Momentos ternurentos

Opinião de Jorge Honório

Tem sido com um sentimento de profunda ternura que venho assistindo nestes últimos tempos ao navegar da nossa esquerda por mares nunca antes navegados; os nossos esquerdistas estão por tudo, nos tempos que correm, tão bem comportados, tão satisfeitos, tão queridos. Eis alguns dos momentos que me apraz registar:

PEC: Por demais orgulhosos do cumprimento das metas do “Pacto de Estabilidade e Crescimento”, aquele que ainda há pouco tempo era por eles considerado como o “Pacto de Agressão” e que nos impõe austeridade, tão ufanos de pela primeira vez termos alcançado um défice nunca antes atingido. Tão fofinhos…! Ainda que à custa de uma redução de investimento público sem precedentes, nos transportes, na saúde, na educação, de perdões fiscais que apenas beneficiam quem não cumpre, de vendas de F16, com um crescimento económico na cauda da UE, inferior ao do tempo do Passos Coelho,… Mas que importa isso quando o FMI nos dá os parabéns e os fundos de investimento nos agradecem os altos juros que lhes pagamos!

LIVRE COMÉRCIO: tão ternurentos quando se indignam com o presidente americano Trump por este pretender pôr travões a algumas políticas de livre comércio resultantes da globalização, por aquele apelar a um certo grau de protecionismo económico, por não ser um grande simpatizante da União Europeia, do euro,… Longe vão os tempos em que a esquerda rejubilava com os Planos Quinquenais, a economia estatizada tipo soviética, que tão bons resultados deram (vejam-se os exemplos da União Soviética, da Coreia do Norte, da Venezuela,…).

NATO: também esta “organização militar, ao serviço do grande capital e da alta finança, sustentáculo da indústria militar, braço armado do imperialismo americano”, merece agora a simpatia e o carinho dos nossos homens de esquerda. Então não é que o Trump quer reduzir o financiamento desta força agressora, bem como reduzir o número de efetivos militares na Europa,… E se acontecer algum conflito por estas bandas, quem é que vai oferecer o corpo às balas? O pessoal daqui? Era o que faltava! E quem paga as nossas missões no estrangeiro, que dão um jeitão a alguns? O Trump está maluco, só pode!

Dito isto, despeço-me com toda a ternura possível!

Crónica publicada na edição de fevereiro do Jornal de Cá.

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