os efluentes fabris eram descarregados em fossa séptica própria.

As duas grandes indústrias metalomecânicas concorrentes da Moali eram a Mague em Alverca e a Soares da Costa no Porto.

 

Os fornecedores da MOALI? Os principais fornecedores da MOALI eram as empresas J.B.Fernandes (Lisboa) e o A. J. Vassalo (Vila Franca de Xira), que por sua vez importavam os materiais de países como Alemanha, Bélgica ou França. Com a expansão, a Moali chegou a fazer importação directa, sobretudo de chapas de grandes dimensões e materiais perfilados.

No parque de materiais, destinadas à transformação, bem como as peças já acabadas para serem entregues aos clientes, ficavam armazenadas no parque exterior, sobre ripas de madeira assentes directamente no chão. Neste parque exterior circulava uma grua móvel para fazer o transporte das peças entre o parque de materiais e as oficinas e por fim o carregamento e transporte para as instalações dos clientes.

A última fase de fabrico, antes da entrega ao cliente, eram os trabalhos da oficina de decapagem, inicialmente com jacto de areia e ultimamente com jacto de granalha, seguida dos trabalhos na oficina de pintura.

 

Memorias Fotográficas do Cartaxo, arquivo da Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita

Maquinaria de produção industrial na MOALI A MOALI dispunha de grande diversidade de maquinaria: quinadoras, para dobrar chapa metálica, calandras, para enrolar chapa metálica, pontes rolantes, guinchos, gruas, diferenciais, rebarbadoras, ar comprimido, etc. A nave 3 dispunha de uma ponte rolante com uma distância entre apoios de 20 metros, sendo que a distância do gancho ao chão era de 12 metros de altura. Nesta nave havia uma máquina de exi-corte automática, uma calandra que enrolava chapa até 20mm de espessura para fabrico de tubos de grande diâmetro, destinados sobretudo à construção de fornos de cozedura e transformação de pedra e carvão, em cimento. Na nave 3 estava igualmente instalada a máquina principal de soldadura automática de chapa de grande espessura

De um modo geral, as soldaduras efectuadas por soldadores (qualificados e certificados pelo IPSQ), eram testadas no sentido de detectar eventuais fissuras, com líquidos penetrantes ou através de radiografia industrial.

Memorias Fotográficas do Cartaxo, arquivo da Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita

A fábrica teve três ampliações, tendo aumentado a área de produção com novos edifícios, quando começou a expandir os seus trabalhos para o sector automóvel, em unidades localizadas na região de Setúbal e veio a construir estruturas metálicas para a refinaria da SACOR (Sociedade Anónima de Combustíveis e Óleos Refinados). Inaugurada em 1970 esta refinaria, recentemente da Galp em Leça da Palmeira/Leixões, situava-se entre os lugares Boa-Nova e o Cabo do Mundo (pertenceu à Petrogal desde 1975, encerrada em 2021). No Arquivo da RTP Online, é possível ver uma reportagem de 3 de Maio de 1977, sobre o embarque no Cais de Santa Apolónia, em Lisboa, de máquinas industriais e uma ponte rolante para o Bahrein, fabricadas na Moali.

 

 

Estruturas e maquinaria produzida pela MOALI A MOALI desenvolvia projectos por encomenda, realizados pelos engenheiros na sua sede em Lisboa e apresentando soluções técnicas aos clientes, mediante o que era solicitado, pelo que, esta actividade não tinha propriamente um catálogo de produtos previamente estabelecidos. Para além disso, a MOALI produzia com base em projectos fornecidos por empresas estrangeiras (dinamarquesas, francesas, alemãs, etc), funcionando como empresa sub-empreiteira. A MOALI esteve presente no fornecimento de diversos equipamentos para todas as indústrias de celulose e papel, bem como todas as cimenteiras de Portugal. Também a indústria naval teve o contributo da MOALI, como a LISNAVE e a SETENAVE nos seus inícios, com a fabricação de pórticos e pontes rolantes de diversas capacidades.

Memorias Fotográficas do Cartaxo, arquivo da Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita

Para além dos sectores automóvel e petroquímico acima referidos, A MOALI também construiu maquinaria industrial para o sector industrial dos cimentos, como moinhos e fornos para a cozedura, para os quais se verificou necessário que a nave 1 fosse aumentada para os 100 m. de comprimento, tendo-se depois construído a nave 3, que dispunha de uma ponte rolante com capacidade de muitas mais toneladas de elevação, possibilitando  a construção de fornos de 3 m. de largura por 50 m. de comprimento.

