Mordomo de trazer por casa

Opinião de Carlos Gouveia

Este ano calhou-me na rifa ajudar a servir à mesa nas festas de Vila Chã de Ourique, uma tarefa que parece impossível, com as dezenas de famílias e grupos de amigos que se sentam para ser atendidos e deliciarem-se com o bacalhau com migas ou carne de porco acompanhado por alguns copos do vinho do produtor. Estava bastante enferrujado, querendo satisfazer todos os olhares e braços no ar em forma de pedido, alguns simpáticos e pacientes que sabem que estas coisas demoram e outros mais desesperados e rezingões que dizem mal de tudo o que aparece à frente, típico encolher de ombros “isto só acontece neste país, uma vergonha”. Gerir expectativas não é fácil, especialmente quando é a barriga a mandar e as postas de bacalhau a passar entre mãos sem chegar ao prato que está à nossa frente.

A última vez que tinha servido à mesa ainda devia ser menor de idade, numa festa pequena de bairro para ajudar as despesas correntes do rancho folclórico de que fazia parte. Era um “garçon”, com bandeja na mão e pano branco enxuto à volta do braço, a fazer rondas com bebidas e pratos de moelas por mesas improvisadas num campo de terra e meia dúzia de gambiarras coloridas que iluminavam um palco com fadistas de alma lusitana com pose de pregador. A responsabilidade de servir a vizinha do 3º andar do prédio ao lado que passava a vida à janela e que tinha a alcunha de “Correio de Manhã” era enorme, não fosse ela no dia a seguir lançar mais um boato desgostoso pelas ruas do bairro por outras cúmplices, acabando sempre por parar aos ouvidos da minha mãe.

Acho que não defraudei ninguém da festa e ainda aprendi uma coisa importante, que partilho a quem abre garrafas de vinho: a lâmina ou navalha em forma de gancho de um saca-rolhas de alavanca serve para cortar o invólucro do gargalo da garrafa. Testado numa garrafa de Bridão tinto, com muito sucesso.

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