“Na minha empresa não se fala de futebol nem política”

Paulo Neves, empresário, espalha o nome do concelho um pouco por todo o mundo através de cofragens para a construção civil produzidas na Lapa

Uma empresa nacional, sediada na Zona Industrial da Lapa, vai espalhando o seu produto um pouco por todo o mundo. Um caso de sucesso, com muitos sacrifícios e luta à mistura, mas que se prepara para este ano fornecer a fachada dos novos escritórios da Gucci, em Paris. Uma boa mistura da alta-costura francesa com a alta capacidade de inovação portuguesa.

A Agrosport nasce, em 1990, com a vontade de Paulo Neves ter o seu próprio negócio. “Sempre tive essa vontade. Tive dois patrões na minha vida e no segundo, disse em certa altura que tinha vontade de sair. As pessoas não ficaram satisfeitas mas apoiaram-me. Até financeiramente.”

No início a sociedade, constituída por Paulo Neves e pela irmã, surgiu para trabalhar nas áreas da agricultura e também na área de desporto, publicidade e design. No entanto, a conselho de um amigo, a área de atividade mudou radicalmente. “Num almoço, conheci uma pessoa ligada ao ramo da construção civil que me aconselhou a trabalhar no ramo de equipamentos de construção civil” conta-nos Paulo Neves. “Na segunda-feira seguinte deixou-me um camião de equipamento com o compromisso de lhe pagar quando tivesse vendido tudo. E assim foi. Nasceu a Agrosport”.

 

No início a empresa começou com Paulo Neves a trabalhar sozinho e passados três meses com a sua mulher. A irmã do empresário, com as alterações entretanto processadas, só ao fim de um ano é que se junta à equipa mantendo-se na Agrosport até 1996. Na altura as coisas não estavam a correr muito bem. “Tive sorte. Posso dizer que estava tecnicamente falido mas vinham aí os anos de ouro da construção civil, que foram de 1996 a 2000. Em quatro meses paguei todas as dívidas. Foi um período a trabalhar dia e noite.”

Até 2008 a Agrosport foi uma empresa puramente comercial. Nos primeiros cinco anos comprava e vendia no mercado nacional. “Depois comecei a importar 90% do equipamento porque não havia grandes marcas em Portugal. Comecei a ir a feiras e a viajar para conseguir chegar com produtos inovadores e que fossem representados apenas por mim. Tínhamos de andar atentos ao mercado e às novas metodologias de construção. Ainda hoje não me deixo atrasar em relação a isso. Foi assim a minha vida até 2000 ou 2001 que é quando, para mim, começou a crise da construção civil”.

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De 2001 a 2008 a empresa atravessa um momento tranquilo. “Havia um menor volume de vendas mas foi uma época em que ainda consegui fazer investimentos. Não se ganhava muito dinheiro mas dava para se investir. Conseguia olhar-se para um futuro, não risonho mas descansado. Até que chegamos a 2008. Curiosamente eu, em setembro desse ano, senti logo que a crise vinha aí com o regresso de 200 mil trabalhadores de construção civil que estavam em Espanha a trabalhar. No ano e meio seguinte ficaram a dever-me mais de um milhão de euros e, nesse período, ainda investi cerca de 800 mil euros. E investi porque tinha um projeto, que não me saía da cabeça, para fazer cofragens de alumínio, que era um produto inovador. Meti um projeto ao QREN, um projeto normal, com taxas de juros reduzidas mas que tinha de ser pago. Fiquei sem dinheiro. Tudo o que tinha junto de 2006 a 2008 foi investido na empresa. Comecei a fabricar as cofragens. Em dois meses pus o projeto a andar e tive de me virar. Os primeiros painéis foram vendidos em Portugal e foram um sucesso, os segundos também foram e comecei então a apostar na internacionalização. Comecei pelos países do Magreb mas foi uma aposta que nunca deu nada. O mais estranho que me aconteceu foi chegar a Marrocos e ver o meu produto lá, a ser vendido por uma empresa francesa. Eles pensavam que o meu produto era cópia dos franceses. Decidi então virar-me para a europa. Aí as coisas já mudaram. Apanhei alguns clientes meus daqui, que entretanto tinham ido trabalhar para França, e fui fazendo contatos”.

 

Desta forma, a Agrosport vende atualmente para todo o mundo. “No ano passado, por exemplo, as Caraíbas foram o meu melhor mercado. Este ano foi Angola, curiosamente porque nunca vendi nada para Angola, nunca fui “angola-dependente”. O sítio mais estranho para onde já vendeu as suas cofragens foi Saint-Barthélemy, nas Antilhas Francesas “uma ilha de 24 quilómetros quadrados para onde vendi qualquer coisa como doze contentores. Este ano já carreguei outro e acho que nos próximos 2 ou 3 anos o mercado lá está esgotado”.

Como sabe que é impossível fazer paragens ou dar algum tipo de descanso ao mercado Paulo Neves prepara-se para novos desafios. “Este ano, tenho um desafio novo que são os Estados Unidos, Nova Iorque. Há um cliente interessado nas minhas cofragens e, a partir dele vou começar a exportar prumos de escoramento, um material que em Portugal não tem mercado e que tive de ir encontrar na europa para fornecer aos Estados Unidos. É um negócio interessante, que arrasta o meu negócio original e abre portas”.

Além das cofragens, a Agrosport vende igualmente fachadas de prédios. “É um mercado novo. Eles faziam em aço e eu lancei o desafio de fazer em alumínio. Fizemos agora cinco, para Paris e vamos fazer ainda a fachada dos novos escritórios da Gucci”. Salientando ao longo de toda a conversa que nada do que fez até hoje seria possível sem a equipa de trabalho que reuniu e que o acompanha há vários anos, dez funcionários que funcionam como uma família unida. “A regra de ouro é que na empresa é proibido falar de futebol e política”, revela-nos com um sorriso. Quanto ao futuro, Paulo Neves tem ideias bastante claras: “Tenho potencial para crescer, mas não tenho capacidade financeira para crescer mais. Falta-me um parceiro financeiro ou um vendedor internacional que neste momento não consigo alimentar pois temos de ter prioridades”. No entanto, não deixa de admitir que “o futuro é sorridente mas com muitas horas de sacrifício, sem horas para dormir. Tem de se pensar muito bem para onde se quer ir. E para vingar na exportação é preciso cumprir. Essa é a nossa aposta”.

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