Também construiu maquinaria para o sector mineiro, como para a Eurominas (Mitrena, Setúbal), para o sector cervejeiro, com projecto alemão para a fábrica da Sagres, em que estiveram na MOALI soldadores alemães, bem como, para empresas estrangeiras (Dinamarca, etc.), que contratavam a MOALI para sub-empreitadas dos seus projectos.

Também construiu maquinaria para moagem de trigo, tendo adquirido uma estriadora para a retificação dos rolos de moagem.

Tendo em conta o natural desenvolvimento e mutação dos produtos fabricados, bem depressa se verificou ser necessário instalar uma secção de controle de qualidade que com total independência e isenção garantisse aos seus clientes cada vez mais exigentes, que os equipamentos encomendados seriam fornecidos, respeitando rigorosamente, as normas e exigências técnicas apresentadas pelas mais diversas instituições nacionais e/ou internacionais.

Com essa finalidade para a secção de controle de qualidade foram adquiridos todos os equipamentos necessários à verificação das tolerâncias de precisão, dureza dos materiais e estanquicidade dos diversos tipos de soldadura efectuados nomeadamente soldadura manual, soldadura a árgon, soldadura semi-automática, soldadura automática e soldadura por pontos.

Para execução de todos estes tipos de soldaduras, os operários eram sempre que necessário e/ou exigido , submetidos a exames de especialização e autenticação realizados normalmente pelo Instituto Português de soldadura e Qualiade e/ou outro organismo técnico, quando exigido pelo caderno de encargos do projecto a executar.

 

Memorias Fotográficas do Cartaxo, arquivo da Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita

O transporte das peças construídas na MOALI para o destino As peças construídas eram sempre transportadas por outras empresas, sendo algumas transportadoras especializadas, como a antiga camionagem Rosa Douro (fundada em 1935 e localizada na Castanheira do Ribatejo) com garagem em Cartaxo no sítio do “Quintalão” (actual Urbanização do Quintalão) e as transportadoras locais do Cartaxo, como as Camionagens Matias, José Matos, TRACAR (Renato Caria) e a Gaivoto, peças que devido à sua dimensão e peso, eram normalmente transportadas de noite em transporte especial. As estruturas e a maquinaria eram transportadas em partes separadas, dada a sua grande dimensão, sendo montadas no seu local definitivo, por equipas de montadores especializadas da MOALI.

Depois de acabadas, algumas peças de maior dimensão exigiam transporte especial até ao destino final, a casa do cliente, estas saíam da MOALI fora das horas normais de serviço, circulando de noite, aproveitavam o menor movimento de tráfego nas estradas, sendo o transporte acompanhado pela polícia.

Construções metalomecânicas realizadas e destinadas a montagem nas indústrias localizadas na proximidade das instalações da MOALI, terão sido apenas os pavilhões das linhas de montagem automóveis da FORD e da GM (Opel e Vauxhall) na Azambuja.

 

Organização do operariado da MOALI O operariado concentrava-se nas alas fabris e na carpintaria. Haviam sete equipas de pessoal, compostas por cerca de 8 a 9 operários cada, sendo os seus chefes de equipa na década de 1960: Lima, Joaquim Galego, João Caeiro, António Castanheta, Amílcar Duarte, Artur Godoy e Manuel Rolaça.

 

Memorias Fotográficas do Cartaxo, arquivo da Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita

O quotidiano dos funcionários e as conquistas laborais A partir de meados da década de 1960 foram conseguidos alguns benefícios, como um intervalo a meio da manhã para os operários comerem uma “bucha”, o que antes tinha se fazia às escondidas.

No início da actividade a MOALI dispunha apenas de um refeitório. Mais tarde, o pessoal técnico criou uma cantina na Rua Mouzinho de Albuquerque em frente ao antigo posto da P.S.P. (perto da Tipografia Pimenta, a P.S.P. só passaria para o edifício da Camarário em 1982). O transporte era feito à hora de almoço num mini autocarro. O gabinete técnico tinha aproximadamente 20 pessoas.

As deslocações do pessoal não técnico, entre o Cartaxo e a MOALI, como os serralheiros, serventes, etc. eram efectuadas por meios próprios, a pé, de bicicleta e alguns poucos de motorizada. Só mais tarde passaram a usar os autocarros, passando a haver uma paragem na Estrada Nacional 3, junto da MOALI, servida pelas camionagens Vinagre, Ribatejana e Claras.

Na MOALI havia uma Sala de Desenho e um Gabinete de Estudo que contribuíram para fixar os funcionários que se valorizaram através de formação profissional, frequentando como trabalhadores-estudantes o Curso Industrial da Escola Ginestal Machado em Santarém.

A partir de meados da década de 1960, aos funcionários que tinham apenas a 4ª classe foi dada a possibilidade de realizar o Curso Industrial em Santarém, tendo-se conseguido que saíssem do trabalho duas horas mais cedo para que pudessem jantar em casa e terem tempo de chegar a Santarém para as aulas nocturnas.

Outra conquista dos operários a partir de certa altura foi a criação de uma cantina na fábrica, com cozinha com uma cozinheira e uma ajudante, tendo-se mantido o refeitório para quem trazia comida de casa.

Relativamente à participação de mulheres a trabalhar na empresa, a secção de compras e administrativa eram compostas maioritariamente por funcionárias, exceptuando-se o Sr. Raimundo Alexandre (contabilista).

Ainda a propósito das melhorias proporcionadas aos funcionários, vale a pena referir um anúncio de recrutamento de pessoal da MOALI, publicado no jornal Notícias do Cartaxo, de 23 de Fevereiro de 1973, onde se procuravam carpinteiros de moldes e operários para o sector de plásticos, onde se podia ler a forma de cativar operários, oferecendo-se: “bom vencimento mensal, prémios de assiduidade, semana de 5 dias, subsídio de Natal, Férias e Subsídio de Férias, estabilidade de emprego e bom ambiente de trabalho”.

 

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Um agradecimento ao Memórias Fotográficas do Cartaxo 

 

Anexo (por José Aires Miranda)

 

Sabendo de antemão que haverá falhas, porque não me lembro de todos os que por lá passaram (e por isso peço desculpa) e também porque não estive na MOALI até ao fim, não quero deixar de recordar alguns nomes, de quem de um modo ou de outro contribuiu para o desenvolvimento e a projecção da MOALI, para além dos já anteriormente mencionados.

Alguns já partiram e às suas famílias expresso o meu respeito e amizade, o que é naturalmente extensível aos ainda vivos, sendo que alguns dos quais ainda vou encontrando e saudando.

 

Agostinho (carpinteiro), Anacleto Silva, Albertino Gaspar, Alberto Brito, Alexandre (de Valada do Ribatejo), Antónia, António Alves, António Balau, António Barrela, António Brito, António Caria, António Custódio, António Maia Rosa, António Pantomino, António Patrocínio, António Tato, Batista (electricista), Eng.º Bernardino, Eng.º Brito Vasques, Bruno (ferramenteiro), Carlos  Bruno, Carlos Colaço, Carlos Horta, Cavaleiro (armazém), Casaca, Celeste (ajudante de cozinha), Eng.º Chagas Roquete, Conceição Antunes, Daniel Santos, Délio Valente, Emília (cozinheira), Fernando Alexandre, Fernando Pereira, Firmo Fagulha, Floresta Júlia, Garcia, Garrido, Humberto Gomes, Ismael, Ivone Antunes, James Blades, Júlio (pedreiro), João C. Almas, João Mota, João do Vale, Joaquim Alves, Joaquim Camacho, Joaquim Madeira, Joaquim Patrício, José Acencadas, José Augusto, José B. Brás, José D. C. Horta, José Durão, José Formigo, José M. Carvalho, José Mateus, José Miquelino, José Ribeiro, José Venceslau, José Vieira, Leonel Carvalho, Luís (torneiro), Manuel Amorim, Manuel Esteves, Manuel “Lula”, Maria do Carmo Guedes, Mário Gonçalves, Mário Pego, Manuel Vaz Pinto, Maria Albertina, Matias Jarego, Mestre Mota, Moreira, Noé (ferramenteiro), Pedro D. Cruz, Quaresma, Rogério Piedade, Rui Barrela, Eng.º Sottomayor, Venceslau Inácio, Vicente (carpinteiro), Virgínia Fragoso, Vitor Miranda, Vitor Mota, Vitor Sá (electricista)